DOMINGO, 23-04-2017, ANO 18, N.º 6294
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
O caso alemão (artigo de José Antunes de Sousa, 7)
17:49 - 14-08-2015
José Antunes de Sousa
Penso que vale bem a pena reparar no que se passa atualmente no futebol alemão. Eu bem sei que não é a coisa mais popular nem mais agradável, sobretudo para um cidadão de um país sob despótica vigilância internacional e recem-saído (?) de um programa de assistência financeira, como é o caso de Portugal, tecer loas e ditirambos a um povo tão cruelmente ligado a dois dos momentos mais dolorosos da história da humanidade, mas a verdade é que o futebol que atualmente se joga nos estádios da Alemanha oferece-nos todo um arsenal (para manter o registo bélico tão imediatamente associável àquele país) de pistas de ponderada reflexão que seria imperdoável desperdício ignorar.

E eis a primeira verificação: após um período de algum marasmo, talvez algum desnorte e certamente algum declínio, os responsáveis alemães afincaram-se num objetivo estratégico: repor o futebol germânico e o seu correspondente campeonato na linha da frente e fazer dele um fator espectacular de galvanização nacional – todos unidos pelo fascínio da bola!

E que vemos nós? Estádios à pinha, completamente lotados, independentemente do nome dos contendores – alguns clubes, como é o caso do Borussia de Dortmund, têm até, logo à partida, a receita de bilheteira garantida para a temporada inteira.

E como chegaram aqui? Metendo-se ao caminho, claro. Mas, esta é a questão essencial e que antecede e explica todas as demais. Porque os seus responsáveis acreditaram: eles sonharam com o cimo e quem persegue um sonho pode ter uma certeza – vê-lo-á concretizado.

Sim, a mecânica da crença, do sonho, é surpreendentemente óbvia e fácil: basta (!) ver-se/sentir-se sincera e consequentemente naquilo que se deseja e sonha. E se há coisa em que os alemães são realmente exemplares é na determinação com que se agarram à sua crença – mesmo quando aplicada no sentido errado: eis a razão por que já por duas vezes incendiaram o mundo!

A força da crença não está, porém, na declaração altissonante e comovente, mas na constância com que essa crença se faz presente no coração de quem a vive. Sim, viver a crença – eis o segredo do sucesso para aquilo em que se acredita.

E acreditar que se pode estar na frente implica uma condição essencial: que nos vejamos dignos e merecedores de lá estar. Quem quer ser grande só tem uma hipótese de sê-lo: pensar grande. E pensa grande quem grande se vê e assim se sente: eis, bem vistas as coisas, o fio de ariadne para o segredo alemão, agora tão eloquentemente expresso no arrebatador fenômeno de um futebol moderno, poderoso, criativo, altamente eficaz e espectacular – e sempre com as bancadas electrizadas pela paixão e pela festa!

Se juntarmos a proverbial paciência laboriosa e germinativa, bem ao jeito do espírito disciplinado e metódico deste povo, ao irruptivo fenômeno migratório resultante quer do fenômeno genérico da fragorosa desintegração da URSS quer das trágicas convulsões balcânicas que dela decorreram, quer ainda do despertar europeu de uma Turquia historicamente dúplice, teremos encontrado o essencial da receita para um insuspeitadamente revigorado futebol alemão: toda uma plêiade de novos futebolistas de diferentes culturas e de outros sangues espalham agora um novo perfume e uma nova magia pelos estádios.

Dá-se uma certa latinização por via da presença sobretudo de jogadores brasileiros, um ou outro francês, uns tantos espanhóis, agora sobretudo pela mão de Pep Guardiola, uma latinização mitigada, porém, pela massiva presença de eslavos, já nascidos, quase todos eles em solo alemão, e que aportam músculo e muita imaginação e a que se junta ainda a impetuosidade criativa de alguns turcos, também eles quase todos nascidos já em território germânico.

Parece evidente que esta nova fornada de futebolistas germânicos, gerada no caldeirão de um multímodo fluxo migratório, veio romper com o clássico padrão, mecânico e cerebral, do futebol da Alemanha, alardeando, antes, uma invejável e diversificada gama de recursos que só uma cuidada integração e inteligente aproveitamento dos imigrantes pode ajudar a explicar.

Esta miscigenação em curso no futebol germânico (uma estridente ironia para quem se deixou seduzir pelo mito da raça pura!) parece constituir, com efeito, uma plausível explicação para este seu novo fascínio e sua correspondente e crescente mundialização. Dito, talvez, de um outro modo: um certo sincretismo étnico-cultural parece ter potenciado sobremaneira as qualidades básicas do futebol alemão, tornando-o menos estereotipado, menos previsível – e muito mais atractivo e criativo.
Dir-se-ia que a Antiga Prússia (Borússia) se aliou, de uma certa maneira, ao antigo Império Otomano para forjar o novo herói que a todos reconcilie na sua ínvia sede de glória.

Claro que é incompleta esta minha análise - como o são todas, pois é da própria natureza da análise racional um certo carácter tacteante e aproximativo. Mas, esta ficaria ainda mais flagrantemente incompleta se não fizesse referência a algo que parece estar na base de toda esta história de sucesso: a mudança de um paradigma colectivo para um paradigma individual, personalizado.

A ideia de que o bom ambiente da equipa, a sua saúde mental, a sua felicidade, é um todo suprapessoal, que tolera perfeitamente a infelicidade de um dos seus membros, está profundamente errada – e treinadores como Jupp Heynckes ou Jurgen Klopp, sobretudo este último, estão aí para o testemunhar. Não há equipes infelizes que possam ganhar, mas também não há equipas realmente felizes apesar da infelicidade de alguém que dela faça parte.

E a infelicidade de um jogador pode, quem sabe, estar apenas no indevido aproveitamento que das suas capacidades humanas e técnicas possa estar a fazer um treinador distraído, ou, pior ainda, humanamente ignorante - que os há por aí a rodos. Infelizmente. Parece o ovo de Colombo?
Mas, é a grande revolução que tarda em chegar ao futebol e que parece já ter chegado à Alemanha: eles estudaram, como é seu timbre, e descobriram a chave do sucesso.

O caminho da vitória já não se faz partindo do grupo para o indivíduo mas inversamente: do indivíduo/pessoa para o grupo… que só será realmente mais do que a soma aritmética dos seus membros se não deixar de fora nenhum deles!

Talvez fosse tempo de nós, os latinos, deixarmos de lado a nossa superficialidade e a nossa mania de improvisar e, pelo menos esta lição, aprendermo-la bem!

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília.

comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de ESPAÇO UNIVERSIDADE

Espaço Universidade Vivemos tempos de instabilidade única, total, global. Os exemplos sucedem-se a velocidade incalculável e a incerteza tornou-se absoluta em todas as latitudes. O caos nunca surge de improviso, nem devagarinho pela sombra. Vai-se alimentando de vícios,
Espaço Universidade A Escola Superior de Educação, Comunicação e Desporto do Instituto Politécnico da Guarda vai organizar, no próximo dia 25 de abril, o 2.º Congresso de Futebol subordinado ao tema Competências multidisciplinares para uma intervenção mais qualificad

destaques