QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Chile: uma simples vitória desportiva ou o resgate da memória? (artigo de José Antunes de Sousa, 2)
16:56 - 10-07-2015
José Antunes de Sousa
A 4 de Junho último, na final da “Copa América”, Chile e Argentina defrontaram-se num encarniçado combate: ambos na perseguição da glória, mas ambos perseguidos pelos fantasmas de uma rivalidade muito para lá da façanha desportiva, mas também ambos carregando o peso de miasmas de uma má memória. Em qualquer caso, ambos igualmente impulsionados por estrénuos gritos de orgulho patriótico.

Entre eles flagrante antagonismo e seculares disputas: sobre a Patagónia, o estreito de Beagle e, quando na década de oitenta, os generais argentinos, com Galtieri no comando, se lançaram no que acreditaram fosse eficaz expediente analgésico para as tensões internas, na aventura de uma guerra antecipadamente perdida nas Falkland Islands (Ilhas Malvinas), invocando direitos naturais sobre esse território, o Chile, apesar de ser dirigido também por um General, no caso Pinochet, não hesitou em colocar-se ostensivamente ao lado da Inglaterra.

Confesso: quando olhei para o semblante dos jogadores, protocolarmente perfilados, enquanto os mais de cinquenta mil chilenos cantavam, à capela, o seu hino, autêntico vulcão de fogo, mais do que de som, que lhes saía não tanto das cordas vocais, mas um pouco mais abaixo, do coração, fiquei sem qualquer dúvida: o Chile vai ganhar neste planetário exercício de exorcização de demónios!

Os demónios chilenos, marcados em sangue e na ausência fria de um sector de bancada com grilhetas, qual memorial do silenciamento e da tortura, encimado por tarja exibindo o decreto nietzschiano “ Un Pueblo sin Memoria es un Pueblo sin Futuro”. Do outro lado, os demónios argentinos: as obsidiantes vozes de um fracasso que os persegue há mais de vinte e dois anos.

Enquanto os chilenos, inundando de esperança o recinto que o fora outrora do desespero, tomados de um estado de êxtase colectivo, celebravam, sem qualquer hesitação, uma vitória sentida como certa, os argentinos revolteavam-se mentalmente numa luta obscura e insidiosa com os seus fantasmas, diligentemente empenhados em consolidar esse doloroso hábito de perder no momento decisivo e de se atemorizarem com o som das trombetas da glória, apesar do tom celeste das suas camisolas.

Creio que vale a pena dedicar um olhar a ver como funciona, em esquema, este despotismo pérfido da memória: um acontecimento doloroso desencadeia uma correspondente reacção; e quando ocorre um novo acontecimento do mesmo tipo o registo das velhas memórias é imediata e automaticamente activado, desencadeando o tipo de “stress” que se esperava, transformando-se naquilo que os psicólogos chamam “profecia auto-realizável”, algo como a versão a preto e branco do conhecido “efeito Pigmalião”. A recordação infeliz, mediada pelo ciclo do medo, gera a sua replicação, processo que tende a perpetuar-se se esse cerco autofágico protagonizado pelo medo não for interrompido. Como furar tal cerco – eis a questão.

Só um caminho: seguindo o conselho avisado de Einstein: “qualquer problema só poderá ser resolvido a um nível de consciência superior àquele que o gerou”. E foi o que, quase por instinto, fizeram os chilenos: partiram para uma espécie de mergulho extático, para a fé incondicional, para uma certeza quase sensorial de uma vitória segura, em contraste com a bisonha atitude de dúvida dos argentinos que, desde cedo pareceu garrotar a criatividade dos seus principais craques, como que sitiados e de alguma maneira paralisados pelo efeito tóxico do seu próprio veneno.

Bem, que poderia ter sido tudo ao contrário? Claro que sim, mas não, foi assim que as coisas se precipitaram – e o modo altivo, quase lembrando o desplante do matador de touros no remate de sua lide, como Alexis Sánchez executou o derradeiro pontapé da marca de grandes penalidades diz tudo do fenómeno de paixão e crença que fez dum povo diverso um só – exactamente o que nos faltou, em 2004, naquela triste e escura tarde na Luz! Mas sobre este nosso atávico encolhimento perante os ares do céu falaremos em próxima oportunidade, ajudados pelos mais recentes episódios dos nossos sub-20 e sub-21.

Os chilenos, no mesmo coliseu onde foram torturados e mortos alguns dos seus às mãos de um poder pretensiosamente absoluto, entregaram-se à “catarse” das suas dores, degustando ao rubro o fel amargo da vergonha e da humilhação para, através de um ritual de prolongamento dos seus efeitos expurgantes, se lançarem, em uníssono, na incondicional celebração da glória que sonharam.

A imagem da Presidente Michelle, como carinhosamente a tratam, misturada no anonimato identitário das cores nacionais e submersa na torrente dessa “hybris”colectiva, diz bem do clima de unificante exaltação nacional que assolou este país.

E, assim, se escreveu também mais uma página do que costumo chamar de Geofutebol: o modo como esta moderna parábola da guerra projecta um poder simbólico e contribui acentuadamente para consolidar o sentimento de pertença e o sentido de identidade de todo um povo. E eis como um encontro de futebol se pôde constituir em instrumento catártco de restauração da memória colectiva!
Aqui, no Brasil, donde vos escrevo, diz-se mesmo à boca cheia: “temos muito que aprender com estes chilenos” – sem dúvida!

Entretanto, na Argentina, um protagonista começa a disputar a popularidade de Maradora – a famosa Lei de Murphy! Depois dos 6-1 ao Paraguai quem esperava aquele estado de anemia colectiva, apenas uns dias depois, no momento decisivo? Eles próprios – os argentinos, ainda que não de forma expressa, claro.

De qualquer modo, os argentinos têm que ter alguma paciência, que também não podem ter tudo: já têm o Papa, não podem exigir também o Céu!

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília

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