SEGUNDA-FEIRA, 22-05-2017, ANO 18, N.º 6323
Ética no Desporto
Jorge Carlos Fonseca: o Presidente da República que é poeta (artigo de Manuel Sérgio, 78)
22:47 - 01-04-2015
Manuel Sérgio
Em 1950, nasceu, em Cabo Verde, no Mindelo (São Vicente); entre 1957 e 1967, renasce na cidade da Praia e, ao mesmo tempo que joga à bola, sente uma absorvente e dominadora paixão pela poesia e, pela noite, declama os seus poetas preferidos e participa em românticas serenatas; em 1969, começa a licenciatura de Direito, em Coimbra e, em 1972 e 1973, não deixa de ser um aluno distinto, por ler e reler e repetir em voz alta Breton, Lautréamont, Tzara, Trotsky, Rosa Luxemburgo e Debord; em 1973, seduzido pela alma de herói, ou de apóstolo, ou de santo de Amílcar Cabral, afirma-se publicamente anticolonialista, ergue o inefável apelo de libertação do povo cabo-verdiano, é expulso da universidade e torna-se profissional da clandestinidade; depois da Revolução dos Cravos, fazem-no diplomata e, em 1977, enquanto visita a China milenária, nasce-lhe o primeiro filho; em 1980, estuda (é ele a dizê-lo) “feito louco, direito e crime, sem deixar de conspirar e conhece Prévert e Rigaut e inicia o diálogo com Whitman, Ginsberg, Le Roi Jones e Césaire; ainda em 1980, dorme com Ornette Coleman e Rimbaud, clandestinamente namorisca Pessoa” e contempla o nascimento da segunda filha; de 1980 a 1985. cria grupos, gera movimentos e ligas, estuda alemão, converte-se definitivamente à liberdade; volto ao Jorge Carlos, “interrogado, uma vez, pela polícia sobre quais eram os seus dois maiores prazeres na vida, responde espontânea e sinceramente: engraxar os sapatos, no meio de pombos, sentado num banco de praça de uma grande cidade e apreciar a solenidade de uma longa marcha de lombrigas”; e ele continua a falar, num sortilégio de talento, de sensibilidade e de cultura: “em 1985, com a febre criminal, durante seia meses esconde-se e vive numa biblioteca, em Freiburg im Breisgau, nome lindo de uma cidade, sitiada pelo verde e adormecida pela noite”; escuta as fontes múrmuras, no silêncio da noite e estuda Direito e publica o resultado das suas investigações e ama e faz poesia (a poesia, que é a sua companheira perene da jornada breve da vida). Foi docente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e, mercê do seu civismo ardente e de tudo o mais que se escreveu, o povo cabo-verdiano confiou-lhe a presidência da República. O seu nome? Jorge Carlos de Almeida Fonseca!

O Prof. Jorge Miranda não esconde a firme admiração que lhe dedica: “Jorge Carlos Fonseca é um jurista de excepção, com altíssimas qualidades reveladas, no seu mestrado na Universidade de Lisboa, no exercício de funções docentes aí e, durante algum tempo, na Universidade da Ásia Oriental (de Macau), em missões de cooperação em Timor e nos diversos estudos científicos de que é autor. Em Cabo Verde criou o Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais e a revista Direito e Cidadania, que se publica, há vários anos, com toda a regularidade, com colaboradores de vários países e já com grande prestígio, nos meios jurídicos dos países de língua portuguesa, na África e na América Latina. Esta revista, canal privilegiado de comunicação e intercâmbio de profissionais do Direito cabo-verdiano e estrangeiros, tornou-se um verdadeiro farol, em pleno Atlântico, de difusão de informações e conhecimentos, de diálogo e de cultura humanista e cívica” (prefácio ao livro de Jorge Carlos Fonseca, Cabo Verde – constituição, democracia, cidadania, Almedina, Coimbra, 2011). Mas o Prof. Jorge Carlos Fonseca não é só um jurista de exceção, a sua maturidade e maioridade intelectual põem-no atento à vida cultural do seu País e dos demais Países, designadamente os da CPLP, dado que neles se fala a língua de Vieira, Camões e Fernando Pessoa, de que Jorge Carlos Fonseca é um cativante, erudito e original cultor. Por isso, na mensagem de felicitações que dirigiu a Mia Couto, por ocasião da distinção, com o Prémio Camões - 2013, deste escritor moçambicano, Jorge Carlos Fonseca escreveu: “Foi com grande prazer, mas sem surpresa, que recebo a notícia da sua distinção com o Prémio Camões de 2013, distinção maior da Pátria de Pessoa. Na verdade, há muito tempo que, para mim, a atribuição do prémio à sua obra era uma questão de tempo. Numa época, em que tudo, ou quase tudo, parece transitório e efémero, os seus escritos surgem como uma certeza de que a permanência que o espírito encarna é uma realidade tão palpável quanto a emoção que brota da sua criação”.

