DOMINGO, 23-04-2017, ANO 18, N.º 6294
Olimpismo
A Competição em Pierre de Coubertin (artigo de Gustavo Pires, 2)
17:43 - 14-10-2014
O presente ensaio tem por objetivo especular acerca da perspetiva competitiva de Pierre de Coubertin (1863-1937) que, em finais do século XIX, o levou a estabelecer um corte com os modelos gímnicos, ao tempo preponderantes, a fim de desencadear o desenvolvimento de um novo paradigma, o desportivo,[1] centrado nos valores da competição justa, nobre e leal, da tradição da Grécia antiga.

Os gregos antigos, como sabiam que, na sua ânsia de poder e de glória, os homens tinham necessidade de violência para se sentirem realizados, inventaram os Jogos e, deste modo, sem os custos trágicos da guerra, tornaram a paz gloriosa, através do prazer lúdico da violência controlada. E eles viajavam longas distâncias para consultarem os oráculos e ouvirem as previsões das musas, cassandras e pitonisas, a fim de ultrapassarem as dúvidas e anseios das suas vidas, mas também para participarem nos grandes festivais de destrezas, de lutas, de corridas, de récitas, de música e de dança que eram os Jogos, realizados em honra de Zeus, o rei dos deuses. À época, os Jogos eram o ponto nevrálgico da vida grega, num perfeito compromisso de emoções e de sentimentos entre o homem, a natureza e a sociedade. Se os exercícios e as competições preparavam o corpo para a luta guerreira, a música e a dança faziam parte dos rituais de batalha, e a deusa da alegria, do prazer e do divertimento, de seu nome Paidia, geria o clamor da diversão que, sob o comando de Ares, deus da guerra, podia ir até ao amargo sabor doce da violência selvagem cantada por Homero.

O instinto do jogo, como afirmou Pierre de Coubertin em 1901[2], traduz-se na “agitação inata da criança”. Quando a criança joga ela separa, liga, junta, constrói, brinca e disputa. E, segundo uma lei que lhe é intrínseca, ela prepara a vida. O instinto do jogo, na caminhada dos homens para a civilização, como diria Heraclito,[3] representa a metáfora da guerra nos seus instintos bélicos mais primitivos de luta pela sobrevivência que, hoje, as comunidades humanas procuraram sublimar através da competição desportiva organizada que, todos os quatro anos, encontra a sua expressão máxima à escala do Planeta, na celebração dos Jogos da Olimpíada. E Coubertin escreveu:

“O Olimpismo moderno … tal como o seu glorioso antepassado, prepara a juventude igualmente bem para as rudes batalhas sangrentas como para as rivalidades fecundas dos tempos de paz. O que ficará para a história será a súbita revelação das suas inúmeras e indomáveis forças. A transformação da Europa realizada entre 1870 e 1914, sob a influência da educação desportiva está escrita em letras de fogo.”[4]

A este respeito, Friedrich Nietzsche (1844-1900), o filósofo da energia vital, da vontade de poder e do super-homem, no texto datado de 1872 “A Competição em Homero,”[5] explica que os gregos antigos assediados pelo êxtase frenético das festas e do prazer de Dionísio, deus do vinho, mas controlados por Apolo, deus do rigor, da ordem e do futuro, através do exercício da violência controlada do polissémico conceito de agôn, organizavam os Jogos em busca da virtude da excelência que procuravam imprimir à sua vida pessoal e coletiva. Pierre de Coubertin, a partir de 1892, embora não o admita, propôs o regresso a esses valores.[6]

A dimensão agonística da sociedade grega procurava ultrapassar uma visão pessimista e decadente pela constante superação das tensões entre os homens, com o objetivo de proclamar a excelência humana na sua verdadeira beleza e glória, através da afirmação de uma perspetiva positiva da vida consubstanciada no jogo competitivo em busca da superação. Nietzsche expressa este sentimento do jogo da luta n’“A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos” quando afirma que “o mundo é o jogo de Zeus”.[7] Ao fazê-lo, atribuiu ao jogo uma dimensão ontológica num sentido eminentemente positivo da vida que sai reforçado ao afirmar que “não é a perversidade, mas o impulso do jogo sempre despertando de novo que chama outros mundos à vida”. Assim sendo, o jogo que caracteriza a cultura de competição da Grécia Antiga, no discurso de Nietzsche, tem a mesma dimensão semântica das palavras luta, combate, querela, disputa ou discórdia, de sinal positivo que encontramos no discurso de Pierre de Coubertin. E foi, certamente, entusiasmado com a descoberta do sítio de Olímpia realizada em 1881 pelo alemão Ernst Curtius (1814-1896)[8] que Pierre de Coubertin percebeu a necessidade de regressar ao passado competitivo grego estabelecendo um corte com as atividades físicas que, ao tempo, eram realizadas por motivos recreativos, de saúde, de preparação militar ou de apuramento da raça, à margem de uma competição organizada a uma escala multinacional com vocação, missão e objetivos de paz e de concórdia que Coubertin idealizou.

