TERÇA-FEIRA, 28-03-2017, ANO 18, N.º 6268
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
António Simões: - o irmão branco do Eusébio (artigo de Manuel Sérgio, 94)
00:32 - 10-07-2015
Manuel Sérgio
Não me esqueço do que li, no Diário-X de Miguel Torga: “Vi as coisas. O que não sei é se teria visto a alma das coisas” (p. 55). Vou parafrasear o Miguel Torga: “Já vi muito futebol. Mas não sei se alguma vez teria visto a alma dos futebolistas”.

Venho dizendo, há muitos anos, que não há jogos, há pessoas que jogam. O que me diziam do treino eu recusava como o estômago recusa os alimentos que lhe repugnam. O treino daqueles velhos sábios desta problemática seria um inapreciável espólio para o estudo da fisiologia, mas não passava de fisiologia! Henrique de Melo Barreiros, presidente do Conselho Científico do ISEF/UTL, David Monge da Silva e José Maria Pedroto davam-me o alento necessário, não obstante eu não saber o que eles sabiam do desporto-prática. Até que das varandas estreitas da minha ignorância, após horas e horas de estudo e de investigação, divisei uma nesga de conhecimento e entrei de proclamar, alto e bom som, que o desporto era um subsistema de uma nova ciência humana. Julgo que ninguém o fez, antes de mim, em língua portuguesa. E alguma coisa, no meu íntimo, se entreabriu, como um fruto que começa a amadurecer. De facto, com o novo paradigma, que emergia do seio mesmo das ciências humanas, eu passei a compreender melhor (assim o penso) o desporto, os “agentes do desporto” e o treino desportivo. A partir daí, o desporto passou a ser, para mim, não mais uma Atividade Física, mas uma atividade de um ser no movimento intencional da transcendência. O desporto é o ser humano na tensão imparável da superação. E, por isso, é jogo e festa e amor e risco e drama e tragédia. E, quando em alta competição, chega a ser uma mística, nem sempre com Deus, mas sempre com fé. A missão do desporto não consiste, sobre o mais, em educar ou dar saúde, mas em pôr o praticante em contacto com esta realidade: a transcendência é o sentido da vida! Uma transcendência que faz valer a vida acima da circunstância e do fortuito!

Assim como foram vários os poetas que coexistiram em Fernando Pessoa, também foram vários os homens que coexistiram em Eusébio da Silva Ferreira e em António Simões Costa, ambos futebolistas do Benfica, ambos campeões da Europa, ambos futebolistas internacionais, designadamente da inesquecível seleção dos “magriços”; ambos com idades muito próximas (o Eusébio nasceu, no dia 25 de Janeiro de 1942 e o António Simões, no dia 14 de Dezembro de 1943). Se o Cervantes me permite, o D. Quixote encarnava no Eusébio e o Sancho Pança, no Simões. É precisamente o Simões que mo conta, sempre gentil e de voz compassada: “Antes dos livres, eu deixava o Eusébio ver a barreira dos adversários. Umas vezes, fechava os olhos num expressivo risco de agrado e inteligência e dizia-me: A barreira está mal feita. Deixa isso comigo. E ele chutava e quase sempre era golo. Outras vezes, discretamente, segredava-me: Dá um toque na bola, para eu rematar. E era golo, também”. E, depois de esboçar um vago gesto no ar, concluía: “Nunca vi ninguém mais certeiro a marcar livres”. E entusiasmado manifestava assim a sua admiração pelo pantera negra: “Também não tenho receio de afirmar que o Eusébio foi das pessoas mais inteligentes que eu conheci, na minha vida.”. E, sereno, questionou-me: “Não acredita que o Eusébio fosse uma pessoa inteligente?”. Que havia eu de responder, que o vi jogar, ano após ano, nos estádios da Luz e do Restelo, emudecido pela arte do genial futebolista que ele foi? E exclamei: “Quem jogou o que ele jogava não era só inteligente. Era muito inteligente!”. Ainda sei de cor a definição de inteligência que aprendi na Faculdade, da autoria de Alfred Binet: “capacidade de atenção, possibilidade de adaptação a novos problemas e autocrítica”.

O António Damásio ainda não escrevera o livro O Sentimento de Si, e eu ainda não estudara o papel do corpo na motricidade humana. Cito, também de cor, o conceito de perceção em Maurice Merleau-Ponty: “perceber é tornar presente qualquer coisa, com a ajuda do corpo” - definição que eu só conheci, durante a preparação do meu doutoramento...
Sempre à cata de novidades literárias, estávamos o António Simões e eu, na Feira do Livro, em Lisboa. “Eu sei que, hoje, na Ciência, há poucas certezas e muitas dúvidas, tudo se reduz a probabilidades. Mas eu, no campo, ao servir o Eusébio, tinha a certeza de haver muitas probabilidades de o golo acontecer”. As pupilas do Simões brilhavam, quando sublinhava: “E eu sabia como servi-lo”. E, entusiasmado, continuou: “Ou em passes, ou em centros, eu servia-o tanto e tão bem que ele às vezes dizia-me, ternurento: És o meu irmão branco”. E, num murmúrio de emoção, o António Simões ainda acrescentou: “E como era belo vê-lo jogar!”. O meu interlocutor, o António Simões, daqui a muitos anos, vai acabar, como viveu, como um esteta! Desde júnior e da seleção nacional que venceu o primeiro Europeu de Juniores (onde fazia uma asa esquerda, que ficou famosa, com o meu amigo Fernando Peres), ele me deslumbrava ligeiro, esperto, ágil, com um poder de finta, como ignota voz de liberdade. O Simões atapetava o caminho por onde passava o génio (poeta solitário) de Eusébio. Quando me responsabilizaram pela biblioteca do INEF e me lancei, sôfrego, à leitura de alguns livros, de que nunca ouvira falar, este foi dos primeiros que me mereceram um tratamento especial, Do Acto ao Pensamento (Portugália Editora, 1966) de Henri Wallon. Começava assim: “Quais são as relações entre o acto e o pensamento? Qual dos dois tem prioridade sobre o outro? “No princípio, era o Verbo (ou seja, o pensamento a manifestar-se) diziam os discípulos místicos. “No princípio era a Acção”, retorquia Goethe. É este um debate que divide ainda os filósofos e até os sábios” (p. 41). Eu estou entre os que afirmam a prioridade da Ação, em relação ao Pensamento; do Ser, em relação ao Agir – não é pensando que somos, mas é sendo que pensamos! Por isso, em António Simões, a revoada poética, que o seu futebol era, mostrava, sobre o mais, o que ele continua a ser: um homem de generosidade invulgar, capaz de pôr o seu talento original ao serviço de valores, de belas ideias, de nobres causas.

“Tu és o meu irmão branco” dizia-lhe o Eusébio, onde ressoavam as palavras de Pascal: “Não me procurarias, se antes não me tivesses já encontrado”. Eusébio e Simões: dois futebolistas que, na sua euritmia motora, conciliavam o que pode e deve ser conciliável: o desporto, a ética e a estética! De facto, em tudo o que é superiormente humano, nada é contrário, tudo é complementar.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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