QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
Espaço Universidade
Thomas Bach versus Pierre de Coubertin (artigo de Gustavo Pires, 8)
22:27 - 26-03-2015
Gustavo Pires
Se para Levi-Strauss a cultura articula “determinantes inconscientes” que se expressam em manifestações institucionais, para Bronislaw Malinowski a cultura, a partir da observação do ambiente, é um meio para:

1. Atingir um fim que se pretende através da codificação das atitudes;
2. Lidar com os problemas impostos pela natureza das coisas.

Nesta conformidade, a cultura é uma realidade instrumental que se sustenta nas memórias do passado a fim de organizar o futuro. Quer dizer que, para que a cultura se mantenha viva e atuante deve resolver o seguinte paradoxo:
… respeitar as tradições, num ambiente histórico-cultural em plena evolução.

Porque, se não existe cultura sem história também não existe desenvolvimento sem cultura. E como a raiz da palavra cultura está no culto, no que diz respeito aos aspetos espirituais da cultura, em matéria de desporto, não existe Olimpismo sem espiritualidade. Como refere Norbert Müller:

Coubertin reintroduziu os fins religiosos dos Jogos Olímpicos antigos na modernidade, sem modificar o essencial do seu sentido espiritual.

A essência da cultura, para além dos objetos materiais, dos artefactos, das ferramentas ou de outros elementos tangíveis é, fundamentalmente:

• O ritual pelo qual cada geração recebe o património espiritual da geração antecedente;
• O culto pelo qual cada geração interpreta, administra e preserva o património espiritual ao longo da sua vida;
• A pedagogia pela qual cada geração transmite o património espiritual à geração seguinte.

Nestes termos, a dimensão da cultura olímpica é expressa:
1. Em termos de passado, pelos valores espirituais, éticos e morais que decorrem da competição em busca da excelência;
2. Em termos do presente, pelos rituais antropo-históricos dos Jogos Olímpicos enquanto celebração da humanidade;
3. Em termos de futuro, pela filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço do desenvolvimento humano.

Quando Thomas Bach, presidente do COI, relativamente à parceria estabelecida entre a instituição que lidera e a UNESCO, afirma que “a educação física nas escolas é crucial” porque “o desporto desempenha um papel central no sistema educativo”, estamos completamente de acordo. Mas, quando conclui que “o COI ao colaborar com a UNESCO assegurará que a educação física seja uma parte integrante do currículo escolar promovendo uma mente sã num corpo são”, estamos profundamente em desacordo na medida em que ele, ao referir-se ao aforismo do poeta romano juvenal, “mens sana in corpore sano”, no que diz respeito à cultura olímpica, não está a respeitar: os valores espirituais da competição em busca da excelência; o conhecimento antropo-histórico de várias gerações em função de preservar a filosofia de vida que é o Olimpismo; e a questão filosófica do desenvolvimento humano inerente aos princípios do Olimpismo.

Num texto publicado na “Revue Olympique” de julho de 1911, sob o título “Mens Fervida in Corpore Lacertoso”, Coubertin argumentava que a perspetiva desportiva do Movimento Olímpico (MO) nada tem a ver com o velho aforismo “mens sana in corpore sano”. Dizia ele que tal aforismo não se coadunava com o desporto. E porque?

Porque, ao desencadear o MO moderno, em rutura com as escolas de ginástica que imperavam na Europa, Coubertin abandonou, propositadamente, o sentido do equilíbrio estático da euritmia de Juvenal para assumir o sentido do equilíbrio dinâmico da euritmia do “citius altius, fortius” da competição, propugnado pelo frade Didon para o desporto. E, por isso, ao contrário daquilo que, muitas vezes, se diz, Coubertin não promoveu mais um sistema gímnico para além dos que já existiam. Pelo contrário, ele provocou uma rutura epistemológica relativamente aos diversos sistema gímnicos que se praticavam na Europa para assumir um paradigma universal, competitivo, democrático e desenvolvimentista, representado pelo desporto.

O “mens sana…”, argumentava Coubertin, era “uma perspetiva demasiado médica para ser proposta aos desportistas”, quer dizer, era “uma máxima excelentemente higiénica mas nulamente atlética”. Em alternativa, ele propôs um outro: “mens fervida in corpore lacertoso” que queria dizer “um espírito ardente num corpo treinado”.

Ou Tomas Bach está numa estratégia discursiva com uma sonoridade agradável para os prosélitos da educação física a fim de conseguir fazer entrar a educação desportiva nos estabelecimentos do ensino básico e secundário, ou está mal informado acerca das implicações ideológicas que levantou, ao fazer referência ao aforismo de Juvenal. Em qualquer das situações ele está errado. Se está numa estratégia de agradar aos prosélitos da educação física está enganado porque, ao cabo de quase cento e trinta anos, nunca foi possível fazê-los abrandar o radicalismo das posições salutogénicas e pedagogista contra o sentido educativo da competição. Se está mal informado ainda é pior na medida em que o que se espera de um qualquer dirigente do MO é que conheça não só a obra de Coubertin bem como as implicações ideológicas com incidências nos dias de hoje que decorrem dos grandes combates travados por Coubertin em defesa do MO. E, a este respeito, Coubertin foi bem claro porque, segundo ele:

tornou-se comum referir o ‘mens sana in corpore sano’ sempre que um humanista é colocado perante a aventura de ter de discursar sobre uma atividade muscular à qual é totalmente estranho.

O Olimpismo não deve ser transformado numa espécie de “cultura pimba”, quer dizer, numa espécie de discurso panfletário, divertimento esotérico ou ornamento de valor ético duvidoso, para o qual se vão buscar umas figuras públicas mais ou menos exóticas que, na maior das ignorâncias e falta de pudor, se prestam a representar um determinado papel ao serviço do poder vigente. Quer a nível dos países, quer a nível internacional, o MO não deve entrar num processo de “desculturação” porque a cultura olímpica está impregnada de princípios e de valores que determinam o credo, a vocação e a missão do MO. Se tal acontecer, o MO ficará reduzido a ser uma organização que, de quatro em quatro anos, produz um evento desportivo de baixa qualidade ética porque desprovido de quaisquer referências culturais.

Independentemente da indiferença de muitos dirigentes olímpicos dos mais diversos países, a cultura é a condição primordial de sobrevivência do MO enquanto projeto político, económico e social ao serviço do desenvolvimento. Por isso, a cultura olímpica, sustentada na dinâmica da conjugação da história com o futuro, deve ser uma prática democrática contínua e uma afirmação pedagógica permanente, sob pena de, se não o for, a instituição entrar em colapso e acabar por se desmoronar sob o peso das opiniões “ad hoc” dos seus dirigentes.

Em conclusão, diremos que Thomas Bach está profundamente enganado quando utiliza o aforismo do “mens sana in corpore sano” do poeta juvenal em vez do “citius, altius, fortius” do Frade Didon que, verdadeiramente, simboliza a dinâmica de equilíbrios e de desequilíbrios da euritmia do “mais rápido, mais alto, mais forte” do MO ao serviço do desenvolvimento humano.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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