QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
O jornal “ A Bola” - desporto e humanismo (artigo de Manuel Sérgio, 79)
23:31 - 06-04-2015
Manuel Sérgio
A minha definição de desporto é esta: trata-se de um dos aspetos da motricidade humana, com especial realce para o jogo, para o movimento intencional, para o agonismo, para a instituição e o projeto. Emerge do desporto uma síntese do homo ludens e do homo faber, de ciência e de sapiência, de vida contemplativa e do esforço e da disciplina, típicos da transcendência. Foram os gregos os primeiros a mostrar-nos os vínculos profundos que unem ética, educação e desporto.. Pausanias, personagem importante de O Banquete, de Platão, referia-se aos helenos como uma comunidade que sabia cultivar a filosofia e a ginástica, bem diferente dsaqueles povos bárbaros onde os tiranos não se preocupavam com a formação e a educação dos seus súbditos.

Os Jogos Olímpicos, que de 4 em 4 anos se celebravam, exerceram uma indelével ação educativa, ao converter o desporto em movimento de uma cultura integral. Poucos séculos transcorridos, em plena civilização romana, Cícero traduziu a paideia (o itinerário educativo grego) por humanitas, significando assim que é estéril a educação que não tenha sempre em conta o homem todo. E, após o denso nevoeiro da escolástica medieval, os humanistas dos séculos XV e XVI procuraram, na escola da Antiguidade, um ideal de humanidade, desintegrado da moldura sacral e eclesiástica da Idade Média. Em 1534, na abertura solene da Universidade de Lisboa, presidida pelo Rei e acompanhada por seleta assistência (só em 1537 a Universidade se instalou definitivamente, em Coimbra) André de Resende proferiu a tradicional Oração de Sapiência, que muitos já têm chamado, em Portugal, o Manifesto do Humanismo. E qual a novidade da mensagem de André de Resende? Afirmar que o Humanismo chegava imbuído do espírito da Antiguidade Clássica e de um projeto de renovação cultural, pelo seu estudo e pela sua imitação. E portanto novos autores entraram de conhecer-se, que davam à razão humana um poder e uma confiança, bem próprios, em tempos idos, da divindade. E assim ficou o humanismo, através dos séculos: liberdade diante do dogma, ou do poder dogmático, e que é em função do ser humano e dos seus mais justos anseios que o pensamento encara de preferência todos os problemas.
O humanismo existencialista, o humanismo marxista, o humanismo cristão, a Teoria Crítica eram, no tempo em que A Bola nasceu, os mais ativos promotores da filosofia humanista. Cada qual à sua maneira, todos faziam suas as palavras de François Mauriac: “Importa, acima de tudo, revalorizar o Homem” (Journal, t. V, Flammarion, p. 130). Sem menoscabo de serem “homens do futebol”, os três fundadores de A Bola eram humanistas e portanto criaram o seu jornal fora da influência da ditadura salazarista. Dos três, Cândido de Oliveira logrou maior fama. Como jogador, como preso político, como treinador, como jornalista, como escritor, nunca escondeu as suas ideias, a sua visão do Homem, da Vida, da Sociedade e da História. O seu mais relevante biógrafo, que amiúde o recordava embevecido, Homero Serpa, escreve no proémio do livro Cândido de Oliveira – uma biografia (Caminho, 2000): “As preocupações culturais de A Bola, muito explícitas e determinadas logo nos primeiros números, confrontaram-se com os padrões exegíveis pelos guardas pretorioanos do regime ao jornalismo desportivo, que desejavam linear e insulados de aspectoa político-sociais. Mas nem as ameaças, veladas ou insultuosas, nem as suspensões arbitrárias, nem o tripudiar labroste dos inimigos esiabelecidos noutras gazetas, destruíram a personalidade única da escola de Cândido de Oliveira e dos seus pares. Nela, aprendi que, sem liberdade de expressão, todas as éticas e deontologias são artificiais. Cândido de Oliveira foi um jornalista subversivo? Cândido foi um cidadão, consciente e coerentemente, subversivo”.

Quando, em 25 de Março de 1946, o discurso político, acolitado por alguns jornais e a rádio estatal, anunciou um “amistoso” Portugal-Inglaterra, que resultou em vitória lusa por 11-1, A Bola, defendendo ciosamente a sua identidade, a sua independência e a verdade do que se passara, titulava assim (na quinta página!) aquela mentira, em forma de jogo de futebol: “Onze Marinheiros da Home Fleet perderam por 11-1”. E eram mesmo onze marinheiros de dois navios de guerra britânicos (e não a seleção nacional inglesa), fundeados no Tejo, os jogadores ingleses que disputaram um jogo com um misto português, que apresentou os seguintes jogadores: Capela; Cerqueira, Feliciano e Francisco Lopes; José Lopes e Grazina; Jesus Correia, Araújo, Patalino, Salvador e Rogério.

