SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Gustavo Pires
Espaço Universidade
A Desgraçada Moeda Olímpica (artigo de Gustavo Pires, 15)
16:49 - 11-07-2015
Gustavo Pires
No que diz respeito aos Jogos Olímpicos (JO) antigos, numa breve consulta ao “google”, podem ser encontradas as imagens de variadas moedas alusivas a competições desportivas. Segundo os historiadores este tipo de moedas começou a se cunhada a partir de 480 aC. Já quanto aos JO modernos foi em 1952, ao tempo dos JO de Helsínquia que, pela primeira vez, começaram a ser produzidas moedas alusivas aos JO. Entretanto, na dinâmica do colecionismo que tomou conta da vida moderna, os mais diversos Comités Olímpicos Nacionais (CONs) também começaram a produzir moedas por ocasião da celebração dos Jogos de cada Olimpíada.

E o Comité Olímpico de Portugal (COP), em conjugação com a Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM), entendeu e bem, comemorar os JO do Rio de Janeiro (2016) com a habitual moeda. O problema é que, tendo realizado uma decisão certa, esperava-se que fizesse as coisas bem-feitas o que não veio a acontecer uma vez que se levantam questões de ordem: (1º) ético-organizativas; (2º) estético-pessoais e; (3º) histórico-culturais.

As questões de ordem ético-organizativa são tremendas. Elas jamais deviam poder ser colocadas a um Comité Olímpico Nacional (CON). Partem de uma pergunta muito simples: Como é possível que pertencendo Joana Vasconcelos à Comissão de Cultura do COP tenha sido ela a escolhida para elaborar a Moeda Olímpica? Aos olhos dos portugueses tal escolha configura uma situação inaceitável. Mas aos olhos dos artistas plásticos tal situação ainda deve parecer mais estranha. Porque é que não foi aberto um concurso entre os artistas portugueses? Noutra perspetiva, temos também de perguntar: Terão os dirigentes do COP consciência de que, ao ignorarem os valores da competição justa, nobre e leal, acabam por negar os mais nobres princípios competitivos que devem presidir à instituição a que lideram? Se não é o COP a defender no País os princípios e os valores da competição quem é que o pode fazer? Repare-se que até Pierre de Coubertin, quando em 1912 quis participar no Concurso de Literatura Desportiva organizado no âmbito dos Jogos Olímpicos de Estocolmo não o deixou de fazer, mas sob o pseudónimo de M. Eschbach. No respeito pelos princípios da Carta Olímpica e os valores que deles decorrem, Joana Vasconcelos, ao fazer parte da Comissão de Cultura do COP, nunca devia ter sido sequer convidada para conceber a Moeda Olímpica. No respeito pela transparência de processos e dos valores da competição simbolizados no “citius, altius, fortius” da divisa olímpica o COP devia ter, simplesmente, aberto um concurso. Acresce ainda que é devido aos portugueses um esclarecimento que tem a ver com os termos em que a artista prestou o serviço ao COP. Quer dizer, foi realizado “pro bono” ou envolveu um pagamento?

