DOMINGO, 23-04-2017, ANO 18, N.º 6294
José Neto
Espaço Universidade
Chicotadas Psicológicas - Parte 2 (artigo de José Neto, 9)
19:48 - 11-06-2015
José Neto
1. Questão de um Perfil do Treinador Ideal

Saber muito de técnica e tática é apenas uma condição necessária mas não suficiente para se ser um bom treinador.

Ser bom treinador é um conjunto de pequenas coisas e comportamentos que vão sendo aprendidas através da experiência e treinadas através duma formação adequada, procurando por isso uma constante busca do saber, baseado no estudo e investigação e sustentado na experimentação.
Procurar sempre transmitir o hábito de ser paciente e persistente, tornando os treinos motivantes, criativos e organizados.

Mostrar empenho, compromisso, criando um código de conduta onde se imponha a dignidade e respeito – daí ser também um Educador / Amigo / Conselheiro / Líder.

Deve ter a capacidade para refletir, antecipar, planificar, analisar e decidir perante situações de stress, incerteza e ambiguidade.

Um bom treinador, não tem que ter sempre respostas para tudo o que se lhe pede. Ninguém, seja em que domínio científico for, tem respostas para tudo.

O treinador eficaz, é aquele que está aberto a todas as opções possíveis de forma a responder apropriadamente nas diferentes situações e problemas com que se confronta a competição. Ao reconhecer que não sabe tudo ou não conhece tudo, ele está a ser verdadeiramente humano.
Deve ser capaz de transmitir aos jogadores os valores da honestidade, a firmeza de convicções, integridade, respeito, exigindo o cumprimento de normas internas da equipa, costumes e tradições que reforcem e estimulem o orgulho e desempenho da equipa por si orientada.

Na comunicação com os jogadores a sua mensagem deverá ser baseada na seriedade e otimismo, assumindo o que pretende dizer, com clareza e sem duplo significado, distinguindo os factos das opiniões e ainda sintonizada com a formulação de objetivos positivos, específicos, desafiadores, mas realistas.

Ser por natureza otimista. Deve saber descodificar os fracassos, transformando-os em êxitos – a principal diferenciação entre os otimistas e os pessimistas está na forma como explicam as suas derrotas. Os pessimistas atribuem as culpas às suas próprias deficiências – uma imagem negativa que têm de si próprios. Por outro lado, os otimistas encaram o futuro com confiança – cada derrota encerra a semente para o futuro êxito.

Transmitir uma imagem de serenidade, competência, liderança, responsabilidade e ...cultivar sempre a capacidade organizativa, sabendo que, como iniciei a 1ª parte deste documento, dizia: sem organização não há regras; sem regras não há disciplina; sem disciplina não há resultados e ...sem resultados não há SUCESSO!...

2- Questão referente à história e tradição do clube e sua cultura de exigências

Quanto ao ponto de análise correspondente à história e tradição de um clube, bem como a cultura e exigências dos seus diretores, associados e adeptos que possa implicar na contratação de um treinador com um determinado perfil, sem duvida que me parece fundamental e necessária esta simbiose vivencial, pois ninguém pode oferecer aquilo que não possui. Nestas circunstâncias e para não correr riscos desnecessários, sou a favor de que num clube que tenha por objetivos passos sérios na conquista de um futuro com êxitos, deveria:

- organizar uma rede de observação e «scouting», a partir das classes mais jovens.
- ter pelo treino e jogo uma atitude perfeccionista, sempre exposta numa dedicação inspiradora sólida e solidária.
- possuir nos seus quadros treinadores cujo perfil de personalidade e liderança, seja ajustado ao que foi referido anteriormente. Entendo mesmo que se deveria constituir no Clube um Conselho Técnico (com assento de todos os treinadores e restante staff técnico), reunindo de forma periódica no sentido de ver bem explícita esta filosofia de um crescer sustentado para um ganhar continuado.
- criar um gabinete de inteligência competitiva (GIC), no sentido de valorizar todas as competências que possam ser parte do gérmen aglutinador onde “corre” o sucesso – avaliações de ordem sociológica, psicológica e mental; estabelecer um quadro de referências onde se imponham rankings de êxito; inserção de conteúdos numa “nova” metodologia de treino com a aplicação de matérias referentes às componentes atencionais, motivacionais, autoconfiança, coesão de grupo, formulação e reformulação de objetivos de conquista, comunicação, etc, …etc…

Como consequência dos pontos situados anteriormente e porque devem ser objeto de uma reflexão coletiva, todas as fórmulas que impliquem uma tomada de consciência deverão ser institucionalizadas tendo como produto final uma forma de jogar autenticada e assumida como padrão dessa identidade vivida e operante, porque geradora de êxito.

Penso que com a construção de uma atitude mobilizadora destes compromissos, as razões que levam às tão deprimentes “chicotadas psicológicas” ficarão mais retidas no tempo.

Como referia Aristóteles: “ nós encorpamos ações que ao serem repetidas se transformam em hábitos. Se construímos hábitos rotineiros e simplistas, porque não focar o desejo da construção de hábitos de entusiasmo, de confiança, de felicidade, de raça e empenho na conquista do sucesso ?!”.

Porque o GANHADOR é aquele que é capaz de omitir a palavra problema e enfatizar o termo desafio. O GANHADOR não conhece os atalhos do facilitismo, transporta na alma as pegadas da experiência vivida e no rosto o certificado do sofrimento experimentado … vai à luta e …GANHA!...

José Neto é Metodólogo Treino desportivo, Mestre em Psicologia Desportiva, Doutor em Ciências do Desporto/Futebol, Formador Treinadores FPF – UEFA e Docente Universitário



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