O virtuosismo de Coubertin foi o de ter sido capaz de ver primeiro que os seus contemporâneos que a dimensão competitiva do jogo desportivo e da própria vida não deviam estar condicionada às sequelas psicológicas da guerra sob pena de se perder aquilo que de mais útil o instinto de luta pela superação tem na afirmação positiva do homem. No capítulo “Le Retour à la Vie Grec” do livro “Essais de Psychologie Sportive” ele definiu quatro ideias fundamentais que caracterizavam a vida grega: A calma; a filosofia; a saúde; e o belo. A calma não era nem o imobilismo nem o repouso mas antes a capacidade para assumir ponderadamente as mais fortuitas circunstâncias da vida. A filosofia não procurava uma visão especulativa da vida mas antes uma virtude prática da vida quotidiana consubstanciada na “justa medida”. A saúde representava um bem essencial que eles procuravam através do exercício físico. Finalmente, o belo, procurava a harmonia estética num acordo equilibrado entre a arquitetura e o homem.

E voltamos a Nietzsche quando se socorre de Hesíodo (VIII-VII sec. aC) quando este, n’ “Os Trabalhos e os Dias”,[9] expressa a particularidade dual de Éris a deusa da discórdia e do conflito. No referido texto percebe-se como o génio grego pós-homérico conviveu bem e legitimou esse instinto magnífico que é o “agôn”, consubstanciado numa vida de luta na prossecução da vitória. Hesíodo defendia a importância da competitividade entre os homens, na medida em que só assim eles são estimulados a buscar a superação e a manifestar a excelência das suas obras. No entanto, para Hesíodo existem na Terra, não uma, mas duas deusas da discórdia, com personalidades completamente opostas. Uma delas é cruel, fomenta a má guerra e a discórdia, “nenhum mortal a deve tolerar” comenta o filósofo do super-homem. E continua, esta Éris que é a primogénita, deu à luz a negra noite, pelo que a ela se ficam a dever a inveja, o rancor e a cobiça, na medida em que conduz os homens a “lutas malignas de extermínio uns contra os outros”. O desporto moderno ao entregar-se ao deus Hermes corre o risco de passar a ser dominado por esta má Éris. A outra Éris, segundo Hesíodo, foi dada por Zeus aos homens. Ela conduz ao trabalho até o homem mais desajeitado. E, aquele que nada possui repara no outro que é virtuoso e apressa-se a fazer pela vida em busca do sucesso. O amigo rivaliza com o amigo que procura alcançar a fortuna.

Quanto mais nobre era um grego, tanto mais viva era a chama da ambição competitiva que dele irrompia. Conforme refere Werner Jaeger era na competição que se formava o verdadeiro espírito comunitário e o consequente orgulho que os cidadãos gregos tinham em serem membros da polis. O jovem grego quando competia na luta, na corrida ou nos lançamentos durante os Jogos, pensava na satisfação da sua cidade natal na medida em que era a glória desta que ele, através da sua, queria projetar. As coroas de louros que os juízes colocavam na cabeça dos grandes heróis olímpicos, estes, consagravam-nas aos deuses da sua cidade. E os hinos de Píndaro, na mais sentida religiosidade ou no mais profundo sentimento do eu humano, eram cantados por corais de jovens, por ocasião da celebração das vitórias dos campeões, em honra dos deuses.[10] Amas a predisposição para a competição não se circunscrevia apenas às atividades físicas. Ela projetava-se nos jogos, na política, nas artes, no trabalho, onde cada um procurava vencer os adversários à altura de si, de maneira a dar um eterno prosseguimento à vontade de competir.

