QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
Gustavo Pires
Espaço Universidade
Um Movimento Olímpico Vazio de Significância (artigo de Gustavo Pires, 10)
22:49 - 10-04-2015
Gustavo Pires
Fomos surpreendidos com a pretensão do Comité Olímpico de Portugal (COP) apresentar a todos os Partidos Políticos que vão concorrer às próximas eleições um “Documento Orientador” para o desporto nacional a que intitulou “Valorizar e Afirmar Socialmente o Desporto: Um Desígnio Nacional”. Acreditamos que o presidente do COP esteja a tomar esta surpreendente medida com a máxima convicção porque a instituição, à imagem do que se passa em muitos Comités Olímpicos Nacionais (CONs) por esse mundo fora, tendencialmente, está a transformar-se num “significante vazio”.

O que é um “significante vazio”?

É o produto de um fenómeno de natureza populista que se define pela capacidade de operar sobre o ambiente sociopolítico de um dado sistema, através da anulação dos significados ideológicos que o caracterizam, a fim de construir e alimentar uma nova identidade coletiva vazia, em termos sociais, culturais e políticos.

Postas as coisas desta maneira, a última coisa que desporto nacional necessita é de um “Documento Orientador”, cujos destinatários são os Partidos Políticos. Porque, do ponto de vista global, tal documento:

1. Sugere um atestado de incapacidade aos Governos do “arco partidário” da governação;

2. Desresponsabiliza, ainda mais, os Partidos Políticos em matéria de política desportiva;

3. Traduz um pensamento sobre o desporto nacional inapropriadamente ausente de Olimpismo;

4. Promove um obstinado culto de personalidade.

1 – A incapacidade dos Governos. Diz o portal do COP que “os Comités Olímpicos Nacionais devem cooperar com as autoridades desportivas nacionais em matéria de políticas desportivas, conforme determina a Carta Olímpica”. Contudo, o COP está enganado. O que, na realidade, diz a Carta Olímpica é que “… os CONs podem cooperar…” o que é totalmente diferente. Por isso, não se compreende porque é que, tendo o COP, em 11 de fevereiro de 2014, celebrado um “Contrato-programa de Desenvolvimento Desportivo” (CP/1/DDF/2014; DR 2.ª série-N.º 33-17 de fevereiro) com o Instituto Português do Desporto e Juventude, pouco mais de um ano depois, à margem do Instituto, surge com um documento que, entre outros aspetos, foge à sua competência e está completamente fora da sua esfera de ação. E atinge o cúmulo do pretensiosismo e do absurdo político ao pretender determinar “uma política desportiva de afirmação de Portugal no mundo”, como se a missão do COP fosse a de desenvolver uma política desportiva de afirmação de Portugal no mundo à revelia da tutela político-administrativa.

2 – A desresponsabilização dos Partidos. Um “Documento Orientador” para os Partidos Políticos, ao contrário daquilo que o documento refere não valoriza nem afirma socialmente o desporto. Antes pelo contrário, desresponsabiliza os Partidos Políticos quanto ao cumprimento da sua missão que é a de, tal como acontece com as demais áreas sociais, terem uma ideia própria para o desenvolvimento do desporto nacional. Mas se desresponsabiliza os partidos também os induz em erro ao fazer passar a ideia de que compete ao COP tratar de problemáticas como a “situação desportiva nacional”, a “situação do desporto no mundo”, a “política desportiva para Portugal”, a “centralidade da educação física e do desporto na escola”, a “política desportiva e governação pública” para além da “política desportiva e afirmação de Portugal no mundo” e um assunto mais ou menos exotérico que dá pelo nome de “política desportiva indutora de sustentabilidade sistémica”.

Perante este cardápio, ficamos com a sensação de que estamos em presença de um Ministro do Desporto ou, pelo menos, de um auto candidato a uma futura Secretaria de Estado do Desporto e não de um presidente de um CON que tem como principais obrigações tão só defender as propriedades olímpicas, promover os valores do Olimpismo no país e constituir, organizar e dirigir a delegação portuguesa participante nos Jogos Olímpicos.

3 – A ausência de Olimpismo. Mas, o mais estranho do documento em causa é que traduz uma visão ausente de Olimpismo relativamente ao Sistema Desportivo nacional. Não se compreende nem se aceita que um documento produzido por um CON que pretende ter uma visão global sobre o desenvolvimento de desporto, por um lado, debite quase que exclusivamente sobre assuntos que fogem à sua esfera de competência e, por outro lado, não expresse uma única referência relativamente a questões no âmbito da promoção do Olimpismo e defesa dos seus princípios. Para além do mais, num documento de vinte e seis páginas, transforma Pierre de Coubertin num ilustre ausente.

4 – Culto de Personalidade. A expressão externa de uma instituição deve ser realizada não só a partir daqueles que, do ponto de vista interno, fazem parte da estrutura, bem como daqueles que, do ponto de vista externo, são os destinatários da missão da instituição. O exemplo da Agenda 2020 do Comité Olímpico Internacional, na qual participaram milhares interessados, representa bem aquilo que deve ser uma liderança partilhada enquanto valor fundacional do Movimento Olímpico. A última coisa de que um CON necessita é de uma liderança sustentada no culto de personalidade. Por isso, não se entende nem se aceita que o documento “Valorizar e Afirmar Socialmente o Desporto: Um Desígnio Nacional”, proveniente de uma instituição com as responsabilidades de um CON, possa ser elaborado na primeira pessoa do singular, pelo que foi tornado público sem sequer ter sido aprovado pela Comissão de Orientação Estratégica (COE) do COP, da qual fazem parte, entre outros, 59 Presidentes de Federações. Para já não falarmos de todas as entidades que, quer direta, quer indiretamente, intervêm no desporto.

5- Conclusão. Em conclusão, diremos que estamos perante um documento de natureza populista que ao pretender operar sobre a heterogeneidade sociopolítica de um dado sistema (o MO) através da anulação dos significados ideológicos que o caracterizam (já que esquece a missão que verdadeiramente compete a um CON), não passa de um “significante vazio”. Em consequência, constrói uma nova identidade coletiva, em termos sociais, culturais e políticos, completamente vazia.

A última coisa que se pode fazer a uma instituição é transformá-la num “significante vazio”, ausente de cultura, de participação, de reflexão, de emoção, de política, de desenvolvimento e de progresso, através de uma liderança do tipo “magister dixit”. É um erro do ponto de vista desportivo, educativo, social, económico, político e histórico.
Repare-se que a institucionalização do COP tem profundas raízes democráticas. Decorria o ano de 1912 quando os protagonistas da “aventura olímpica”, Manuel Egreja, José Pontese, Duarte Rodrigues, Anibal Pinheiro e, entre outros, Mauperrin Santos, acordaram que o Comité devia ser eleito em “…assembleia de clubes e jornalistas desportivos, aproveitando-se para este facto as reuniões conjuntas de delegados de clubes, jornalistas e diretores da Sociedade Promotora, que teem organizado e promovido os Jogos Olympicos Nacionaes”. Porque, assim, diziam “o Comité obtinha mais força”.

Quer dizer que o COP tem uma tradição profundamente democrática, com uma cultura de liderança partilhada entre dirigentes, diretores de clubes e jornalistas que, através dos seus jornais, foram os grandes responsáveis pelo arranque e desenvolvimento do desporto em Portugal.
Ignorar este património é o que de pior pode acontecer ao MO português.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana.

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