QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
Ética no Desporto
José Maria Pedroto: o conhecimento... (artigo de Manuel Sérgio, 64)
00:17 - 07-01-2015
Manuel Sérgio
Na década de 70, trabalhei eu no INEF e no ISEF, ao mesmo tempo que fazia de Bachelard, Althusser e Foucault os meus “maîtres à penser”. Relembro ainda o prazer que me deu a leitura de A Sociedade do Espetáculo do Guy Debord – sociedade do espetáculo que continua viva, perante o pasmo inconsciente de certos comentadores políticos, ressentidos e avelhentados. Com efeito, na sociedade do espetáculo tudo, para existir, tem de ser espetáculo!... Pela altíssima novidade filosófica do que me chegava de Paris; pelas lições que recebera no INEF do Prof. Nelson Mendes, muito crítico das ramalhíssimas figuras que postulavam, para resgate da juventude portuguesa, a ginástica de Ling; porque desde 1964 fazia do estádio do Restelo a minha segunda casa - depressa me tornei um repetidor insaciado de muitas dúvidas. E quando, pela mão de Foucault, descobrira que a expressão “educação física” despontara, pela primeira vez, na história, no século XVIII, foi no “erro de Descartes” que juguei encontrar a origem da educação física e da medicina moderna. E com este retrato feito de palavras onde, de certo, se surpreendem os tiques, os ridículos de quem falava de duas profissões que nunca exercera (professor de educação física e treinador desportivo) se poderá visionar as incertezas que me tomavam, quando José Maria Pedroto, depois de atentamente me escutar num congresso de medicina desportiva, de mim se aproximou para me questionar: “Gostava que me explicasse por que não existe educação física e o treino desportivo é bem capaz de estar errado”. Isto, em Maio de 1979! Eu já beneficiara do convívio fraterno de Mário Wilson, era ele treinador do Belenenses e professor de futebol da Escola de Educação Física de Lisboa; também já experimentara, em demoradas conversas, a cultura literária, de indisfarçável autodidatismo, de Fernando Vaz – mas nenhum me pareceu tão preocupado com as raízes epistemológicas da sua profissão, como José Maria Pedroto. E foi esta inquietação, comum aos dois, que nos uniu, assim o penso.

Longe de mim a presunção de ter uma resposta cabal a uma questão que tanto me intrigava. Na realidade, a educação física é a extensão educativa de que ciência? Se a educação médica é o ramo pedagógico da Medicina e a educação jurídica é o ramo pedagógico do Direito, etc., etc. - qual a ciência de que a educação física é o ramo pedagógico? Foi na fenomenologia que, por essa altura, aprendi a pensar o tema. Pensar, vale dizer, produzir um saber pela mediação da reflexão. Ora, a fenomenologia define-se, para muita gente entendida, como o estudo da intencionalidade da consciência. Ela anota na motricidade (assim o sublinha Maurice Merleau-Ponty) dois traços preponderantes: movimento e intencionalidade. E o que é o desporto senão a pessoa humana no movimento intencional e em equipa da transcendência (ou superação)? Comecei assim a defender mais uma ciência hermenêutico-humana, a ciência da motricidade humana, com as seguintes especialidades: o desporto (onde cabe hoje a gestão do desporto), a dança, a ergonomia e a reabilitação. Com a criação do novo paradigma (o movimento intencional e em equipa da trancendência) depressa encontrei a metodologia a utilizar nesta nova ciência: chamava-lhe então o método integrativo, “onde o todo está em tudo e tudo está no todo”. E, no treino, treinar a parte é sempre treinar o todo e treinar o todo é sempre treinar a parte. E é pondo-me no seio desta abertura originária à pessoa humana, na sua integralidade, própria da fenomenologia, que passo a duvidar do treino tradicional, demasiado parcelar pelas ciências positivas e que ainda vivia do conceito de ciência de Augusto Comte e o de fisiologia de Claude Bernard (este, um nome rutilante da história da medicina) e Demeny (professor de fisiologia, na Escola Militar de Joinville).