Contudo, na busca do ideal de excelência, os gregos antigos procuravam evitar o excesso, o orgulho, a insolência, a violência desmedida, a que chamavam “hybris”. Quer dizer, se por um lado, procuravam superar a má Éris, representada pelos impulsos de aniquilamento e de morte, por outro lado, em honra da boa Éris, esforçavam-se para valorizar o comedimento próprio da excelência que integrava a visão que tinham do mundo. E assim, nas palavras de Nietzsche, “cada grego ilustre passava a outro o facho da competição porque cada grande virtude excitava uma nova grandeza.” Por isso, a competição não podia ser deixada ao sabor do imprevisto e do improviso porque, tendo em atenção os mais primários sentimentos da condição humana, ela desencadeia processos de violência primária a que Nietzsche chamou de “pré-homérica”, absolutamente dramáticos para a vida das pessoas, das regiões ou até dos países.

Assim sendo, quando Coubertin idealizou trazer para a modernidade os Jogos da Grécia antiga, tratava-se de encontrar a justa medida expressa no conceito de euritmia enquanto equilíbrio dinâmico expresso no citius, altius, fortius do equilíbrio competitivo da chamada pirâmide de Coubertin:
“Para que cem se dediquem à cultura física, cinquenta têm de praticar desporto; para que cinquenta pratiquem desporto, vinte têm de se especializar; para que vinte se especializem, é necessário que cinco se mostrem capazes de realizar proezas extraordinárias.”[11]

Em finais do século XIX (1892), de uma maneira geral, todos os movimentos de Educação Física (EF) eram animados por preocupações rácicas, patrióticas, militares, higiénicas e educativas. Por isso, o Movimento Olímpico (MO), enquanto nova filosofia de vida centrada nos valores da educação, da cultura e do desporto teve como objetivo mais profundo ultrapassar a enorme crise de degenerescência em que os Franceses se encontravam desde que o exército de Napoleão III (1808-1873) sofreu uma pesada derrota em Sedan (2 de setembro de 1870) infligida pelo exército prussiano. Contudo, como se pode verificar nas suas memórias,[12] Coubertin teve como preocupação atribuir ao novo MO uma dinâmica de paz, procurando sentar à mesa de conversações países beligerantes, convencendo-os implicitamente de que era possível transferir para os campos da luta competitiva do desporto as disputas políticas, ultrapassando as questiúnculas até então resolvidas por meios bélicos que, a partir da chamada “guerra de massas”, devido aos armamentos tecnologicamente mais sofisticados, passaram a provocar, entre os países beligerantes, perdas insuportáveis em vidas e bens.

Ao anunciar a necessidade de serem restabelecidos os Jogos Olímpicos (JO) da Grécia antiga no dia 25 de novembro de 1892, numa conferência que se realizou na Sorbonne no âmbito das comemorações do quinto aniversário da Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques (USFSA), Coubertin, fê-lo com o máximo cuidado, a fim de não criar uma reação imediata dos prosélitos das diversas escolas de ginástica que se desenvolviam não só em França como por toda a Europa. Não foi uma tarefa fácil. Os arquétipos da EF tradicional estavam e, em muitas circunstâncias, ainda estão no espírito de um grande número de pessoas. Por isso, Coubertin iniciou o seu discurso ao Congresso com cuidados reforçados, começando por dizer que a cultura contemporânea estava “impregnada de helenismo”. Depois, cuidadosamente, contrariando os discursos que à época corriam a partir dos prosélitos das escolas de EF contra o desporto, afirmou que o desporto era uma atividade educativa e harmoniosa que tornava a sociedade melhor. E continuou com a seguinte exortação: “… exportemos os remadores, os corredores, os esgrimistas: eis o futuro da liberdade de troca que será introduzida nos costumes da Europa e a causa da paz receberá um novo e possante apoio”. Finalmente, fez passar a ideia de que o MO visava tão só promover a “renovação muscular em França” e melhorar aquilo que já era a prática da EF. [13]
Em consequência, o anúncio da institucionalização dos JO da era moderna foi recebido com entusiasmo, contudo, os presentes estavam convencidos de que se tratava tão-só de mais um meio de EF até porque, Georges Saint-Clair, um dos fundadores da USFSA e uma das figuras de proa da conferência, no discurso que proferiu, havia proclamou as virtudes da EF e dos seus métodos de ensino desenvolvidos pela nova escola francesa que, para além dos cuidados relativos à higiene, promovia a formação do caráter dos alunos. Claro que o discurso de Saint-Clair, redondo de forma, vazio de substância e falho de objetivos concretos relativamente ao projeto de Coubertin, descansou os congressistas quanto à circunstância de tudo continuar a decorrer como dantes.