Nos comentários a esta brincadeira de mau gosto, pois pretendeu ludibriar-se a bos fé dos espectadores e até dos desportistas portugueses em geral (será de ter em conta que o fenómeno da globalização ainda não dispunha da tecnologia de que, hoje, beneficiamos), Cândido de Oliveira escreveu: “No intervalo do jogo, os dianteiros portugueses receberam a sugestão de, no segundo tempo, atirarem à baliza um pouco de mais longe. O interior direito portuense, Araújo, replicou à recomendação, com o seguinte comentário: Eu não os conheço!... E, na segunda parte, chegou aos seis golos, todos à sua conta”. E, porque denunciou, sem disfarces, a mentira, a edição deste jornal foi suspensa, pelo governo salazarista, até ao dia 30 de Abril de 1946. Desde os seus inícios, o jornalismo n`A Bola nunca significou renúncia, desvio, acomodação. A permanente fidelidade a valores de forte caráter humanista, se sempre mostrou este jornal avesso aos ideais da ditadura, também sempre o fez depositário de esperanças e certezas profundas. Segundo li na Historia do Desporto, de Bernard Gillet, Bergson afirmou, um dia: “O que mais admiro, no desporto, é a confiança que ele transmite a quem o pratica”.

De facto, o desporto nutre-se de uma grande confiança em nós mesmos; ele permite-nos um melhor autoconhecimento e não nos deixa instalar no conforto das certezas enganadoras. “La confianza es una cualidad indispensable para encarar el futuro, una virtud fundamental en cualquier proceso formativo. La mision principal de la educación es acentuar la autoestima de las personas jóvenes; es necesario que los maestros animen a los jóvenes a creer en sí mismos” (Guillem Turró Ortega, El valor de superarse – deporte y humanismo, Editorial Proteus, Barcelona, 2013, pp. 171/2). Se recordarmos os passos duma existência, rica das mais díspares experiências, dos fundadores de A Bola, logo entenderemos o seu perfil de uma forma superior de sabedoria. Porque muito sofreram; porque muito amaram; porque muito viveram – tudo o que fizeram (e foi muito) tinha os limites dos sonhos que sonharam. A Bola é um itinerário de geografia humana onde o que é humano triunfou, por fim.

O meu Amigo José Eduardo Franco, um dos intelectuais que melhor sabe refletir sobre a cultura portuguesa e, na galeria dos tipos humanos que conheço, figura verdadeiramente exemplar – José Eduardo Franco escreveu na revista Brotéria (Março de 2014): Também não podemos esquecer, nesta meditação sobre as relações entre ciência histórica e criação, que cada época produz a sua história, a sua visão do tempo que passou. Por isso, de algum modo, podemos dizer que há uma história própria de cada tempo, de cada contexto cultural, de cada regime, de cada século, na medida em que a historiografia obedece à escolha que é feita dos temas e dos ênfases, que são dados aos problemas a resolver, às preferências por determinados assuntos e até a princípios científicois e valores culturais de cada época.” (p. 267).

Na década de 40 do século passado, uma ditadura investia sobre a vida intelectual (o jornalismo é, à sua maneira, literatura) com uma raiva inquisidora. Mas uma derrota só chega, quando nós próprios a desejamos. E a Cândido de Oliveira, a Vicente de Melo e a Ribeiro dos Reis nenhum constrangimento os submetia. E, perante o espanto de todos, na primeira página de A Bola surgiam entrevistas com Aquilino Ribeiro, com Alves Redol, com José Cardoso Pires, etc., etc., com todos os que, pelo seu humanismo, não escreviam para agradar, mas para servir o que aprenderam... também na competição desportiva! E o que se aprende na competição desportiva? Acima do mais que, para competir, é preciso saber cooperar. E, cooperando, os três fundadores deste jornal (recorrendo muitas vezes a astúcias e a gestos embuçados, como encarcerado que procura iludir o carcereiro) venceram a vigilância hostil, o uso e o abuso da repressão, que sobre eles e sobre os portugueses se abateu. Apoucar a ressonância do que esses homens fizeram é uma flagrante injustiça. Eles converteram as dificuldades em possibilidades. Foram vozes genuínas da história do humanismo, em Portugal.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.

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