SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Gustavo Pires
Olimpismo
Pierre de Coubertin, Olimpicamente Neoliberal (artigo de Gustavo Pires, 5)
15:43 - 22-01-2015
Pensar global e agir local é o que parece caracterizar a dinâmica de desenvolvimento da CM de Montemor-o-Velho que, devido às condições naturais de excelência do seu território para a prática da canoagem, encontrou no desenvolvimento da modalidade um instrumento de significativa importância para o seu próprio desenvolvimento e progresso.

Decorrente desta aposta da CM, nos próximos meses de maio e junho, realizar-se-á o Campeonato do Mundo e a Taça do Mundo de Juniores e de Sub-23. Este evento, segundo informação de Vítor Félix, Presidente da Federação Portuguesa de Canoagem (FPC), vai levar a Montemor-o-Velho de 1.100 a 1.200 atletas de 80 a 90 países. Só por isto, a CM e a FPC já estão de parabéns.

Na dinâmica neoliberal que hoje tomou conta do mundo, as cidades e até os países, na sua estratégia de afirmação externa, dirigem-se ao mercado tal como se fossem empresas. O objetivo é venderem-se a si próprias no mercado global. A este respeito, o Comité Olímpico Internacional (COI), na sua “Agenda 2020”, até reconheceu a necessidade de rever as condições de candidatura das cidades que pretendam receber os Jogos Olímpicos. E as condições vão ser determinadas pelas leis do mercado, até porque são essas leis que, desde os anos sessenta, regem a organização do Movimento Olímpico e dos Jogos Olímpicos.

Entretanto, a Secretaria de Estado do Desporto e Juventude (SEDJ) e o Comité Olímpico de Portugal (COP), aparecem, naturalmente, associados ao evento de Montemor-o-Novo. Não podia ser de outra maneira. Na conjugação da eficácia e da eficiência económica com a competitividade e os resultados desportivos, a SEDJ e o COP são as faces da mesma moeda, quer dizer, de uma dinâmica neoliberal de desenvolvimento do desporto, que procura maximizar a conjugação das questões económicas que decorrem do evento desportivo, com as questões desportivas que decorrem da estratégia económica. E tudo, na lógica neoliberal, para valorizar a marca Portugal.

Em conformidade, se a este propósito, na cerimónia de apresentação do evento, Emídio Guerreiro o Secretário de Estado aproveitou para referir que “Portugal pode e deve multiplicar os eventos em diferentes modalidades…” que contribuem para “a economia local, regional e nacional, criando valor, riqueza e emprego", o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) não necessitou sequer de o dizer, na medida em que, numa dinâmica neoliberal, há muito que a instituição estabelece acordos com empresas como a REN (Redes Energéticas Nacionais), uma multinacional com capital chinês, a fim de “sponsorizar” a Equipa Olímpica Portuguesa. E é, também, na mesma lógica neoliberal que, entre outros programas, 42 atletas olímpicos e paralímpicos recebem bolsas de estudo atribuídos pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) que é uma pessoa coletiva de direito privado. Independentemente de se estar ou deixar de estar de acordo porque não é disso que se trata, é esta a realidade económica na qual se integra o desenvolvimento do desporto.

A tradição liberal vai de John Lock (1632-1704) e os direitos naturais do homem até, entre outros, Karl Popper (1902-1994) e a miséria do historicismo. É nesta tradição que assenta a lógica do Movimento Olímpico moderno. Repare-se que, já em 1888, Pierre de Coubertin defendia o princípio da equidade que viria a ser desenvolvido em 1971 na obra “A Teoria da Justiça” por John Rawls um dos ideólogos atuais do neoliberalismo. Escrevia Coubertin:

“A democracia é inimiga do privilégio tanto em cima como em abaixo; nesse sentido é igualitária. Mas há vantagens que lhe escapam; aquelas que os homens dispõem ela não as quer atribuídas ao acaso do nascimento, ao exclusivo de uma certa classe de cidadãos. Numa palavra, a democracia deseja que todos se possam elevar; o que não quer dizer que seja necessário que todos se elevem; isso seria passar de um princípio que pouca gente contesta a justeza, para uma perfeita utopia. Era necessário começar por decretar a igualdade das inteligências, disposição que falta na coleção das leis grotescas do Terror. Não se podendo agir diretamente sobre esta desigualdade, esforçam-se por superá-la favorecendo por todos os meios os menos inteligentes enchendo de dificuldades o caminho aos mais dotados, pratica-se o privilégio ao contrário. Finalmente, acaba-se por produzir uma mediocridade generalizada.” Quer dizer que, para Coubertin, os princípios fundamentais do Olimpismos deviam cumprir os fundamentos do liberalismo: (1º) igualdade de oportunidades na dignidade do ser humano e (2º) diferença de méritos no seu empenho e capacidades.

Assim sendo, o que se espera para o desenvolvimento do desporto, é uma ética de autenticidade que, no quadro da economia social de mercado em que vivemos, a palavra neoliberalismo não sirva para esconder as mais variadas incapacidades na medida em que as organizações que, à escala mundial, mais positivamente cumprem os requisitos do neoliberalismo são o COI, as Federações Internacionais e os CONs dos mais diversos países. O problema é que existem dirigentes que ainda não deram por isso.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
Gustavo Pires

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