SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Do Jogo ao Desporto em Bourdieu e... não só (artigo de Manuel Sérgio, 96)
21:45 - 21-07-2015
Manuel Sérgio
Não sou sociólogo e não encontro, por isso, em mim, meritórias qualidades para criticar Pierre Bourdieu. No entanto, não deixo de o ler, para não descambar em longuíssimos, enfáticos e desnecessários discursos, a seu respeito.

Nas suas Questões de Sociologia (Fim de Século, Lisboa, 2003) escreve Pierre Bourdieu: “Uma das tarefas da história social do desporto poderia (…) ser fundar realmente a legitimidade de uma ciência social do desporto, como objecto científico separado (…) estabelecendo a partir de quando, ou melhor, a partir de que conjunto de condições sociais se pode falar efectivamente de desporto, por oposição ao simples jogo” (p. 184). E prossegue, na página seguinte: “Parece indiscutível que a passagem do jogo ao desporto propriamente dito se tenha efectuado nas grandes escolas, reservadas às elites da sociedade burguesam nas public schools inglesas, onde os filhos das famílias da aristocracia ou da grande burguesia retomaram um certo número de jogos populares, quer dizer, vulgares, fazendo-os sofrer uma transformação de sentido e de função inteiramente semelhante à que o campo da música erudita fez sofrer às danças populares, bourrées, sarabandas ou gavotas, fazendo-as entrar em formas eruditas como a suite”. E assim “a constituição de um campo das práticas desportivas é solidário da elaboração de uma filosofia do desporto que é uma filosofia política do desporto. Dimensão de uma filosofia aristocrática, a teoria do amadorismo faz do desporto uma prática desinteressada, à maneira da actividade artística, mas que convém melhor que a arte à afirmação das virtudes viris dos futuros chefes: o desporto é concebido como uma escola de coragem e de virilidade, capaz de formar o carácter e de inculcar a vontade de vencer (…) que é a marca dos verdadeiros chefes, mas uma vontade de vencer segundo as regras – é o fair play, disposição cavalheiresca, em tudo oposta à busca vulgar da vitória a todo o preço” (p. 187).


Quando, em 1969, no curso de Instrutores de Educação Física de Lisboa, entrei de lecionar a disciplina de História da Educação Física, logo procurei demonstrar aos alunos que o desporto moderno nasceu do ócio que o progresso económico permitiu aos países mais desenvolvidos, mormente a Grã-Bretanha. E foi, nos clubes, ciosamente reservados aos gentlemen e nas public schools, que o desporto moderno despontou e se organizou, pela vez primeira. Thomas Arnold (1795-1842), cónego da igreja anglicana e diretor de uma das public schools, o Colégio de Rugby, educou mais pelo desporto do que para o desporto. E assim poderá acrescentar-se, com rigorosa imparcialidade, que foi das primeiras pessoas a ver no desporto um indispensável meio de educação – física, moral, social! Aliás, no ser humano, não há fenómenos simples, tudo é um tecido de relações. E é bem pouco distinguir os meios e esquecer os fins. A propósito, podemos escutar a voz afirmativa e explicativa de Eduardo Lourenço: “Estamos realmente na era da diversão e do divertimento, expressões que, para Pascal, tinham sentido sobretudo, dentro de uma visão religiosa da vida er de um certo comportamento ético a ela ligado. Hoje, o divertissement não é algo de que alguém se envergonhe, passou a ser realmente um comportamento universal. Eu costumo dizer que caminhamos, ou estamos já, numa espécie de Disneylândia, que somos todos uns Pinóquios, imensamente divertidos e fascinados, com a fosforescência que nos rodeia. Eu mesmo, quando fui à Disneylândia, não deixei de me encantar” (in José Gil e Fernando Catroga, O Ensaísmo Trágico de Eduardo Lourenço, Relógio d`Água, Lisboa, 1996, p. 64). E, assim como a passagem do jogo ao desporto significou, entre outras coisas, que a sociedade do espetáculo, lépida, se aproximava e que a visão do corpo se transformava, também hoje o desporto, sujeito à regra absoluta de uma economia das pessoas em função do mercado, é cada vez menos jogo e cada vez mais espetáculo e trabalho.