Todavia, o anúncio de Coubertin consubstanciava uma mudança radical de paradigma na medida em que o desenvolvimento do MO moderno, para além da dimensão cartesiana dos movimentos gímnicos da época, encontrava a sua essência na própria natureza competitiva da condição humana de conteúdo biológico que se exprime através da luta pela superação. Em consequência, dinâmica olímpica do desporto desencadeada por Coubertin provocou uma mudança radical em todo o sistema de atividades físicas que, à época, para a generalidade dos praticantes, eram vividas fundamentalmente por motivos recreativos.

Coubertin foi um pedagogo, até porque obteve formação universitária em pedagogia, contudo, bem vistas as coisas, ele nunca teve da pedagogia uma prática pedagógica que lhe granjeasse prestígio, nem a pedagogia foi o seu instrumento privilegiado de ação a fim de instituir o MO moderno. Quer dizer, não foi com pedagogia que ele resolveu as questões económicas, sociais e políticas que se levantavam ao desenvolvimento dos JO da era moderna e à institucionalização do Comité Olímpico Internacional (COI). Na realidade, se bem observarmos, a ação de Coubertin teve muito mais a ver com toda uma dinâmica organizacional nos domínios da antropologia, da história, da psicologia, da sociologia, da gestão e da política do que propriamente nos domínios da pedagogia que, pela experiência colhida junto das escolas pública inglesas, foi tão-só a precursora de tudo aquilo que ia acontecer. O que se constata é que, para Coubertin, desde a organização dos Jogos de Atenas em 1896, até ao último combate da sua vida, que foi a defesa da realização dos Jogos de Berlim em 1936, para além do bem e do mal, nunca o desporto foi uma atividade assética longe dos problemas do mundo e da política que rege as relações humanas.

A estratégia relativa à institucionalização dos JO da era moderna utilizada por Coubertin, como ele próprio refere nas suas memórias, passava pela utilização dos mais diversos subterfúgios que incluíam o fazer-se desentendido. Nesta perspetiva, em janeiro de 1894, divulgou uma carta por todo o mundo em que anunciava a realização de um Congresso Internacional cuja ordem de trabalhos seria a discussão acerca das questões relativas ao amadorismo e aos critérios de elegibilidade dos atletas que era uma das questões que mais preocupava os prosélitos do desporto. Contudo, de uma forma discreta, no final da carta, também anunciava o propósito de instituir a realização dos JO o seu principal objetivo. Assim, dos dez pontos da ordem de trabalhos só os três últimos tratavam das questões relativas aos JO: VIII – Possibilidade do seu restabelecimento; IX – Condições a impor aos concorrentes; X – Nomeação de um Comité Internacional encarregado de os estabelecer.[14]

O 1º Congresso Olímpico acabou por funcionar com duas comissões: uma para as questões relativas aos amadores e outra para as questões relativas aos JO. Das conclusões relativas à organização do JO ficou decidido:

• Que nenhumas dúvidas deviam existir quanto aos benefícios do renascimento dos JO;
• Com exceção da esgrima, em todas as provas, só podiam participar atletas amadores;
• Um Comité Internacional seria o responsável pela organização dos JO e da definição das regras;
• Nenhum país tinha o direito de ser representado senão pelos seus nacionais;
• Desportos: desportos atléticos propriamente ditos (corridas e concursos; desporto náuticos; Jogos atléticos (futebol, ténis, paume, etc.); patinagem; esgrima, boxe, luta; Desportos hípicos, polo; velocipedia; pentatlo; alpinismo.
• Os primeiros jogos realizar-se-iam em Atenas em 1896. [15]

E no banquete do Congresso, perante as mais altas individualidades do mundo da EF, Coubertin teve a oportunidade de dizer:

“Neste ano de 1894, foi-nos possível reunir nesta grande cidade de Paris, (...) os representantes de atletismo internacional que, por unanimidade, uma vez que a princípio é incontroverso, votaram o retorno de uma ideia com dois mil anos que, como outrora, agita os corações dos homens pois ela satisfaz um dos instintos mais vitais e, para além de tudo o que possa ser dito, dos mais nobres. E estes mesmos delegados, no templo da ciência, aceitaram ouvir uma melodia antiga de dois mil anos, reconstruída por uma sábia arqueologia feita pelos trabalhos sucessivos de muitas gerações. E à noite a eletricidade transmitiu a notícia de que o Olimpismo helénico entrou novamente no mundo depois de um eclipse de vários séculos.”[16]