As razões estético-pessoais são as mesmas que já nos levaram a criticar o inapropriado documento “Valorizar e Afirmar Socialmente o Desporto: Um Desígnio Nacional” produzido ao estilo “magister dixit” e numa dinâmica de facto consumado. Quer dizer, o processo da Moeda Olímpica realizou-se, igualmente, à margem de qualquer participação democrática. Contudo, o mínimo que se esperava era que o COP abrisse um concurso a fim de que, através de uma comissão devidamente habilitada, fossem selecionados os três ou quatro melhores trabalhos a fim de serem submetidos à consideração dos portugueses. O problema mais atual do COP é que a instituição não pode continuar a ser uma espécie de clube fechado de amigos que, para além de umas ações de cosmética sem verdadeiro significado em matéria de educação e cultura olímpicas, se limita a tratar das questões logísticas relativas à preparação Olímpica que, verdadeiramente, é realizada nas Federações Desportivas que, como se viu nos Jogos Europeus, acabam remetidas para uma zona de penumbra. Temos para nós que ou o COP se envolve na sociedade e deixa-se envolver por ela numa ampla e partilhada comunhão de princípios, de valores e de propósitos ou, então, o melhor é “fechar a porta” na medida em que tenderá a transformar-se numa organização que acabará tão só por defender uma nova casta de privilegiados, promovendo mais injustiças, mais desigualdades e mais subdesenvolvimento. Por isso, muito para além dos comentários jocosos que a estética da moeda pode provocar, não se pode de maneira nenhuma aceitar que numa das suas faces surja numa posição cimeira e ostensiva o nome da Joana Vasconcelos. Mas quem é Joana Vasconcelos no mundo do desporto e do Movimento Olímpico (MO) para que o seu nome figure numa Moeda Olímpica? Como é que nenhum dirigente do COP foi capaz de “travar” Joana Vasconcelos? Porque, aos olhos dos portugueses, o inaceitável destaque com que a autora aparece na Moeda Olímpica é uma afronta a todos os atletas olímpicos em especial a Francisco Lázaro e ao seu fracasso, mas também a todos aqueles que pelo seu êxito também merecem um subido respeito nacional tal como, Rosa Mota, Carlos Lopes, Nelson Évora, Duarte de Fernando Belo, Luís Cardoso Mendes, Rui Silva, Vanessa Fernandes, Mário Quina, Gentil Martins, Fernanda Ribeiro, Nuno Barreto, Fernando Pimenta ou Emanuel Silva entre outros. A cultura olímpica nacional é um assunto sério que não deve ser colocado em regime de “roda livre” ao sabor da criatividade mais ou menos umbilical de um artista que, em matéria de Olimpismo, sabe zero. Quando tal acontece, mesmo na maior das inconsciências, trata-se de uma agressão ao MO ao qual pertencem todos aqueles que aceitam viver de acordo com os princípios olímpicos e os valores de uma educação e de uma cultura competitivas que deles decorrem. Nesta conformidade, não podemos aceitar em silêncio que a Moeda Olímpica dos JO do Rio de Janeiro (2016) tenha sido transformada na “Moeda da Joana”. E quem se der ao trabalho de fazer uma pesquisa na net sobre Moedas Olímpicas ou Medalhas Olímpicas certamente que não encontrará uma situação semelhante.

Finalmente, colocam-se ainda duas questões de ordem histórico-cultural. (1ª) a inapropriada frase “Equipa Olímpica de Portugal 2016” e; (2ª) a inadequada utilização da esfera armilar e do escudo que enquanto elementos que simbolicamente representam o Estado Português.

Quanto à expressão “equipa olímpica de Portugal 2016”, devemos esclarecer que, na perspetiva de Coubertin, nos JO não participam equipas de países mas atletas provenientes de diversos países. Este aspeto está, atualmente, expresso na Regra 27 da Carta Olímpica quando determina que nos jogos Olímpicos não participam “equipas nacionais”, participam atletas de várias nacionalidades integrados na Missão Olímpica do país cuja organização e liderança pertence ao respetivo CON. Por isso, o que devia estar inscrito na Moeda Olímpica era: “Missão Olímpica do Comité Olímpico de Portugal”. Sempre assim foi, desde que, em 30 de Abril de 1912, foi fundado o Comité Olímpico Português a fim de, a expensas próprias, organizar e liderar a primeira Missão Portuguesa aos Jogos da Vª Olimpíada que se realizavam em Estocolmo.

