QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
Gustavo Pires
Espaço Universidade
Olimpismo e Desenvolvimento: Um Processo Amigável (artigo de Gustavo Pires, 11)
00:38 - 18-04-2015
Gustavo Pires
Thomas Bach, presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), no discurso que proferiu recentemente na Organização das Nações Unidas (ONU) (2015-04-15) afirmou ser tempo do desporto desempenhar um papel mais significativo enquanto agente de desenvolvimento. Em consequência, propôs que o desporto passasse a figurar na “Agenda do Desenvolvimento Sustentado” da ONU. De facto, o desenvolvimento do desporto, expresso através do conceito de “nível desportivo”, desde que objeto de políticas apropriadas, entre a massa e a elite de praticantes e numa conjugação de esforços entre o público e o privado, pode e deve contribuir para a melhoria da qualidade de vida das populações.

Para que tal possa acontecer, quando se organizam projetos de desenvolvimento do desporto, sejam eles eventos desportivos de diversas dimensões, sejam programas de promoção da prática desportiva ou no âmbito do alto rendimento, devem ser tidos em conta os seus efeitos tangíveis e intangíveis numa dinâmica entre o passado que realmente aconteceu, o presente que está a ser vivido e o futuro que se deseja construir. Só nesta perspetiva, enquanto instrumento de desenvolvimento humano, tal como resulta da Carta Olímpica, o desporto pode, como diria Amartya Sen (Prémio Nobel da Economia em 1999), assumir um estatuto de “friendly process” quer dizer, de “processo amigável”. Porque, do ensino ao alto rendimento, passando pelo acesso generalizado à prática desportiva, o desporto deve estar ao serviço da satisfação das necessidades das pessoas incluindo as suas necessidades espirituais, uma questão central do pensamento de Pierre de Coubertin para quem o ideal olímpico era “uma atitude espiritual e moral”.

Na realidade, no âmbito do Olimpismo, ou as práticas desportivas estão envolvidas numa dimensão espiritual individual e coletiva ou não passam de simples atividades burocráticas sem sentido para além do controlo dos resultados e recordes proporcionados pela condição física dos atletas ao serviço de regimes mais ou menos totalitários para honra e glória de uns senhores dirigentes desportivos e políticos desprovidos de um sentido moral e social do desenvolvimento do desporto. Note-se que a história nos recorda que o desporto, sem que as pessoas, facilmente, se apercebam, pode ser transformado num instrumento ao serviço de ideologias fascizantes.

Nestes termos, o desenvolvimento do desporto deve representar uma determinada ideia partilhada de progresso, referenciado no espaço e no tempo, que obriga à construção de uma atitude ética de coerência económica, social e educativa, e não ao simples anúncio de um aparato de marcas e recordes que, no fundo, só serve para entusiasmar dirigentes medíocres, políticos ignorantes, gastar o dinheiro dos contribuintes e inebriar as populações, sobretudo as mais desfavorecidas do ponto de vista social e cultural. Assim, a última coisa que o MO deve admitir é uma situação de liderança autocrática exercida por um qualquer “iluminado” que, através de um discurso pretensamente social, se julga capaz e no direito de decidir por todos, sobre tudo e para todos. Felizmente, a fim de evitar este tipo esquizofrénico de liderança, uma das linhas fundamentais de ação da “Agenda 2020” do COI aponta para a necessidade de “incentivar o diálogo com a sociedade e dentro do Movimento Olímpico”. Ora, este desiderato, só é possível conseguir com Comités Olímpicos Nacionais (CONs) a funcionarem de “portas abertas” e com objetivos e estratégias de desenvolvimento partilhadas com a sociedade onde estão inseridos.

A prática do desporto é um dos direitos fundamentais da pessoa humana pelo que, através de políticas coerentes, devem ser criadas condições de acesso à prática desportiva para a generalidade da população sem qualquer distinção de ordem social. Deste modo, é cumprido o princípio da igualdade de todos os cidadãos perante um determinado direito: o direito à prática desportiva. Contudo, se se defende que o princípio da igualdade estabelece direitos universais inquestionáveis, também é necessário reconhecer que não somos todos iguais, quer dizer, nem todos temos os mesmos dons naturais nas mais variadas áreas sociais onde é legítimo esperar que aqueles que demonstram capacidade para tal possam evoluir no sentido da excelência. Nestas circunstâncias, quer se trate do desporto ou de outra atividade de interesse social, devem ser proporcionadas condições que permitam que aqueles que revelam aptidões para tal possam atingir um patamar de excelência.