A questão da competição formal organizada à escala do Planeta que era verdadeiramente o sonho de Coubertin ficou à margem do Congresso. Apesar de tudo, embora quase despercebido, do ponto de vista ideológico, um dos aspetos portadores de futuro que ficou a marcar o Congresso foi o lema olímpico proclamado por Michel Bréal (1832-1915)[17] que terminou o seu discurso proferindo a divisa atlética formulada pelo Frade Didon e que, segundo o “Bulletin du Comité International des Jeux Olympiques”, foi adotada pelo Congresso: citius, fortius, altius.[18] Todavia, a divisa, praticamente, só voltou a ser utilizada nos anos vinte, no frontispício da Carta Olímpica (CO) de 1921 sem qualquer referência no articulado do texto. Finalmente, na CO de 1933, pela primeira vez, apareceu vertida no articulado a divisa do COI (citius, altius, fortius) o que significa que toda a ideia que, de alguma maneira, valorizasse a dinâmica da competição e os seus valores, tal como, em muitas circunstâncias, ainda acontece, passava pelas maiores dificuldades.

Hoje, é possível compreender que a estratégia de “soft power” utilizada por Coubertin através de uma abordagem indireta revelou ser a mais apropriada para a institucionalização do MO à escala planetária. À exceção de um artigo de 1911,[19] de uma maneira geral, Coubertin evitou afrontar diretamente os prosélitos da EF.[20] Ao longo dos milhares de textos que escreveu, raramente utilizou a expressão “educação física”.[21] E porque? Porque ele sabia bem o que queria. Para além de uma significativa experiência administrativa, adquirida nos corpos de direção de várias agremiações desportivas, ele também tinha uma boa experiência no domínio do combate ideológico na medida em que, nos últimos anos do século XIX, travou combates importantíssimos contra Paschal Grousset (1844-1909), um esquerdista da Comuna de Paris com quem Coubertin recusava ter relações pessoais e Philipe Tissié (1852-1935), um médico “suecofílico” que viria a ser um dos fundadores da Federação Internacional de Educação Física (FIEP) com quem cortou definitivamente relações institucionais a partir dos acontecimentos relativos ao Congresso Olímpico do Havre realizado em 1897.

Quando em 1889, Coubertin desencadeou um processo para unir o “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques” com a “Union des Sociétés Françaises de Course a Pied”, organizações desportivas a que estava ligado, a fim de fundar a USFSA, o seu interesse estava em criar uma superestrutura que permitisse à generalidade das agremiações desportivas libertarem-se dos pedagogismos anti competição e das perspetivas higiénicas da EF que, no espírito das pessoas, era tida como uma superestrutura ideológica virtual à qual as atividades físicas de caráter eminentemente desportivo se tinham de submeter. Só assim foi possível desencadear uma rutura que permitiu criar as condições para, em 1894, desencadear a fundação do “Comité International des Jeux Olympiques” e, em 1896, a realização dos Jogos da 1ª Olimpíada da era moderna na cidade de Atenas, condições “sine qua non” para o desenvolvimento do desporto moderno. Para Coubertin os JO simbolizavam a busca da superação e da excelência que devia caracterizar a cultura de competição do MO que ele não via desenvolver na EF, antes pelo contrário.

O discurso de Coubertin apresenta inúmeros pontos de contacto e similitude com o agôn de Nietzsche na “Competição em Homero”, quando este explica que os gregos antigos, para que a competição não tivesse limites, regulamentavam-na. Ora, para os prosélitos da EF a competição, para além da que decorria de uns jogos informais, atentava contra as boas práticas pedagógicas pelo que, a todo o custo, era necessário evitar que os alunos fossem submetidos aos confrontos (im)próprios da competição desportiva. Sem necessidade, porque, para Nietzsche, que consideramos ter sido um dos ideólogos ocultos de Coubertin, os gregos antigos, no sentido de renovarem constantemente o círculo do agôn, não eram favoráveis à hegemonia por um grande período de tempo de um vencedor sobre os demais concorrentes. Tal situação retiraria aos vencidos a vontade para uma nova disputa. Esta tendência agónica é representada através da estória do corajoso Hermodoro que acabou banido e votado ao ostracismo pelos efésios pelo facto de, num ato de heroicidade, superar todos os seus companheiros de batalha, desrespeitando a tática bélica do seu exército: “entre nós, ninguém deve ser melhor, se alguém no entanto, o for, que o seja noutro lado e entre outra gente.” E qual a razão para que ninguém pudesse ser o melhor? Porque, se tal ocorresse, a competição esmoreceria e, desta maneira, ficaria ameaçada a razão do Estado helénico. E Nietzsche a este propósito afirma que “tal é o cerne da ideia de agôn, que detesta o despotismo e teme os seus perigos, gerando como meio de proteção contra o génio, precisamente – um segundo génio.”[22] Ora, esta peça do discurso de Nietzsche ajusta-se perfeitamente ao pensamento de Coubertin que tinha do espírito competitivo inerente ao desporto um sentimento profundamente democrático. Para Coubertin, aqueles que não se sujeitavam às regras da competição, que podia ser política ou desportiva, deviam ser ostracizados.[23] Portanto, mais do que uma qualquer ética de “fair play” decorrente da defesa de um estatuto competitivo através de uma posição irredutível contra o profissionalismo, tratava-se de uma ética de conflito que rejeitava a frase de carácter higiénico “mens sana in corpore sano” do poeta romano Juvenal para abraçar uma nova ideia de caráter eminentemente desportivo, por ele concebida, “mens fervida in corpore lacertoso”, quer dizer, “um espírito ardente num corpo treinado” que decorria do lema olímpico “citius, altius, fortius”.[24]

