SEGUNDA-FEIRA, 24-04-2017, ANO 18, N.º 6295
José Neto
Espaço Universidade
Professor Manuel Puga – a tempo do justo e emotivo tributo! (artigo de José Neto, 6)
17:51 - 16-04-2015
Somos por vezes um povo de costumes muito brandos e descoloridos, de propósitos frágeis, superficiais e inconsequentes. A honorabilidade que em tempos tinha de ser conquistada pela nobreza de costumes é por vezes servida em qualquer esquina pelo ressoar de gemidos que a circunstância exige.

O que senti na 3ª Feira, dia 7 de Abril, primeiramente no hall de entrada da delegação do Norte do Instituto de Desporto e da Juventude e no Auditório da A.F. Porto, foi um encontro de memórias de quem me deixou ensinamentos, imagens e obra.

A homenagem ao Professor Manuel Puga, levada a efeito por intermédio de um ato de autêntica cidadania pelo Dr. Manuel Barros, Diretor Regional do Instituto de Desporto, levou que se reunisse tanta gente de sorriso largo, misturado num rasgo de saudade.
Após as intervenções do senhor presidente da AF Porto Dr. Lourenço Pinto, do Dr. Augusto Baganha, do senhor Jorge Nuno Pinto da Costa e do secretário de Estado Dr. Emídio Guerreiro, seguiu-se um notável testemunho coberto de emoção do filho do homenageado, Dr. Nelson Puga.

Outras reflexões se ouviram e como senti vontade de fazer valer a minha voz na qualidade de ex aluno!... No entanto ecoava no meu peito aquele sentimento feito como que oração por parte de Dr. Nelson Puga … o meu pai … o meu herói… o meu amigo … o meu conselheiro … e não quis estar a castigar o tempo!...

Mas, após o tempo de reflexão necessário para cultivar a memória, julgo oportuno e justo publicar algumas notas que fazem parte da minha vida feita estudante do 1º ano no 1º Curso superior de Educação Física do ISEF da Universidade do Porto, 1976/81.

Às segundas e quintas feiras no CDUP, após 2 horas de atletismo e 2 horas de Basquetebol, aparecia no cumprimento do horário mais 2 horas de Voleibol. Fatigados até á medula, mas, com a esperança como que renascida para entre o silêncio do Pavilhão, encontrar daquela voz serena, batida em compasso no tempo. Cada gesto técnico tinha um significado latente para o Professor, onde parecia desenvolver um código de atuação e nele desaguava uma conduta convertida num desejo de transcendência. Nós, alunos, vergados perante uma figura ímpar, onde no seu olhar sempre espreitava um leve sorriso nessa reprodutora viagem pedagógica. Paciente e tolerante com algumas dificuldades detetadas, procurava na sua mensagem um foco de entusiasmo, empenhamento, integridade, lealdade, honestidade, sempre procurando uma orientação empenhada na investigação e aplicada na experimentação.

Recordo sempre aquele organigrama escrito em giz no quadro numa das aulas da disciplina de Teoria da Atividade Desportiva, referindo o homem com um determinado tipo de personalidade, onde se concentra a figura do jogador, inserido no contexto da equipa e da sociedade de que dela fazia parte. Se porventura se verificasse o equilíbrio sustentado nessa relação, estaria claramente mais disponível para o êxito desejado, convertendo em passes, remates, etc… a sintonia do desejo onde melhor se podia fabricar o sucesso.

Após terminar a minha licenciatura e quando já percorria outros caminhos dessa viagem de sonho consagrada no temp(l)o da minha existência, no FC Porto, primeiramente com o senhor Pedroto e logo a seguir com Artur Jorge ( 1982/87), foram muitas as vezes que meigamente o Professor Puga tocava na porta do nosso gabinete técnico e se nos dirigia com mais um sorriso adocicado com palavras de pedagogia e afeto.

Nunca nos testemunhou grandes elogios nas vitórias alcançadas, mas sempre nos aconselhava para o princípio da renovação do êxito e da sua validade, pois aí estaria o poder da recompensa. Perante as dificuldades que os trilhos dum FC Porto já nesse momento aglutinador, dizia, que teríamos de fazer das adversidades as melhores oportunidades no despertar do sentido de conquista.

Também tive o privilégio de ter junto a mim o senhor Professor Manuel Puga na apresentação do primeiro livro que publiquei. Propositadamente se dirigiu a Paços de Ferreira, juntamente com a família do senhor Pedroto, jogadores campeões do FC Porto e outros convidados que marcaram a história da minha vida. Recordo mais uma vez a qualidade pedagógica da sua intervenção, fazendo apelo à prática do desporto em que se revisitam os valores duma conduta cultural e ética para a formação do carácter e partilha. Sendo um marco civilizacional, inscrevem-se em quem o pratica os princípios do respeito, tolerância e cooperação batendo pela oposição e superação um imperativo marcadamente solidário e substancialmente abrangente para a construção da felicidade. Daí considerar o Desporto como Cultura em Movimento.

Senti-me no dever e por intermédio desta curta reflexão, evocar o meu testemunho de vida em relação ao meu saudoso Professor, que pelas causas expressas se tornou imorredoiro. Cultivava como ninguém a nobreza do silêncio, não o silêncio do desespero mas a nota expressiva que sempre habitava no seu olhar.

Creio bem que todos somos ou podemos ser instrumentos facilitadores do reencontro com a vida. Sempre procurei converter em sentimentos de fidalguia e estima todos os que transitam e me acompanham nos bons caminhos do relacionamento humano. Olho no tempo e continuo a ver no Professor Manuel Puga o exemplo duma pessoa de bem, cujos traços de identidade roçava a fidalguia do trato, fortalecia o entusiasmo e nos deixava com notícias … notícias de paz, de generosidade e duma inatacável honestidade de processos.

Pam Brown referia: “ se te restar um último fôlego, utiliza-o para simplesmente dizeres …OBRIGADO”.

Eternamente grato, meu querido e amado Professor.

José Neto
Licº Ed. Física U. Porto
Mestre Psicologia Desportiva U.Minho
Doutor Ciências Desporto /Futebol U. Beira Interior
Formador Treinadores F.P.F./U.E.F.A.
Docente Universitário

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