QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Meu Pai é genial! (artigo de José Antunes de Sousa, 6)
20:26 - 07-08-2015
José Antunes de Sousa
Em mais uma festiva cedência à lógica de um consumismo voraz, eis que os dias, o dos namorados, o da criança ou o dia do pai, entre outros, são, todos eles, estrategicamente estabelecidos conforme os interesses de cada país e em função, por exemplo, da estação do ano e respectivas condições climáticas – e, neste sentido, o dia dos pais no Brasil (aqui preferem o plural) é no próximo domingo, o segundo de Agosto, escolhido, ao que parece, por corresponder a uma zona do calendário pouco povoada de eventos significativos, ou, por outras palavras, esolheram esta altura por corresponder a um intervalo, a uma vaga na lista anual das promoções comerciais!

Mas, já agora, seja-me permitida uma referência antropológica ao que se crê ter estado na origem deste ancestral hábito de honrar a peternidade – e, deste modo singelo, associo-me a todos os filhos que, neste imenso país, se juntam à volta dos seus pais, os que o são mesmo e não daqueles que não passam de progenitores ocasionais. Este hábito crê-se que teve origem na Babilónia, há cerca de 4000 anos quando o jovem Elmesu esculpiu em argila o primeiro cartão de felicitações dedicado ao pai: «Pai, tenho em você a figura de um mentor, seu exemplo moldou a minha personalidade e me transformou no homem que hoje sou. Desejo saúde e vida longa a ti, meu Mestre, meu Senhor, meu Pai».

E, neste clima de homenagem, deixem que registe, neste meu tropical deambular, um episódio futebolístico deveras singular e comovente: no dia 14 de Julho, jogaram pelo Mogi Mirim, clube do interior paulista, pai e filho e ambos marcaram nesse jogo – o pai, um e o filho, dois golos. Nome do pai felizardo: Rivaldo Vitor Borba Ferreira – sim, esse mesmo, o Rivaldo, eleito o melhor jogador FIFA 1999. O filho, esse é simplesmente o Rivaldinho: o diminutivo tem a função paradoxal de aliviar-lhe o insuportável peso da herança e para a gente é o termo que significa a compreensão e tolerância que se tem que usar para a sua impossibilidade de um tal pai poder imitar!

Mas se este episódio, inédito no mundo da bola, nos comove e enternece, pois projecta um imprevisto halo de humanidade no moderno coliseu do imperador lucro, a verdade é que sugere igualmente uma breve, ainda que importante, reflexão sobre o que se crê serem os caminhos genéticos da genialidade – caminho recto ou bizarro?

Houve um senhor, ali pelo ano 1869, Francis Galton, de seu nome, que afirmava a pés juntos que o génio se transmite de pais para filhos através da cadeia dos genes – certamente inebriado pelo postulado evolucionista da sobrevivência do mais apto, formulado pelo seu tio, Charles Darwin! E não admira que assim pensasse alguém que acreditava pia e afoitamente que a inteligência se podia medir ao som de um assobio!

Dão-se, entretanto, alvíssaras a quem seja capaz de confirmar tão auspiciosa teoria no prosaico mundo da bola: onde foi parar o coitado do filho do Pelé, que só foi tolerado como guarda-redes (goleiro) por ser filho de quem era, ou alguém que me possa indicar onde foram parar os genes criativos de Maradora, de Beckenbauer, do inefável Platini, de Di Stéfano ou do imortal Mané Garrincha – transviaram-se, perderam-se no caminho, dir-se-á.

Meus amigos, vamos a contas: a genialidade, apesar de o próprio termo nos poder induzir em erro, para desilusão dos anacrónicos epígonos de Galton, não vem montada, à boleia dos genes em frenética disputa pelo óvulo cúmplice – ela vem de outro lugar que, em boa verdade, não é sítio nenhum, ela vem de um agente criativo, de uma consciência superior: a genialidade («uma jogada de anticipação», no dizer de Vergílio Ferreira) não é algo que se apure como uma raça de cavalos – ela simplesmente acontece-nos!

Mas para que ela nos aconteça temos que nos colocar a jeito, como quando nos sentamos à mesa para saborear um manjar: o génio que em nós se disponibiliza precisa de uma preparação para que haja condições para que se manifeste em toda a sua exuberância – o génio é gratuito, mas temos que assumir o ónus de o acolher, regando-o.

No que ao futebol diz respeito, dir-se-á que as várias academias de formação devem empenhar-se em criar o clima favorável à «incubação» do génio que, de contrário, acaba por estiolar e apagar-se por falta de adequada estimulação.

Vejamos: há dois tipos de criatividade – uma, a situacional, a que se expressa a partir de contextos conhecidos e já vividos, a mesma que ia levando ao desespero o nosso amigo Einstein, ao tentar criar algo de novo dirimindo com as teorias de Isaac Newton e de James Maxwell e a outra, a fundamental, a mesma que, a partir da rotura do contexto do conhecido, e num mais elevado estado de consciência, no plano supramental e arquetípico, isto é, num novo contexto de significado, no caso, o de tempo, o conduziu à descoberta da lei da relatividade (E=mc2).
Ou seja: as academias de formação não produzem génios, mas devem favorecer a manifestação genial. Não podem ser vistas como linhas de montagem de génios da bola, que é da própria condição destes ser foras-de-série, únicos – e raros!

Uma tentação perigosa é, pois, tentar a produção em série, uniformizando, pois o génio resiste a qualquer uniformização – e uma das suas clássicas formas de resistência é definhar por birra – de secura!
Mais: as academias devem resistir à tentação de se tornarem fábricas de talentos – o talento vem a seguir ao Homem. Porque a boa escola não é a que molda e constrange, mas a que liberta – e a liberdade é o clima natural de toda a criatividade. O talento não se força – permite-se.
Ao contrário do que acreditava o infatigável Thomas Alva Edison, o sucesso é obra da inspiração - e a transpiração apenas o ajuda a concretizar. Mas ajuda!

Às academias cabe a ingente tarefa de criar todo um ambiente coerente de humanidade criativa – que é do ser humano co-criar sem parança.
E, em jeito de resposta, uma nota final: para concordar com o comentário de um leitor – o de que A Bola não é uma revista científica. Claro que não e ainda bem, mas, atenção, também não é a Tvmais, ou a Revista Maria – é um jornal sério. Porque desporto é uma nobre actividade humana, conquanto envolta em paixão – ele exige o recuo da reflexão. É como com o nosso prato preferido: é para saborear, não para engolir de uma vez – para não provocar indigestão!

Brasília, 5 de Agosto de 15

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília.

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