Para além da EF, O Olimpismo, através do desporto, promove, por via da educação, uma cultura competitiva, mas não uma qualquer competição, na medida em que o deve fazer no respeito pelos seus princípios e valores. Assim sendo, não é toda e qualquer competição que pode interessar ao MO. Hoje, de acordo com o segundo princípio da Carta Olímpica, o objetivo do Olimpismo é:

“… colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso da pessoa humana tendo em vista promover uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade humana.”
Quer dizer, a dinâmica da competição não pode ultrapassar os limites da dignidade humana. Ora, esta perspetiva desencadeada por Coubertin significava uma radical mudança de paradigma relativamente às escolas de EF e ginástica que estavam fechadas em si, numa visão limitada e egoísta do mundo.

Em conclusão, diremos que ver longe e com amplitude foi, certamente, uma das melhores capacidades de Coubertin. Por isso, ele, ao longo dos seus escritos, revelou um extraordinário sentido de oportunidade e inovação, capaz de perceber que o paradigma da EF, que se esgotava na higiene, no racismo e num certo hedonismo pedagógico gratuito dos jogos recreativos sem verdadeiras consequências ao nível do desenvolvimento humano, estava esgotado. Em consequência, ele foi buscar à agonística grega o sentimento da competição, associando-o a todo um conjunto de divisas pedagógicas, culturais e desenvolvimentistas, a partir de metáforas, signos, símbolos e emblemas que mais facilmente podiam fazer passar as suas ideias a fim de organizar os JO da era moderna.

O grande êxito de Coubertin foi o de ter desencadeado um dos projetos sociais de maior sucesso à escala do Planeta, quer dizer, a institucionalização dos JO da era moderna. A nossa convicção é que tal só foi possível porque Coubertin, embora que se saiba nunca o tivesse admitido, enquanto helenista que era, foi certamente buscar a Friedrich Nietzsche, também ele helenista de grande prestígio, a dinâmica educativa e de promoção social do agôn dos gregos antigos. Ao fazê-lo, centrado nos valores da competição e no “super-homem” presentes no pensamento de Nietzsche, provocou uma rutura na dinâmica social em curso protagonizada pelas escolas de EF e desencadeou um novo paradigma que, no quadro da amizade, do respeito mútuo e da paz entre os povos, através da educação e de uma cultura de superação e de excelência, teve como objetivo promover o surgimento de um homem novo simbolizado no super-desportista: “para que cem se dediquem à cultura física … é necessário que cinco se mostrem capazes de realizar proezas extraordinárias”.

Não foi fácil porque, ao tempo de Coubertin, a cultura de liderança tinha como exemplo máximo militares como Napoleão (1769-1821) ou Bismarck (1815-1898) que afirmavam o seu poder enquanto líderes pela força da sua vontade porque tinham meios para a fazerem vingar. Contudo, Coubertin geriu o COI durante trinta anos através de uma liderança sustentada no valor das suas ideias, no prestígio do seu conhecimento e no exemplo do seu comportamento profundamente democrático. Tal só foi possível porque, do ponto de vista político, ele foi capaz de, através de uma gestão inteligente de recursos humanos pouco preparados e meios operacionais de enorme escassez, num estilo “soft power” de liderança mas com um forte sentido pragmático, trazer para a era moderna os valores da competição e, à escala do Planeta, desencadear uma versão moderna dos Jogos Olímpicos da antiguidade grega.

