TERÇA-FEIRA, 27-06-2017, ANO 18, N.º 6359
Ética no Desporto
Da Desconfiança à Solidariedade em Pinto da Costa e Filipe Vieira (artigo de Manuel Sérgio, 57)
18:19 - 27-11-2014
Manuel Sérgio
No seu célebre livro, Políticas da Amizade, Derrida tentou fundar e delinear a dimensão política, a partir da afetividade, da solidariedade, da cordialidade e não só a partir de acordos, de razões, de legislação. Neurologicamente: mais ao nível do sistema límbico do que no âmbito do neocortical (vide o Dr. António Damásio) Visava o filósofo, não um crescimento pelo crescimento, um crescimento economicista, cego aos valores mais profundamente humanos e por isso individualista e belicista - mas um desenvolvimento entendido como passagem do Homem ao mais humano.

O Homem não tem uma natureza, é uma história e a história movimenta-se, desenvolve-se como criação contínua do homem pelo homem. Se bem entendi o que estudei no Padre Teilhard de Chardin, uma visão fixista do Homem, da Sociedade e da História é sempre um pecado. Na minha já velha discordância do dualismo antropológico cartesiano, a sua tara mais desagradável situa-se precisamente, para mim, no “eu penso, logo existo” que começa no “eu”, como se vê. Só que este “eu” de Descartes (1596-1650) deu início ao racionalismo e ao capitalismo, de cariz fortemente individualista. Em conversa com Anselmo Borges, Roger Garaudy também não mostrou simpatia por qualquer assomo de individualismo. “Julgo que é um erro enorme dizer-se que, sem o eu, não haveria pessoa. Eu penso que o indivíduo e a pessoa, não só não se identificam, como se opõem radicalmente. Se eu empregasse a metáfora tirada da linguagem dos físicos, diria que o indivíduo é da ordem do corpúsculo e a pessoa da ordem da onda, do campo (…). Creio pois que este individualismo nos colocou num embaraço, ao atomizar a sociedade. Em última análise, indivíduo é palavra latina mas, traduzido em grego, é átomo, ou seja, uma espécie de uma pequena esfera indivisível, isolada de tudo o resto, pelo vazio” (Anselmo Borges, Do Mesmo ao Diferente, Figueirinhas, pp. 115/116).

De acordo com uma tese, que ando há anos a compor, o desporto é um dos aspetos da motricidade humana, a qual, ressoando Maurice Merleau-Ponty, eu ouso assim definir: é o movimento intencional e em equipa (em grupo) da transcendência (ou superação). Mesmo nos chamados “desportos individuais” é em equipa que o atleta compete e alcança desempenhos de espantar, porque sem o(s) treinador(es), o(s) dirigente(s) e o médico e o enfermeiro nada, ou bem pouco, faria. Todo o gesto desportivo, nos desportos individuais, ou nos desportos coletivos, decorre sempre de uma vontade enorme de solidariedade e não se confunde, por isso, com o individualismo que atravessa boa parte da modernidade. Por seu turno, “o Espírito Desportivo encerra em si mesmo um conjunto alargado de valores e princípios, que deverão ser assimilados e vivenciados. Trata-se de um conjunto de valores que têm a função de imprimir um sentido positivo à atividade desportiva e que, sem os quais, esta perde a sua finalidade primordial: contribuir para o desenvolvimento harmonioso e universal da pessoa humana” (Código de Ética Desportiva, PNED, Instituto Português do Desporto e da Juventude). Mas “agentes do desporto” não são unicamente os jogadores, os atletas, são-no também os dirigentes, os treinadores, os técnicos de saúde e o próprio público. Foi por isso, com justificada alegria, que li um texto de Vítor Serpa, encimado por estas palavras (“Benfica e FC Porto lideram revolução no futebol português”) donde avultava a passagem (de facto, verdadeira revolução) no nosso futebol, a passagem da desconfiança à solidariedade, levada a cabo por Jorge Nuno Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira. E assim “os dois presidentes, que estavam há muito tempo de relações cortadas, tiveram mesmo momentos de diálogo que não apenas levaram Luís Duque, para a presidência da Liga, como criaram condições para uma profícua discussão conjunta dos principais quadros das duas instituições, que terá culminado na garantia, dada pelos dois presidentes, de que Benfica e FC Porto não deixariam cair nenhuma das competições profissionais, incluindo a Taça da Liga, e se responsabilizariam pela solução das situações mais urgentes do futebol português” (A Bola, 2014/11/21).

Ao desejo de pose e de provocação, que explode nas palavras de alguns dirigentes e comentaristas, que se julgam, cuspinhando ódios e rancores, em defesa indispensável das suas cores clubistas - o Benfica e o FC Porto encontraram, no diálogo e na tolerância, a força para ultrapassar um momento difícil do futebol português. Os presidentes Filipe Vieira e Pinto da Costa ergueram o futebol, como modalidade desportiva, à altura das ideias que justificam o Desporto, como prática humanizante, que não exclui, antes supõe, o diálogo, o simbólico e o axiológico. Encontro em Fernando Guerra, n`A Bola, de 2014/11/22, um artigo que subscrevo inteiramente e de que faço uma pequena citação: “Finalmente, o futebol português decidiu entrar nos eixos. Não na sua qualidade técnica, mundialmente reconhecida, muito menos na dimensão dos talentos que tem exportado nos últimos vinte anos, nem tão-pouco na competência dos seus treinadores, muito solicitados além-fronteiras. O grande problema situa-se ao nível da organização, primeiro, e das mentalidades, depois, de todos os intervenientes, em geral, mas dos dirigentes, em especial (…)”. Por isso, Fernando Guerra salienta e aplaude o “esforço promovido conjuntamente por Benfica e FC Porto, que se deseja bem sucedido, de maneira a não perdermos o combóio que transporta os melhores campeonatos e, em consequência, os que suscitam mais interesse e geram mais receitas. O prazo de validade do tribalismo, entre emblemas, expirou. Rivalidades, sim, e fortes, mas sem jamais violarem os limites da tolerância”. Que pena que alguns “agentes do desporto” não saibam o que é para que serve o desporto! Que pena que estejam permanentemente em guerra, quando o desporto deve ser permanente construção de paz! Parafraseando Sartre, poderá dizer-se que o desportista é um ser condenado a fazer a Paz! Sem que tal signifique absentismo, comodismo ou falta de coragem. Até os mais significativos passos, em direção à maturidade científica do desporto se realizaram com investigações bem mais vastas do que simples discussões de cariz clubístico, ou das suas crispações absurdas.

E termino com parabéns muito sinceros e agradecidos aos atuais presidentes do Benfica e do FC Porto...

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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