Por isso, para o conceito de “nível desportivo”, o número daqueles que atingem um patamar de excelência será sempre um valor relativo referenciado à massa de praticantes e não um valor absoluto, como pretende a incrível teoria do “risco do exemplar único” sustentada a partir do simples apuramento da “situação desportiva”. Porque, uma coisa é o princípio da igualdade e outra, bem diferente, o princípio da equidade. Equacionar a problemática do desenvolvimento sem que, de uma forma clara e evidente, seja considerada a dinâmica que os referidos princípios devem estabelecer entre si na determinação do “nível desportivo” é um mero exercício de ignorância.

Para John Rawls, uma perspetiva liberal de desenvolvimento, o que pressupõe um Estado forte capaz de regular e arbitrar as regras em que os operadores funcionam e interagem, não significa que todas pessoas sejam iguais e todos tenham direito a tudo. Em termos sociais, cada pessoa, em função das suas capacidades inatas e competências adquiridas, pode assumir diferentes estatutos sociais. E sempre que das capacidades e competências de uma pessoa resultem benefícios para a sociedade, ela deve ser justamente gratificada. Quer dizer, tal como afirma Rawls, “a ideia estruturante fundamental da justiça como equidade, de acordo com a qual todas as outras ideias básicas são sistematicamente ligadas, é a da sociedade como um sistema equitativo de cooperação ao longo do tempo, detendo um carácter intergeracional”. Deste modo, Rawls ultrapassa o princípio da igualdade que garante os direitos básicos de cada cidadão e, sem o excluir, desencadeia um outro, por ventura mais elaborado e mais complexo, o princípio da equidade que trata de forma diferente aquilo que é diferente em benefício do social. Em consequência, nas mais diversas áreas sociais, as desigualdades até devem ser incentivadas enquanto forem funcionais, isto é, promotoras de desenvolvimento e progresso da sociedade.

A designada “pirâmide de Coubertin” a que já nos referimos, no domínio do desenvolvimento do desporto, representa precisamente o espiritualismo da busca da excelência através da articulação do princípio da igualdade com o da equidade. Na linha do pensamento de Coubertin, o princípio da equidade deve sobrepor-se à demagogia política que pretende aumentar o vértice sem considerar a dinâmica de desenvolvimento a nível da base da pirâmide. Quando tal acontece, significa, tão só, a construção de um MO nivelado por baixo, na medida em que ignora um dos ensinamentos mais significativos do pensamento de Coubertin: o “efeito de ídolo”. Quer dizer, o ídolo é singular e a sua singularidade terá tanta mais importância quanto mais for capaz de, através de políticas devidamente equacionadas, desencadear um “efeito a montante” capaz de aumentar o volume da base de praticantes que deve sustentar o desenvolvimento.
Em conformidade, os apoios à elite devem ser conjugados no virtuosismo de um equilíbrio dinâmico com a massa de praticantes, conseguido pela aplicação do conceito de “elite correspondente”, quer dizer, a elite que, exatamente, deve corresponder aos praticantes reais e, deste modo, aferir a justiça do desenvolvimento. Só deste modo, ficamos libertos de discursos mais ou menos exotéricos de enorme debilidade conceptual que só servem para iludir os incautos. Todo o discurso que foge ou ignora o quadro conceptual que decorre do conceito de “nível desportivo”, ficando pelo inconsequente discurso da “situação desportiva” não passa de mera “conversa fiada” na medida em que não estabelece as condições em que pode, ou não, ser corroborado.

Infelizmente, o que está a acontecer é que, por ausência de um quadro ideológico sustentado nos princípios do Olimpismo e nos valores que deles decorrem, está a institucionalizar-se um modelo de desenvolvimento do desporto que, em regime de exclusividade, se consubstancia no rendimento sem que estejam assegurados os efeitos que dele decorrem a montante. Quando tal acontece, os países até podem ganhar medalhas olímpicas como, por exemplo, acontece com a Coreia do Norte, contudo, dessas medalhas, com toda a certeza, não resulta um desenvolvimento de características amigáveis.

Conforme decorre da “Agenda 2020” do COI, a última coisa que se pode aceitar é um MO que, a partir de um falso discurso social, numa perspetiva profundamente hipócrita, implementa um programa em que um número cada vez maior de pessoas é excluída da prática desportiva. Quer dizer, um programa que, ao ignorar o princípio da participação, não defende a igualdade, não promove a equidade, pelo que, é tudo menos amigável.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana.

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