QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Milagre na praia (artigo de José Antunes de Sousa, 4)
16:41 - 23-07-2015
José Antunes de Sousa
Da mesma forma que sempre fomos bons a navegar, mesmo em mar encapelado, por entre alterosas ondas sem por elas nos deixarmos submergir, parece que o somos igualmente na arte de nos movermos airosamente nas areias sem nelas nos deixarmos atolar.

Quando me preparava para sublinhar o que parece ser um nosso atávico tremor perante o ressoar convocativo das tombetas da glória, este nosso encolhimento ante a evidência do céu, perante a qual nos costumamos encolher como lesmas, tudo em reacção ao decepcionante desfecho dos últimos desempenhos dos sub-20 e sub-21, eis que, nas areias espinhenses, que não propriamente espinhosas, os nossos garbosos rapazes erguem, orgulhosos, o símbolo do ceptro mundial de futebol de praia.

Mas, perante os últimos eventos, com amargo sabor a dolorosa frustração, apetece dizer que aqueles feitos terão constituído não mais do que um hiato paroxístico de audácia e criatividade. Mas, para pena nossa, e por isso mesmo, não foi moda que tivesse pegado!

Não parece, de facto, haver maneira de ganharmos o hábito da continuidade – a maçada da disciplina diligente, do esforço persistente, não: nós, decididamente preferimos os impulsos criativos, as imprevistas irrupções de génio. Não nos alimenta a alma o suor e a fadiga de um afincado e metódico esforço quotidiano, não somos propriamente adeptos da ascese – preferimos a mística! Respeitamos Apolo, mas preferimos os braços de Dioniso!

Nós, os portugueses, parece que alimentamos o nosso acervo identitário não tanto de etapas judiciosamente previstas e consequentemente prosseguidas, mas, mais bem, do «colapso» de uma consciência predominantemente lúdica, como que entretida numa espécie de processamento inconsciente do qual irrompe a onda súbita de uma nova realização que lógica nenhuma poderia fazer antever. Parece sermos mais convivas de uma mente dos deuses do que da mente condicionada e prevenida dos homens – daqui, quem sabe, o nosso abandono providencialista e até o nosso sonho sebastianista!

Se aos alemães, por exemplo, parece moldá-los mais que tudo a previsibilidade de um objectivo a que procuram chegar passo a passo, de forma continuada e sem desvios, nós, em contrapartida, parecemos darmo-nos melhor com os ares rarefeitos da excepcionalidade, da imprevisibilidade – afinal, o mundo da intuição! E, nesse mundo ditado pelo coração, colocamos toda a nossa segurança.

Nós não somos propriamente filhos da racionalidade lógica, discursiva e decursiva – somo-lo antes de uma certa racionalidade dialéctica, cordial, que, de algum modo, concilia os contrários, os opostos – talvez por isso sejamos desembaraçadamente familiares do oito e do oitenta, movendo-nos, com surpreendente desenvoltura, entre o céu e a lama.

A nossa vida realiza-se sobretudo nos intervalos: somos capazes de grandes sacrifícios a pensar nas férias em Armação de Pêra e no prazer de um jantar no frango à guia! Somos seguidores da contenção modulada, recomendada por Séneca, que, do alto da sua parcimónia, declarou que: «aliquando insanire jucundum est», ou seja, que sabe muito bem cometer de vez em quando um excesso, uma loucura!

Contra o Brasil, por exemplo, sabe-se lá se por um tortuoso e ancestral tique de uma remota má consciência, os nossos rapazes mais novos ofereceram ao adversário, completamente de graça, uma superioridade que este nunca alardeou, e os mais velhos, talvez assustados com a sombra de uns moços altos e louros, ou quem sabe se por medo ainda dos vickings, sucumbiram aos pés de uns suecos incomensuravelmente menos dados ao
afago da redondinha.

Pois é, quando a felicidade espreita , escondemo-nos, não vá ela atrapalhar, como se ser feliz fosse de mais para esta nossa triste condição. Enquanto os suecos, com o seu histórico de progresso e bem-estar, talvez se tenham sentido mais familiarizados com a felicidade, nem que seja a felicidade rasa e alvar dos idiotas, os portugueses sucumbiram, quem sabe, sob o peso de uma memória de aflição e sacrifício. Habituados a uma certa vida arrastada de sapo, quando se lhes oferece a vida de príncipe, os portugueses refugiam-se no fundo da sua lodosa resignação – que, afinal, é nas águas paradas e turvas que eles se dão bem!

Nós vivemos na rudimentar calma de uma vida que vai indo – até que, por acção de uma qualquer aflição, nos lançamos na demanda das estrelas. Nós não somos muito dados à acção – preferimos ter que reagir a uma provocação. E isso faz de nós um povo letárgico, se bem que com momentos de heroísmo. E, nesses momentos de espasmo, feitos de coragem e intuição, somos realmente incomparáveis – sempre com a providencial ajuda do indispensável aperto!

Somos um povo vulcânico – e, de tempos a tempos, temos uma irrupção de lava criativa, maturada ao longo de uma gestativa dormência.

Somos um povo de situações-limite. E, nisso, está simultaneamente a nossa limitação e a nossa grandeza!

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de ESPAÇO UNIVERSIDADE

Espaço Universidade O futebol, a política e todos os “universos” do país têm de começar a identificar principais responsáveis e atribuir-lhes as devidas sanções e penalizações. Só assim também poderemos valorizar a competência. O clima de guerra que o futebol atravessa,
Espaço Universidade Decorreu na Guarda o 2.º Congresso de Futebol do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), dedicado ao debate em torno da aquisição de competências multidisciplinares para uma intervenção qualificada, que contou com aproximadamente 200 participantes. Su

destaques