QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Manuel Alegre: - um semeador de poesia (artigo de Manuel Sérgio, 69)
19:14 - 28-01-2015
Manuel Sérgio
Segundo o Conde de Abranhos, uma das imortais e cómicas figuras, criadas por Eça de Queorós, “a primeira vantagem da Universidade é a separação que se forma naturalmente entre estudantes e futricas, entre os que apenas vivem de revolver ideias ou teorias e aqueles que vivem do trabalho. Assim, o estudante fica para sempre penetrado desta grande ideia social: que há duas classes – uma que sabe, outra que produz.

A primeira, naturalmente, sendo o cérebro governa; a segunda, sendo a mão, opera e veste, calça, nutre e paga a primeira. Dois mundos – como diz o nosso poeta Gavião – que se não podem confundir e que, vivendo à parte, com fins diferentes, caminham paralelamente na civilização, um com o título egrégio de Bacharel, outro com o nome emblemático de Futrica. Bacharéis são os políticos, os oradores, os poetas e, por adopção, tácita, os capitalistas, os banqueiros, os altos negociadores. Futricas são os carpinteiros, os trolhas, os cigarreiros, os alfaiates. O Bacharel, tendo a consciência da sua superioridade intelectual, da autoridade que ela lhe confere, dispõe do mundo; ao Futrica resta produzir, pagar para que o Bacharel possa viver e rezar ao Ser Divino para que proteja o Bacharel” (Eça de Queirós, O Conde de Abranhos – notas biográficas por Z. Zagalo, Vega, p. 37).

O Eça de Queirós é um autor que se lê e relê e apetece sempre voltar a ler. Fazem-me falta, neste momento, o Artur Jorge e o Fernando Vaz, dois treinadores de futebol, amantes da boa literatura, e o Homero Serpa e o Alfredo Farinha, dois jornalistas que sabiam dar ao jornalismo a dignidade de uma obra literária – todos “homens do futebol” e com o sereno orgulho de quem procura, na arte, uma companheira perene de compreensão do desporto. Nos dias de hoje, não entende o desporto de alto rendimento, de exigentíssimos desempenhos, quem não exceder o biologismo que o cartesianismo e o positivismo lhe deixaram. No entanto, estou a ouvir, esta pergunta, adiantada com escárnio: “O que é isso de cartesianismo e de positivismo e o que tem isso a ver com o desporto?”.

Mas, porque tenho diante de mim o livro de Manuel Alegre, A Praça da Canção, livro que se relembra e evoca, pelos seus 50 anos de vida (comprei-o, na terceira edição, editado pela Centelha, Coimbra) peço licença para assinalar que nasceu, num desportista, o Manuel Alegre, desportista e filho e neto de desportistas (fui amigo do seu tio, o embaixador Mário Duarte, um dos fundadores do C.F. “Os Belenenses” e o primeiro guarda-redes da equipa de “camisola azul e cruz ao peito”) - nasceu num desportista, internacional de natação, estudante de Direito da Universidade de Coimbra, o poema, em língua portuguesa, de amor mais apaixonado, pela democracia e a liberdade e de um indubitável altíssimo nível artístico, que me foi dado ler, em 1965, era eu ainda trabalhador-estudante da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Já não sei quem mo aconselhou.

O António Borges Coelho, meu contemporâneo na universidade, antifascista convicto e que vinha de passar 7 anos, nas prisões salazaristas? O Medeiros Ferreira (meu “amigo do peito”) e o Sottomaior Cardia já a PIDE os excluíra do ensino universitário, em Lisboa. O crime de que todos eram acusados em poucas palavras se resumia: queriam um Portugal diferente, completamente diferente, do Portugal que Eça de Queirós finamente criticou e satirizou n`O Conde de Abranhos e...continuava dominante, com António de Oliveira Salazar! N`A Praça da Canção, senti poesia e política, numa síntese luminosa e indestrutível e declamava-o nas aulas para que os alunos percebessem que, pela arte e pela cultura, também se ensina e aprende desporto. Salvo melhor opinião, é preciso (e com urgência!) deseducar os alunos dos cursos universitários de desporto, alienados pela lógica de um crescimento desportivo biologicamente hiperespecializado. A emergência da subjetividade, como criatividade, como juventude viva e radiosa, como capacidade de fazer diferente, é sinal evidente de progresso. Até a linguagem precisa de ser revista. “Os velhos problemas estão encerrados na velha linguagem (…). Se a linguagem que utilizamos não mudar, o que fazemos também não muda” (Arthur Battram, Navegando na Complexidade, I. Piaget, 2004, p. 20) .

A “Trova Do Vento Que Passa” termina com esta quadra: “Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não” (A Praça da Canção, Centelha, Coimbra, p. 104). Jorge Valdano, pelo sortilégio do talento, da sensibilidade e da cultura, escreve sobre futebol e os futebolistas, com honrosa e cativante originalidade: “num campo de futebol, a distância mais pequena entre dois pontos é aquela onde está Cristiano e a baliza contrária. Começa a jogada, continua-a e termina-a, em poucos segundos e sem muita companhia. São 80 metros de corrida imparável e aquilo que percebemos que poderia dar golo efetivamente converte-se num golo. Estou a recordar e não a imaginar. Demonstra a sua singular relação com o espaço.

Analisemos agora a sua vantajosa relação com o tempo. Disse Juanito, numa gloriosa ocasião e numa espécie de italiano: Noventa minutis en nel Barnabeu son molto longos. Se o Ronaldo joga ainda são mais longos porque, quando o cansaço começa a pesar sobre as pernas dos defesas, Cristiano mostra-se fresco como uma alface e passa por cima de todos. Prova: a quantidade desproporcionada de golos, que marca nos últimos minutos”. Este é mais um texto de um artigo de Valdano, de que também apresentámos, aqui, uma parte, na nosso última colaboração. Mas eu encaro com apreensão crescente, ou seja, quero também dizer “não” às análises unicamente físicas e técnicas dos jogadores de futebol – um futebol que, por vezes, parece ter perdido a consciência de si mesmo, num clubismo doentio, na fascinação dos mitos, num mercantilismo sem freios, na subestima de princípios justos e aspirações generosas. A reforma do futebol, ou é também ética e política, ou não é reforma. O futebol (como o desporto, afinal) deverá empenhar-se numa incansável formação de dirigentes e técnicos que mostrem saber o que significa o desporto como fenómeno social, cultural e político.

Em Manuel Alegre, a poesia é mais do que poesia. Segundo o JL, de 21 do mês em curso, é mesmo “um grito de revolta”. Ora, para mim, e eu não estou só, o futebol, o espetáculo desportivo são bem mais do que, como por aí se diz, Atividades Físicas. Render homenagem à poesia de Manuel Alegre, como eu o fiz nalgumas das minhas aulas do ISEF de Lisboa, é na realidade um ato de reconhecimento pela arte de um poeta de pergaminhos de indiscutível nobreza e também a certeza de que os sonhos de perfeição moral e ética do ser humano são o que de mais belo existe na prática desportiva. Como afinal na vida humana. Li, já não sei quando, nem onde, em André Malraux: “Uma vida humana pouco é, mas nada é superior a uma vida humana”. Desde que se saiba trazer à luz a essência que a vida oculta, em palavras de Manuel Alegre: a “viagem do homem para o homem”...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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