SEGUNDA-FEIRA, 24-04-2017, ANO 18, N.º 6295
José Neto
Espaço Universidade
Emoções – Comportamento – Rendimento – Resultado (artigo de José Neto, 5)
18:08 - 31-03-2015
José Neto
Entramos numa fase decisiva para o apuramento de competências no sentido de validar pontos para a conquista de um título, o acesso à Liga dos Campeões ou demais provas da UEFA ou em caso contrário à sufocante fuga a possíveis descidas de divisão.

Quem for capaz de conseguir ultrapassar as exigências da competição de forma emocionalmente mais equilibrada, revestidos por isso de um lastro, não tanto de capacidades intelectuais, atléticas ou funcionais, mas identificados de um estado de alma e confiança nas ações a converter, no prazer em realizar, na motivação em se envolver e no orgulho a confirmar, poderá estar mais próximo do êxito, pois sabemos que as expressões sentidas em ato, como consequência dum estado emocional, tornam-se por vezes altamente reveladoras na tomada das decisões mais eficazes.

Entre o sentir e o pensar não existem fronteiras. Por isso o sentimento arrebatado para se conseguir obter um estatuto de vitória também é gerador de um estado de crença como força motriz de intencionalidade operante, que por consequência induz atitude de significado superior para o sucesso e … como refere Ghandi “quem acredita numa coisa e não faz tudo o que acredita, veste a pele de covarde”.

Esta corrente de sucesso conseguido e advindo de melhores desempenhos obtidos, é capaz de perdurar mais no tempo, derivando para uma consciência mais operativa no sentido de validar o sucesso, permitindo influenciar o coletivo/equipa para o estado de performance. Como também sabemos, o comportamento dos jogadores após os êxitos obtidos são distintamente diferentes após as frustrações realizadas, vendo deste modo a assunção da bem explícita qualificação do seu rendimento.

Por outro lado, jogadores emocionalmente traídos por resultados negativos são originários de estados de maior dificuldade de concentração, vendo diminuído o seu estado de alerta onde sempre espreita uma crise de raciocínio, provocando um estado de negligência e desânimo – muitas vezes encontra-se aqui a causa devastadora de uma derrota.

Mas, a capacidade humana para se adaptar e superar adversidades é por vezes fenomenal. A experiência nos tem dito que somos capazes do melhor quando as coisas se tornam previamente mais difíceis e também do pior quando as mesmas se apresentam mais acessíveis. Certas derrotas escandalosas demonstram que somos os piores terceiro-mundistas e as vitórias quase impossíveis, fazem-nos crer que somos tão bons como os outros…Do jogo como da vida, de um momento para o outro nos catalogamos como os mais pobres dos ricos … como os mais ricos dos pobres…
… e os jogadores (como refere Patmore) são também maravilhosamente imprevisíveis. Quando colocados numa “arena ou estádio” e as suas esperanças e medos são expostos em frente de milhares de espectadores, eles são capazes de fazer coisa extraordinárias … extraordinariamente bem feitas e logo a seguir, extraordinariamente mal feitas. Para alguns, o primeiro obstáculo está na incapacidade para ultrapassar o seu próprio receio para enfrentar a competição; por vezes até se assiste a uma diferença abismal em participações excelentes nos treinos, com performances verdadeiramente chocantes nas competições realizadas… é como se tudo fosse desaparecido ou esquecido!...

As transformações do estado de consciência fixa-se por vezes mais nos objetivos de conquista e menos naqueles que estão no terreno para os conquistar e, como todos também sabemos, quem se foca mais na consequência e menos na causa, pode ficar a meio da viagem, vergado pelo efeito devastador das incapacidades para o conseguir.