Mas, a grande lição que Pierre de Coubertin nos deixou é a de que o sucesso dos projetos, quer eles sejam desenvolvidos por pequenas organizações ou países, depende das qualidades humanas dos líderes no que diz respeito à sua honorabilidade e capacidade de prospetivarem o futuro para além deles próprios.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

-----------------------------------------------------------

Notas
[1] No conceito de Ortega y Gasset desenvolvido no texto “Origem Desportiva do Estado. Cf. Gasset, Ortega y (1985). El Origen Deportivo del Estado. Marid: Grefol, p9 965-994.

[2] Cf. Coubertin, Pierre (1986). La Psychologie du Sport. In: Textes Choisis, Tome I, Müller, Norbert (ed.). Zurich, Hildesheim, New York, p. 221. (In: Notes sur l`Education Publique. Paris, Libr. Hachette, 1901, pp. 152-173 (chap. X). “Cet instinct sportif, dont je parlais tout à l`heure, ne sommeille pas en chacun de nous pour s`éveiller au premier appel. Peut-être même est-il impossible de le faire naître là où il n`existe pas en germe. Gardez-vous de le considérer comme une prolongation de ce besoin de remuer, de cette tendance à se dépenser qui sont innés chez l`enfant.”

[3] Heraclito (535 aC-475 aC) há mais de dois mil e quinhentos anos afirmou “de todos a guerra é pai, de todos é rei; de uns faz deuses, de outros homens; de uns faz escravos, de outros homens livres.” Cf. Heraclito (2005). Fragmentos Contextualizados. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

[4] Cf. Coubertin, Pierre (1986). Les Étapes de l`Olympisme: Le Nouvel Échelon. In: Textes Choisis, Tome III, Müller, Norbert (ed.). Zurich, Hildesheim, New York, p. 395. (In: Almanach olympique pour 1919. Lausanne [1918], pp. 1-3. “L`olympisme moderne ... comme son glorieux ancêtre préparait la jeunesse aussi bien aux rudes contacts des batailles sanglantes qu`aux fécondes rivalités du temps de paix. Ce qui fera l`admiration de l`histoire, ce sera la soudaine révélation de ces forces individuelles innombrables et indomptables. La transformation de l`Europe accomplie entre 1870 et 1914 sous l`influence de l`éducation sportive s`est inscrite là en lettres de feu.”

[5] Cf. Nietzsche, Friedrich (2003). A Competição em Homero. In: A Competição em Nietzsche, Introdução, tradução e notas de Rafael Gomes Filipe. Lisboa: Veja, coleção Passagens. Este texto de Nietzsche pode ainda ser encontrado em: Nietzsche, Friedrich (s/d). Cinco Prefácios para Cinco Livros Não Escritos. Rio de Janeiro, Editora 7 Letras. (2ª Edição).

[6] Cf. Coubertin, Pierre (1986). Le Congrès de la Sorbonne. Textes Choisis, Tome II. Müller, Norbert (ed.). Zurich, Hildesheim, New York, p. 114. (Une Campagne de vingt-et-un ans (1887-1908). Paris 1909, pp. 89-98, chap. X).

[7] Cf. Nietzsche, Friedrich (1987). A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos. Lisboa, Edições 70, pp. 46-51

[8] Ernst Curtius (1814-1896) foi um historiador, arqueólogo e professor alemão. Foi professor na Universidade de Berlim e diretor do Museu de Antiguidades, na mesma cidade. A sua principal obra é uma história em três volumes da Grécia. A ele ficam a dever-se as escavações que deram com o sítio de Olímpia, onde os gregos antigos realizavam os Jogos Olímpicos. http://archaeology.about.com/od/archaeologicalsite1/a/olympia.htm (Consultado em: 23-02-2011).

[9] Cf. Hesíodo (2005). Teogonia Trabalhos e Dias. Lisboa: Imprensa nacional Casa da Moeda.

[10] Jaeger, Werner ( 2003). Paidéia - a Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, pp. 141, 253. 1ª ed. 1936.

[11] “Pour que cent se livrent à la culture physique, il faut que cinquante fassent du sport. Pour que cinquante fassent du sport, il faut que vingt se spécialisent. Pour que vingt se spécialisent, il faut que cinq soient capables de prouesses étonnantes.” Cf. Coubertin, Pierre de (1986). Une campagne contre l`athlète spécialisé. In: Textes Choisis, Tome III. Müller, Norbert (ed.). Zurich, Hildesheim, New York, p. 590. (Revue Olympique, juillet 1913, pp. 114-115).

[12] Cf. Coubertin, Pierre (1996). Mémoires Olympiques, Paris, Editions Revue “EPS”. 1ª ed. 1931.