Aliás, o poder político encontra-se hoje reduzido a terceiro poder, sendo o primeiro o dos grandes grupos financeiros, o segundo o poder mediático e só, por fim, chega o poder político, quase sempre doutrinante dos valores burgueses. E lá volto eu ao que venho repetindo, através dos anos: o desporto reproduz e multiplica as taras do neoliberalismo ambiente, ou seja, no desporto atual, o jogo praticamente morreu. O Garrincha, o Didi, o António Simões, o Chalana, no seu futebol predominava o jogo. Em Cristiano Ronaldo, no Messi e no Neymar, há o jogo típico do génio, que muitas vezes se confunde com a ganga do superficial. “O que interessa é ganhar, seja lá como for!” O Belo não cabe na linguagem dos espectadores mais clubisticamente apaixonados. E onde não há jogo pode haver eficiência, mas não há beleza. No entanto, tudo parece indicar que, em matéria de desporto como em matéria de música, a extensão do público, para além do círculo dos amadores, contribui para reforçar o reino dos puros profissionais” (p. 192). Salvo melhor opinião, na sociedade do espetáculo, simultaneamente uma sociedade mediática, o amador é o espectador e o artista, embora a desenfreada repugnância de alguns “velhos do Restelo”, é sempre (sempre) profissional. Mas há mais ainda a pôr em relevo: qualquer povo, ou nação, ou sociedade precisam de afirmar-se, urbi et orbi, como povos ou nações ou sociedades onde a excelência brota de uma competição e de uma inovação, racionalmente organizadas e produzidas. E nada melhor do que o Desporto e as competições desportivas para corporizar o ideal de excelência que o capitalismo e o nacionaslismo proclamam. Um ideal visível a qualquer distraído, porque se expressa, corporalmente, materialmente. Mas, no Desporto, a excelência tem tudo para ser democrática, resulta de uma competição entre iguais e em igualdade de circunstâncias. E de uma vontade de socializar, dado que a competição é um diálogo, um chamamento para um especial encontro. Entre pessoas e instituições. À luz de um determinado projeto...

Do Desporto há muitas lições a tirar. Entre elas, esta: no ser humano, o poder radica no ser. O atleta pode o que é. E o sujeito no desporto é o atleta e toda a sua circunstância. O génio é genético, mas só se desenvolve em condições favoráveis. E findemos este despretencioso artigo, com a questão: há jogo, no desporto atual? É evidente que há. Principalmente no jogador de talento, ou no jogador genial. Quanto mais arte, mais jogo e quanto mais jogo, mais arte. Porque é aqui que pode brilhar a autonomia do ato criador. E uma questão ainda: e qual o valor social do desporto? O valor social do desporto reside na ética dos “agentes do desporto”... porque não há desporto, há pessoas que o fazem! É verdade que o liberalisno dominante se esqueceu de conjugar a liberdade necessária com a igualdade possível, num equilíbrio de recíproca compatibilização (…). Como diria ironicamente o velho Anatole France, a lei dos regimes liberais é infinitamente justa, porque proíbe igualmente ao rico e ao pobre dormirem debaixo das pontes” (António de Almeida Santos, Do outro lado da esperança, editorial Notícias, Lisboa, 1999, p. 96). Mas não foi em ambiente adverso que nasceram os grandes políticos e os profetas fundadores das grandes ideologias? E não é o Desporto, mais do que uma Atividade Física, uma Atividade Humana? Ou, se não levarem a mal, um dos aspetos da motricidade humana? E com a passagem de Atividade Física a Atividade Humana é o homem todo que se movimenta, na prática desportiva. E assim o Desporto não tem só que “fazer bem à saúde”, tem de concorrer também ao surgimento de um mundo novo, ou a uma Nova Ordem Mundial.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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