Daí que há uns tempos a esta parte, tenho vindo a persistir numa permanente luta para uma nova fenomenologia do treino desportivo. Não tem sido fácil, já que por aí sobram muitos especialistas que apregoam ideias, algumas delas gastas, sempre associadas a uma certa futilidade, revisitando-se ao espelho da sua própria ignorância. No entanto, em abono de realidade, sendo confirmada em vários êxitos conseguidos, posso atestar que, com a inserção de competências, em especial no domínio da motivação, stress, ansiedade e rendimento, coesão de grupo, atenção e concentração, formulação de objetivos etc…etc… e neste caso específico ao nível das emoções e comportamento, isto sendo associado, repito, associado às vertentes tático técnicas, atlético-funcionais no ciclo semanal de treino, estaremos muito mais próximo dos êxitos a obter.

Neste âmbito e no correspondente ao tema em análise, posso destacar a título de exemplo, as técnicas de confronto no sentido de o jogador se auto comunicar, falando consigo mesmo no decorrer do jogo de forma enérgica e segura, auscultando o seu estado de consciência operativa, experimentando a conversão numa avaliação dos seus rankings de sucesso (passe, receção, remate, desarme … etc…) sendo capaz de controlar as situações, regulando o seu equilíbrio emocional, em situações criadas, como exemplo em casos de substituição, a impetuosidade do espectador, a agressão verbal ou não verbal do adversário, má decisão da equipa de arbitragem … etc … refreando os impulsos que poderão causar sensações perturbadores, transferindo para a função de jogo as melhores respostas, servindo como postura exemplar. Nessa convicção profunda nas jogadas a realizar, revisitando a experiência fantástica anteriormente exercida, poderá essa voz interior transformar-se numa âncora de convicções autenticadas. Associar a estas imagens figuras fundamentais da sua vida pessoal, teremos um belo significado para a excelência. Reside aqui quanto a mim o melhor combustível para o desempenho.

Jogadores emocionalmente controlados conseguem comprometer-se com boa conduta proactiva, revestidos de atitudes que lhes conferem um padrão de conversão, no maior poder de iniciativa que se revisita e amplia pelo todo que é a equipa.

Defendo por isso que sempre o treino deve contemplar situações que possam e devam provocar emoções extremas (até com alguma dose de dramatismo), como os golos no último minuto; equipa reduzida a 10, 9, 8 ou até 7 jogadores; impedimentos momentâneos de alta gravidade; questões de ordem meteorológica … etc … tudo situações análogas à competição, vendo-se assim diminuídos os efeitos surpresa que, a acontecer, provocam emoções negativas causadoras de padrões rítmicos altamente perturbadores e geradores de convulsões por vezes inultrapassáveis. Se não posso controlar o relvado, as condições do tempo, o erro cometido, os adversários, a equipa de arbitragem, porque permitir que se perca a concentração neste tipo de diálogo interior em vez de enfatizar tudo aquilo que posso e devo controlar, dando como como exemplo: a luta perante o adversário, o espaço e o tempo na antecipação, a qualificação do remate, etc… etc… Ao concentrar-se em ações que não controla, o futebolista sobrecarrega o cérebro que gere o seu desempenho. Pelo contrário, quando se é capaz de gerir os pensamentos de forma positiva, ajuda de forma substancial a concentrar-se no que pretende atingir e a esquecer o que deve evitar.

Outro aspeto a ter em conta é a prática de exercícios para a reconstrução de imagens mentais, porventura capazes de provocar um plano aberto de consciência para o êxito, associando técnicas de relaxamento, imaginação e visualização mental e respiração (reafirmo de forma insistente para a inserção destas e de outras vertentes referentes ao plano mental, na dinâmica processual do treino em campo).

Neste âmbito, (e de uma forma muito sintética… pois daria outro tema a refletir), a regulação do mecanismo respiratório poderá assumir-se como um excelente instrumento acessório, permitindo dosear mais energia muscular, sendo ao mesmo tempo um elemento regulador dos mecanismos sensoriais da atenção e concentração, induzindo um melhor estado de confiança, vendo-se convertida a energia que emerge como fonte propulsora do resultado em sucesso.

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