Quanto à utilização da esfera armilar e do escudo que simbolizam o Estado Português devia ter sido tido em conta que o MO, segundo o princípio 4º da Carta Olímpica é “a ação, concertada, organizada, universal e permanente, de todos os indivíduos e entidades que são inspirados pelos valores do Olimpismo, sob a autoridade suprema do Comité Olímpico Internacional”. Portanto, a autoridade que superintende a ação do COP é o Comité Olímpico Internacional que, para o efeito, até tem um representante, embora de momento honorário, em Portugal. Por isso, não faz qualquer sentido colocar a esfera armilar e o escudo na Moeda Olímpica. O COP não é semelhante ao Instituto do Desporto de Portugal. O problema é que, infelizmente, em Portugal, salvo circunstanciais exceções, os Governos, em matéria de desporto, sempre revelaram uma vontade totalitária sobre o Movimento Desportivo. E hoje, através de um inaceitável Contrato-programa de Desenvolvimento Desportivo - CP/1/DDF/2014; DR 2.ª série-N.º 33-17 de fevereiro) o COP está colocado numa posição contranatura ao fazer de "braço operacional" do Governo. Contudo, para Coubertin os JO deviam “enobrecer e fortificar” o desporto assegurando-lhe a sua independência. “Liberdade e independência” é a divisa pedagógica que Coubertin foi buscar a Inglaterra à escola pública de Rugby. Ele, em 1906, perguntava: “porque é que eu restabeleci os Jogos”? E respondia: “para enobrecer e fortificar o desporto para lhe assegurar a independência e a duração como também para que melhor possa cumprir o seu papel no mundo moderno”. E, em 1917, no “Almanaque Olímpico” do mesmo ano, reafirmava a questão da independência do MO ao explicar que o COI, ao provocar nos mais diversos países do mundo o surgimento de CONs estes acabavam por não só apaziguar as inquietudes das federações desportivas que se sentiam ameaçadas na sua independência pelas autoridades religiosas como, também, possibilitavam que nações debaixo de domínio políticos estrangeiros pudessem participar nos JO. Por exemplo, ao tempo em que a Finlândia fazia parte do Império Russo, o Comité Olímpico Finlandês foi criado em 1907 e a Finlândia participou nos Jogos Olímpicos de Londres (1908). Finalmente, para não sermos exaustivos, no dia 29 de maio de 1925, já no final da sua liderança, ao pronunciar o seu discurso no Congresso Olímpico de Praga, Coubertin não deixou de referir o aspeto que mais considerava como sendo de fundamental importância para o futuro do MO. Disse ele: “se o olimpismo moderno prosperou, é porque tem à sua cabeça um conselho de uma independência absoluta, que ninguém alguma vez subvencionou e que, recrutando-se a si próprio (sistema de co opção que ainda hoje está vigente), escapou a toda a ingerência eleitoral não se deixando influenciar nem pelas paixões nacionalistas, nem pelo peso dos interesses corporativos”. Por isso, consideramos absolutamente inapropriado a utilização dos símbolos do Estado na Moeda Olímpica. O COP não é uma repartição da Secretaria de Estado do Desporto. Um COP, na sua independência, representa não o Estado mas a nação e, nessa qualidade, é o responsável pela Missão portuguesa aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016) onde vão competir entre si, não “equipas nacionais” mas os melhores atletas de todo o mundo. E o COP, ao contrário daquilo que, infelizmente, se está a passar, já por diversas vezes ao longo da sua história, deu insofismáveis provas da sua superior independência. A última aconteceu precisamente em 1980 quando o Estado português através do Governo, por motivos ideológicos, pretendeu impedir que uma Missão portuguesa estivesse presente nos JO de Moscovo. Contudo, o COP, em termos desportivos representante da nação portuguesa, não se deixou intimidar, e uma Missão Olímpica esteve presente nos JO de Moscovo. Este é, certamente, o mais significativo legado de Pierre de Coubertin que deve ser protegido e cultivado.

Em conclusão, perante as inaceitáveis falhas apontadas, a saber: (1º) atribuição a Joana Vasconcelos membro da Comissão de Cultura do COP a responsabilidade pela conceção da Moeda Olímpica à margem de um mais do que aconselhável concurso público; (2º) o destaque inadmissível num dos lados da Moeda Olímpica do nome de Joana de Vasconcelos; (3º) a frase mais do que inapropriada “Equipa Olímpica de Portugal 2016” que é uma afronta à cultura olímpica; (4ª) a inadequada utilização da esfera armilar e do escudo que ferem a independência politico-desportiva do COP perante o Estado português, temos de perguntar: então o que fazer?

Em nossa opinião a moeda deve ser imediatamente recolhida e mandada para a fundição. Não é a primeira vez que tal acontece no mundo do MO. Em 1972 os alemães produziram uma moeda com a seguinte inscrição: “Jogos da XX Olimpíada 1972 na Alemanha”. Ora bem, como os Jogos das Olimpíadas não se celebram em países mas em cidades, a moeda, embora já estivesse a começar a circular, foi simplesmente tirada de circulação. Claro que os alemães são um povo caracterizado pelo rigor e os portugueses um povo caracterizado pelo desenrascanço contudo, ao presidente do COP, no respeito os princípios da Carta Olímpica bem como pelos valores e a cultura que dela decorrem só lhe resta mandar retirar a moeda de circulação e, depois, demitir-se.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana.

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