SEXTA-FEIRA, 21-07-2017, ANO 18, N.º 6383
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Eduardo Monteiro: perfil de um dirigente! (artigo de Manuel Sérgio, 48)
22:14 - 03-10-2014
Manuel Sérgio
Nasci e fui criado numa família pobre, católica, apostólica, romana e com um pai, primeiro cabo da GNR e adepto fervoroso do Belenenses. As amigas de minha mãe salivavam pai-nossos e avé-marias, na igreja paroquial da Ajuda, que eu frequentava, quase diariamente, para salvação da minha alma.

Os amigos do meu pai eram salazaristas e belenenses. Portanto, o Doutor Salazar, o Cardeal Cerejeira, o prior da Ajuda e os jogadores do Belenenses eram, no meu cérebro de criança, as pessoas mais importantes do nosso Portugalzinho de então: obediente, conservador e temente a Deus.

A importância do dirigente desportivo não era tema que me interessasse sobremaneira. Para mim, dirigente havia um - o Salazar e mais nenhum! Nesse tempo, eu poderia fazer minhas as palavras de Santo Anselmo: “Não procuro compreender para acreditar, mas acredito para procurar compreender”. Só vinte anos mais tarde, em convívio fraterno com o Acácio Rosa, eu entendi a necessidade imperiosa do dirigente, como líder experiente, como presença unificadora de um ideal, como pensamento diligentemente interrogador e de uma exemplaridade admirável na sua vida desportiva.

Tudo o que o “velho Acácio” foi, tudo o que (sobre este assunto) aprendi com ele, tudo o que passei a exigir a um dirigente desportivo! Por isso, ao saber que se aproximam as eleições à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) e que o dr. Eduardo Augusto Pires de Vilar Monteiro, licenciado em Desporto, mestre em Gestão do Desporto, é um dos candidatos – enfrento com alguma coragem os discordes, mas não escondo que o Eduardo Monteiro é, para mim, o candidato ideal para suceder ao atual presidente Mário Saldanha. Pela sua constante afirmação de entusiástico amor ao desporto em geral e ao basquetebol em particular; pela informação que procura sem cansaço e pelo seu “currículum vitae” inigualável – a sua presença na FPB será um sinal seguro, um poderoso estímulo às transformações inadiáveis de que o nosso basquetebol precisa e deseja.

Não é fácil esboçar o perfil do Eduardo Monteiro, pela extensão do seu currículo e pela extrema variedade das funções que já exerceu e ainda pela invulgar sobreposição dos traços que o caracterizam. Sempre como jogador de basquetebol: foi internacional universitário e federado; jogou 5 épocas na equipa senior do Belenenses e 2 na equipa senior da Associação Académica de Coimbra. Como treinador de basquetebol, liderou as equipas de iniciados, juvenis e juniores, no Benfica e no Belenenses; orientou as equipas seniores feminina e masculina do Benfica e coordenou a “Escola de Basquetebol” do Belenenses. Selecionou e treinou equipas nacionais de juniores, esperanças e seniores e lecionou e foi diretor, em vários cursos de treinadores. Colaborou no jornal do Belenenses, dirigiu as revistas “Basket” e “Açoresports” e ainda o Seminário “Desporto e Comunicação Social”, nos Açores, em 1987. Presidente, nomeado pelo ministro da Educação, do Curso de Auditores da Informação Desportiva (Lisboa-1990).

Exerceu os seguintes cargos, no âmbito da Administração Pública: coordenador nacional do Plano de Desenvolvimento de Basquetebol, na Direção-Geral dos Desportos; diretor regional da Educação Física e Desportos da Região Autónoma dos Açores (1982-1989); adjunto do ministro da Educação (o Doutor Roberto Carneiro) para a Educação Física e Desportos; vice-presidente do Instituto do Desporto e diretor do Estádio 1º de Maio (Inatel). Desempenhou ainda funções inúmeras e relevantes, no Movimento Olímpico. Escrevi eu acima que “não é fácil esboçar o perfil de Eduardo Monteiro”. Mas não só pelo número e diversidade de cargos que assumiu, mas também pela força íntima e pela informação atualizada que põe em tudo o que faz. Por isso, em todos os domínios onde trabalhou, a sua atividade foi inconfundível, fecundíssima, sempre marcada por uma ética e uma competência indesmentíveis.
Além do que venho de salientar (porque muito mais havia para escrever) será de relevar também a sua tónica presença, pela simpatia contagiante de uma grande simplicidade convivencial. Depois dos 6 mandatos de Mário Saldanha (os últimos vítimas de uma rotina entediante, que empurrou o basquetebol português a um evidente subdesenvolvimento) – depois dos 6 mandatos de Mário Saldanha, ninguém melhor do que Eduardo Monteiro, para a revolução científica e a prática transformadora de que o nosso basquetebol anda carente, incluindo aqui uma união mais sólida entre todos os amantes e estudiosos do basquetebol. Entre nós, no pensar de Eduardo Monteiro, “as associações de basquetebol e as associações profissionais são muito passivas, porque têm sido pouco chamadas a participar. No nosso país, não existe uma cultura de participação. É necessário alterar o sistema e as novas tecnologias de comunicação são hoje muito propícias à participação das pessoas. Estou convencido que serei capaz de liderar um projeto para o basquetebol, sustentado na mobilização e participação de todos os agentes da modalidade”. E insiste de olhar húmido, embaciado de emoção: “Com a colaboração de todos os agentes do basquetebol, estou empenhado em construir uma alternativa que volte a colocar a modalidade, no patamar de notoriedade e de desenvolvimento a que está obrigada e a que tem direito”.

Assim como não se pode imaginar o desporto português dos últimos 25 anos, sem as marcas que lhe imprimiu o Ministro Roberto Carneiro (que teve, como muito próximos colaboradores, Eduardo Monteiro e Gustavo Pires) dir-se-á o mesmo do Eduardo Monteiro e da sua equipa diretiva, daqui a alguns (poucos) anos, se eles, modelos e espelhos de desportistas autênticos, assumirem funções que possam dar ao basquetebol nacional firme, fecunda e vigorosa segurança.

Conheço, há 50 anos, o dr. Eduardo Monteiro: conheci-o, em primeiro lugar, como jogador e treinador, de basquetebol, do Belenenses e ainda como colaborador do jornal deste querido clube, de que era eu o diretor. Acompanhei-o depois, de longe, tão-só como seu admirador e amigo, em muitos dos cargos que ocupou. Pela sua experiência e lucidez e ética, posso afirmar, sem receio de erro, ele poderá ser o presidente de que precisa, neste momento difícil da sua existência, a Federação Portuguesa de Basquetebol. A veemência renovadora do Eduardo Monteiro, mais uma vez, triunfará. Termino, afirmando que, neste artigo, não quero esquecer o muito que Mário Saldanha deu ao basquetebol português, em ciência e consciência. Reafirmo, no entanto, salvo melhor opinião, que esta é a hora de Eduardo Monteiro...

NOTÍCIAS RELACIONADAS

comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de ÉTICA NO DESPORTO

Ética no Desporto No magistério crítico que o Padre Manuel Antunes, durante longos anos exerceu na vida intelectual portuguesa, as suas aulas de História da Cultura Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foram talvez as que mais fama lhe granjear
Ética no Desporto O texto «Pistas diferentes, a mesma meta», de Ana Carolina Ferreira Sequeira (Escola Secundária da Maia), é o 3.º classificado da 5.ª edição do Concurso Literário ‘Ética na Vida e no Desporto’, promovido pelo Instituto Português do Desporto e Juventu

destaques