[13] “Exportons des rameurs, des coureurs, des escrimeurs: voilà le libre échange de l’avenir et, le jour où il sera introduit dans les moeurs de la vieille Europe, la cause de la paix aura reçu un nouvel et puissant appui.” Cf. Coubertin, Pierre de (1986). Le Congrès de la Sorbonne. In: Textes Choisis, Tome III. Müller, Norbert (ed.). Zurich, Hildesheim, New York, p. 114. (Une Campagne de vingt-et-un ans (1887-1908).Paris 1909, pp. 89-98 (chap. X).
http://www.la84foundation.org/OlympicInformationCenter/RevueOlympique/1974/orf85/orf85u.pdf (Consultado em 06-10-2000).

[14] Cf. Bulletin du Comité International des Jeux Olympiques, n 1, p.2.

[15] Cf. Bulletin du Comité International des Jeux Olympiques, n 1, p.4.

[16] “En cette année 1894, il nous a été donné de réunir dans cette grande ville de Paris, (…) les représentants de l`athlétisme international et ceux-ci, unanimement, tant le principe en est peu controversé, ont voté la restitution d`une idée, vieille de deux mille ans, qui, aujourd`hui comme jadis, agite le coeur des hommes dont elle satisfait l`un des instincts les plus vitaux et, quoi qu`on en ait dit, les plus nobles. Ces mêmes délégués ont, dans le temple de la science, entendu retentir à leurs oreilles une mélodie vieille de 2 000 ans, reconstituée par une savante archéologie faite des labeurs successifs de plusieurs générations. Et le soir, l`électricité a transmis partout la nouvelle que l`olympisme hellénique était rentré dans le monde après une éclipse de plusieurs siècles.” Cf. Bulletin du Comité International des Jeux Olympiques, n.1, p. 3.

[17] Michel Bréal (1832-1915) foi quem propôs a Coubertin a institucionalização da corrida da maratona no Programa dos JO.

[18] Posteriormente, a ordem das palavras da divisa viria a ser alterada para a que hoje é conhecida. Cf. Bulletin du Comité International des Jeux Olympiques, n 1, p.3. Não se tratou de um engano de Bréal. Coubertin num texto de 1894 também utiliza a mesma sequência. Cf. Coubertin, Pierre (1986). Le bilan du congrès de Caen. In: Textes Choisis, Tome III, Müller, Norbert (ed.). Zurich, Hildesheim, New York, p. 385. (Les Sports Athlétiques, 5` année, 25 août 1894, n° 230, pp. 752-753). Segundo Norbert Müller não se conhecem das razões desta troca.

[19] Coubertin publicou no número 67 da Revue Jeux Olympiques saído em julho de 1911 um texto intitulado “mens fervida in corpore lacertoso” que estabelecia uma rutura com a velha máxima de Juvenal – mens sana in corpore sano –, adotada pelos arautos da EF higienista e da supremacia da raça.

[20] Entre as excepções cona-se Georges Hébert que, em 1925, escreveu um livro intitulado “Le sport Contre L’Education Physiquye”.

[21] Como se pode verificar nos três volumes dos “Textes Choisis” com edição coordenada por Norbert Müller e editada pela Hildesheim.

[22] Cf. Nietzsche, Friedrich (2003). A Competição em Homero. In: A Competição em Nietzsche, Introdução, tradução e notas de Rafael Gomes Filipe. Lisboa: Veja, pp. 44-45.

[23] Cf. Coubertin, Pierre (1986). La Question de L’Amateurisme. In: Textes Choisis, Tome II, Müller, Norbert (ed.). Zurich, Hildesheim, New York, pp. 544-590. De entre os vários textos Coubertin trata da questão relativa a Jim Thorpe.

[24] Coubertin, Pierre (1986). Mens Fervida in Corpore lacertoso. In: Textes Choisis, Tome II, Müller, Norbert (ed.). Zurich, Hildesheim, New York, pp. 603-604 (Revue Olympique, juillet 1911, pp. 99-100).
Gustavo Pires

comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de OLIMPISMO

Olimpismo Com a aproximação do ato eleitoral da Academia Olímpica de Portugal agendado para o próximo dia 21 de Abril, deixamos aqui, para memória futura, como nasceu a Academia Olímpica Portuguesa (de Portugal). Criada em 4 de Dezembro de 1986, esteve em pre
Olimpismo O recentemente eleito presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), numa eleição olimpicamente contranatura em que, enquanto candidato único, competiu contra si próprio que é a maneira menos olímpica de competir, utilizando um critério de avaliaçã

destaques