Para além da família (era exemplar o seu amor à Mulher e aos Filhos), o F.C.Porto jamais permitirá que o nome de José Maria Pedroto caia no olvido. O Instituto Universitário da Maia fará o mesmo, por força da lucidez do seu presidente, o Prof. Domingos Oliveira e Silva, e da gratidão do Prof. José Neto que ata os nós dos melhores juízos sobre José Maria Pedroto e cose-os para nos apresentar o tecido daqueles valores por que vale a pena lutar e viver. O José Neto entrou no futebol levado pelas mãos seguras de Pedroto que, por sua vez, entra nos corações dos alunos do Instituto Universitário da Maia, pelo culto que lhe dedica o seu antigo treinador adjunto. Dos jogadores e treinadores e dirigentes e especialistas de saúde, que trabalharam com Pedroto (distingo, neste passo, o professor João Mota, seu “amigo-do-peito”, e o dr. Artur Jorge) – todos eles gostariam de fazer, com as palavras, um busto de granito, para legar à posteridade a presença autêntica e flagrante de uma figura de extraordinário poder evocador, no futebol português e, em particular, no F.C.Porto. Da minha parte não sei se não me falta a eficácia, o bom gosto, o talento para pronunciar-me sobre alguém que foi um mestre na arte de liderar uma equipa de futebol e que foi também um dos praticantes mais habilidosos que conheci, no nosso “desporto-rei”. Mas, cumpre-me também destacar a sua rescendente alegria, arrogante e combativa, na fidelidade ao amigo Jorge Nuno Pinto da Costa. Sobranceiro às fraquezas, ao oportunismo, à mera teatralidade de muitos, várias vezes me disse: “Onde estiver o Jorge Nuno, eu estou também”. Quando o conheci mais de perto, se teve a sua aura de agitador na luta sindical, já regressara à estabilidade dos principios, ao respeito sagrado dos valores democráticos constituídos.

Por fim, “finis coronat opus”, volto ao princípio: uma das marcas que José Maria Pedroto mais imprimiu, no futebol português, em especial no F.C.Porto, foi um inesperado encontro com o conhecimento. Por generosidade sua, posso testemunhar que ele foi, no mais alto grau, modelo e espelho de procura da “verdade científica”, no futebol. Lembro-me perfeitamente que ele sorriu, com agrado, quando um dia lhe li a frase de Bachelard: em todos os domínios do conhecimento, “uma cabeça bem feita é uma cabeça mal feita, que tem absoluta necessidade de ser refeita”. É que o seu olhar, que não ficava tão-só na superfície folclórica dos erros dos árbitros, penetrava, descobria, reconstruía o que de mais autêntico o futebol tem e é. A sua visão do futebol nutria-se, de facto, de múltiplas experiências. Ele era um prático. Completara o ensino liceal mas, como mister, ofício, modo de vida, foi sempre um profissional do futebol. Ao contrário de mim, que ora sofria nas bancadas dos estádios, ora me perdia num saber livresco da mais embrenhada polimatia. Ainda hoje, para saber um pouco de desporto, leio muito mais do que desporto. “Ele era um prático” escrevi eu. Mas, sendo um prático, foi um pioneiro, com uma atividade inconfundível, no âmbito de uma explicação mais fundamentada do futebol. Numa encruzilhada de inclinações (os práticos contra os teóricos), numa época de mútua suspeição, ele não teve receio de ensinar que a ciência é um processo inacabado de verdades provisórias e que não há prática sem teoria, nem teoria sem prática. A processualidade do saber exige dos teóricos e dos práticos que relativizem o que sabem, pois que é preciso saber-se muito, para saber-se que se sabe muito pouco. Esta a principal lição que eu colhi de José Maria Pedroto – que, pela memória que não esquece e pelo afeto que não morre, bem merece que o recordemos e o imitemos, trinta anos depois do seu passamento.

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.

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