SEGUNDA-FEIRA, 27-03-2017, ANO 18, N.º 6267
José Neto
Espaço Universidade
A questão das grandes penalidades (artigo de José Neto, 7)
23:38 - 25-04-2015
José Neto
Azar?... sorte? … lotaria? ... ou o uso da competência na conversão/defesa da oportunidade?...

Surgem de forma frequente opiniões referentes a esta questão como se de um caso de sorte ou azar se tratasse no êxito para a sua resolução.

Sabemos hoje que a dinâmica do Futebol e o seu grau de exigência para o sucesso, tem de estar ancorada de razões que sejam capazes de promover a capacidade de vencer resistências adversas, para a obtenção de níveis elevados de rendimento, para que se atinja o êxito.

Não sendo o Futebol uma ciência, são várias as ciências que oferecem um contributo extraordinário para que tal aconteça, tais como: Fisiologia, Psicologia, Nutrição, Treino Desportivo, Estatística, Medicina Desportiva, Biomecânica … etc… que, associadas a uma planificação e programação cuidada, podem conduzir ao sucesso na competição.

No correspondente ao caso em causa, isto é na marcação de uma grande penalidade, estudos de vários autores como Morris e Franks (1997) e Wisiak (2004), ajustados e confirmados pessoalmente, uma bola que atinja em média uma velocidade de 100 a 120 Km/h – 20.83 a 27.73 metros/segundo, demora a percorrer 600 a 400 ms (milissegundos) a ultrapassar a linha de baliza.

Caso o guarda-redes espere pelo remate para reagir, terá um diferencial de 338 ms a seu desfavor, pois o seu tempo de reação é de cerca de 700ms, isto é, uma velocidade de reação de 4 metros /segundo, quando para ter tempo de defesa, deveria possuir uma velocidade de 7.7 m/s. Logo, o guarda-redes tem mesmo de se antecipar à saída da bola, pelo marcador. Pergunto: será possível treinar isto e em que condições o deverá fazer?

Sabemos que os maiores fatores para um boa tomada de decisão e que podem influenciar a resposta, são: capacidade sensitiva, perceção, memória, atenção e concentração, capacidade de ultrapassar expectativas perante a pressão, capacidade intelectual, autoconfiança, motivação, boa condição física,…

Também a experiência acumulada referente aos jogadores marcadores, uma boa leitura da trajetória de corrida, o foco visual (perante níveis de ansiedade elevados, o jogador marcador te tendência a centrar o seu olhar para as zonas de maior preocupação), a perna de apoio para o remate, a posição da bacia no momento do pré contacto com a bola, a posição do braço contrário à perna do remate (tendência para um ligeiro ou amplo afastamento lateral), são indicadores a ter em conta no aspeto avaliativo para quem defende.

Da parte do jogador rematador também muitas das condições expostas deverão ser tidas em conta, associando uma elevada capacidade de concentração, utilizando a capacidade respiratória, imaginação e visualização mental, focalizando de forma antecipada as condições de previsão do êxito como sentir a bola a bater nas redes, os colegas a aplaudir, o estado de graça autenticado com uma palavra /chave … (ver a palavra chave de C. Ronaldo na marcação de livres), eliminando fatores adversos, considerados como lixo (ruído, resultados negativos, experiências nefastas, condições atmosféricas, informações derrotistas que surgem do exterior…), e remetendo para o seu interior, um pensamento positivo misturado de afeto, pois, como temos dito, o pensamento positivo ajuda de forma extraordinária a concentrar naquilo que se pretende atingir e destruir o que se pretende evitar.

Num ou noutro caso, como atrás referi, deverá apelar ao nível da consciência uma palavra ou frase /chave, que funcionará como garantia de uma testemunha viva, ou âncora para o sucesso. Além do mais, poderá verificar o seu estado de ansiedade somática, analisando o suor de mãos, inquietação corporal momentânea, batimento cardíaco (sabemos que em situações desta natureza, a frequência cardíaca pode registar valores de 160 a 180/minuto).

É evidente para se obter estes níveis de prestação, muita qualidade e perseverança no treino (que habitualmente cognominamos de engenharia ambiental, associada a outro palavrão – dessensibilização sistemática), que ainda estará para durar, (cada vez menos tempo do que o previsto), o seu processo de planificação e aplicabilidade.

Penso por isso que é preciso tudo fazer para que estas e outras questões que o jogo coloca devam ser resolvidas pelo treino, e que as questões do treino se promovam no jogo.

Marcação de uma grande penalidade, azar, sorte, lotaria? … ou o uso do treino em competência para a conversão da oportunidade (defesa ou golo) em jogo?...

Jamais será a razão absoluta ou a certeza das razões para o sucesso … mas que ajudará a algo de mais significativo em se poder guiar contra o fracasso, eu penso que não estarei errado.

É claro que não será fácil este envolvimento na preparação para a competição porquanto se sabe, que quaisquer metodologias que contenham algo de inovador, ainda, (para alguns) constituem matéria quase ofensiva … esses que julgam que no FUTEBOL SE PASSA O SEMPRE DE SEMPRE!

José Neto é Metodólogo Treino desportivo, Mestre em Psicologia Desportiva, Doutor em Ciências do Desporto/Futebol, Formador Treinadores FPF – UEFA e Docente Universitário

comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de ESPAÇO UNIVERSIDADE

Espaço Universidade O Torneio Nacional de Basquetebol da Divisão I da National Collegiate Athletic Association (NCAA) é o mais importante evento do desporto universitário norte americano e u
Espaço Universidade Ontem, 24 de Março, dei uma palestra na Faculdade de Educação Física da Universidade de Brasília, algo que faço com relativa frequência e no âmbito da minha qualidade de

destaques