A primeira vez que me recebeu, no Palácio da Presidência da República, na cidade da Praia, há pouco mais de um mês, Jorge Carlos Fonseca disse-me o que nenhum outro político me dissera antes: “Convidei-o a estar entre nós, não para nos falar dos problemas técnicos, táticos ou da arbitragem, no futebol, mas para nos ensinar a pensar o futebol como cultura, como um saber não-neutro, porque a neutralidade axiológica e política, no desporto serve, e estou agora a servir-me de palavras suas, para adormecer as pessoas à recusa da sociedade injusta estabelecida”. Fiquei surpreso com o facto de o Presidente da República de Cabo Verde dispensar aos meus pobres escritos algum do seu precioso tempo. Mas, após breve pausa, continuou: “Também concordo com a sua defesa da distinção e independência das ciências humanas, em relação às ciências da natureza, pois que me parece incontestável que os objetivos do ser humano não podem estar na dependência exclusiva do que o positivismo científico determina”. E exclamou por fim: “E também concordo consigo, quando afirma que o desporto não é só uma Atividade Física, porque é, sem lugar para dúvidas, uma Atividade Humana”. Num país de arraigada tradição positivista, como o nosso, o alcance das palavras de Jorge Carlos Fonseca é inegável. No Diário do Governo, de 10 de Abril de 1932, pode ler-se: “O conceito de Ling de que o corpo é um instrumento vivo da alma resume todo o espírito da educação física moderna, que nos trabalhos dos psicólogos destes últimos vinte anos vem encontrar os limites necessários, limites estes científicos e experimentais, que já no conceito de formação eram contidos”. Bem visível o conceito de corpo-instrumento, de corpo-objeto, como fundamento da educação física e do desporto. Aqui, tem residido o grande obstáculo epistemológico, que ainda leva pessoas a olharem a motricidade humana, como um espaço donde irrompem bestas esplêndidas, onde o ser humano aparece truncado e diminuído. Percebo agora a inapagável ressonância das palavras de Jorge Carlos Fonseca, no seu País. Elas abrem uma via de seguro piso e de perspetivas amplas. E não só para o desporto...

É este Presidente da República, que é poeta; que granjeou fama e respeito, pela sua vida política; que nunca se eximiu a dar tudo quando a sua Pátria tudo lhe pediu – que se considera um dos membros da família de A Bola. Sem dúvida, um dos seus mais ilustres membros! E que revela (sem o dizer) a cada passo, que sabe de desporto. Porque o modelo que propõe de desportista é o de um “homem humano” que, pela transcendência, se esforça por realizar todas as dimensões da sua humanidade. Este, sim este é o verdadeiro campeão! Parabéns ao jornal A Bola, pelo jornal que é e pela família que tem, enriquecida pela presença da humanidade superior do Prof. Jorge Carlos Fonseca, um poeta de lirismo espontâneo e singularmente límpido, que é o Presidente da República de Cabo Verde..

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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