DOMINGO, 23-04-2017, ANO 18, N.º 6294
Futebol
«Ver longe... Ser Competente... Organizar o Futuro...» (artigo de Gustavo Pires, 1)
18:53 - 29-09-2014
O País entrou em estado de choque com a inesperada derrota da Seleção Nacional de futebol perante a congénere da Albânia uma equipa que, em termos teóricos, os estrategas do futebol consideravam não ter condições para vencer a equipa portuguesa. E não foi para menos na medida em que, para além dos estafados sentimentos de autoestima e das grotescas manifestações de amor à bandeira pátria, o que é facto é que, a participação da equipa nacional de futebol nas fases finais do CE e do CM representa não só a sobrevivência económica da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) bem como o sustento de muitas famílias que, nas mais diversas áreas sociais, quer direta, quer indiretamente, vivem à volta da economia do futebol.

Mas, se o País entrou em estado de choque, a FPF caiu numa situação de vazio de propósitos por duas ordens de razões. Em primeiro lugar, porque os seus dirigentes não foram capazes de esclarecer porque é que uma simples derrota por um a zero, no primeiro jogo de um campeonato cujo objetivo mínimo está garantido, desencadeou o despedimento do Selecionador Nacional quando, ainda há cerca de um mês, os mesmos dirigentes lhe manifestaram toda a confiança. Em segundo lugar, é incompreensível que o afastamento de Paulo Bento não tenha sido imediatamente acompanhado pelo anúncio de um sucessor que, aos olhos dos portugueses, desse as mínimas garantias de sucesso da Seleção Nacional.

Tenho para mim que, salvo honrosas exceções, o desporto nacional tem vivido sistematicamente sob a ditadura do curto prazo sem que os responsáveis pelas mais diversas instituições públicas e privadas sejam capazes de alterar esta trágica característica cultural que, infelizmente, representa uma triste maneira de ser português que desprestigia o País. Por isso, seria bom que se entendesse que o problema da substituição do Selecionador Nacional de futebol não se trata de uma simples troca de nomes. Tudo seria muito fácil se só se tratasse disso. O problema é bem mais difícil de resolver na medida que não faz qualquer sentido tratá-lo isoladamente. Quer dizer que, no espaço, no tempo e nas circunstâncias políticas, económicas e sociais, a substituição do Selecionador Nacional está rodeada por um conjunto de outros problemas cuja complexidade, no emaranhado da sua teia, dificulta todo e qualquer processo de tomada de decisão.
Repare-se que, se a solução fosse tão simples quanto é a de substituir um nome por outro, em que, de acordo com a práxis portuguesa, geralmente, o único critério de escolha se resume à simpatia que o nome escolhido merece àqueles a quem compete a decisão, bastava eleger o nome do treinador que tivesse a melhor imagem pública e a imprensa mais favorável. O problema é que, não se trata de escolher beltrano ou sicrano, um português ou um estrangeiro, nem de encontrar um nome providencial que mereça o apoio das forças que, formal e informalmente, gerem o futebol nacional. Se assim fosse, a única coisa que os responsáveis da FPF tinham de fazer era seguirem a opinião dos especialistas de marketing. Contudo, também a este respeito, temos de alertar para o facto da questão do Selecionador Nacional não se resolver com mais ou menos marketing consubstanciado numa eficaz política de comunicação externa da FPF.

O problema é que, de Fernando Gomes a Fernando Santos ou outro qualquer, passando pelo mais simples apaniguado da bola, sem esquecer as entidades político-administrativas públicas e privadas que gerem o desporto nacional, não acreditamos que exista alguém que, só por si, de uma forma global e integrada, seja capaz de equacionar todos os problemas do futebol nacional e sugerir as soluções necessárias a fim de os resolver. Quer dizer, a questão do futebol nacional não é um assunto que possa ser resolvido de imediato, no prazo de quinze dias ou um mês, por um qualquer especialista que, em regime de circuito fechado, acaba por se limitar a ter uma visão insuficiente e distorcida da realidade. Porque, ultrapassar a dramática situação em que o futebol nacional se encontra, não se trata de esgrimir um conjunto de ideias mais ou menos desgarradas a fim de apurar qual delas obtém maior impacto social e político.

Ultrapassar a situação em que o futebol nacional se encontra começa por ser uma questão de método de planeamento que, na sua orgânica e no seu processo, no espaço, no tempo e nas circunstâncias, seja capaz de integrar os mais diversos especialistas com os conhecimentos específicos necessários ao processo de organização do futuro desejado que terá sempre de ser partilhado com o País sob pena de, se não o for, não acontecer futuro nenhum.

Em conformidade, em primeiro lugar, do ponto de vista interno e externo e tendo em atenção os níveis de decisão estratégica, tática e operacional, trata-se de:

1º - Refletir com os protagonistas aquilo que aconteceu;
2º - Discutir com os interessados aquilo que pode vir a acontecer;
3º - Decidir com os responsáveis aquilo que deve vir a acontecer;
4º - Partilhar com o País aquilo que vai acontecer.
Porque, uma coisa parece-nos ser evidente: quanto melhor se for capaz de compreender a substância e o contexto de um problema, tanto maiores serão as possibilidades de se começar a encontrar as verdadeiras soluções.

Em segundo lugar, trata-se de engendrar um sistema de planeamento que:

1º - Nos seus objetivos e metas;
2º - Na sua orgânica e processo;
3º - No quadro do desenvolvimento do desporto e do País;
5º - No horizonte temporal estabelecido, consubstancie um projeto integrado de desenvolvimento do futebol nacional, sustentado numa forte mobilização social.

No quadro do sistema desportivo democrático e liberal que, de acordo com o Modelo Europeu de Desporto, pelo menos em termos teóricos, caracteriza o desporto nacional, por delegação de competências da tutela, compete à FPF superintender a organização e o desenvolvimento do futebol nacional. Contudo, existem questões relativas ao desenvolvimento do futebol nacional que ultrapassam as competências e a esfera de ação da própria FPF. Nesta conformidade, é necessário mobilizar para um projeto partilhado a uma escala nacional os agentes públicos e privados, individuais e coletivos que, quer direta, quer indiretamente, podem contribuir para o desenvolvimento do futebol nacional. Só a FPF o pode fazer.

Claro que o imediato é urgente porque o Europeu de 2016 já está em marcha. Contudo, é necessário quebrar a fado do curto prazo e esperar que os dirigentes da FPF, com coragem e competência, numa dinâmica de médio e longo prazo, desencadeiem, com uma ampla participação nacional, um projeto de desenvolvimento do futebol com um horizonte temporal de, pelo menos, doze anos.

A não ser assim, no rescaldo dos próximos campeonatos europeus e mundiais, aquilo que vai certamente acontecer é continuarmos todos a lamentarmo-nos por não termos sido competentes. Nós, os apaniguados da Seleção Nacional, porque não fomos capazes de nos impor; eles, os dirigentes federativos, porque não foram capazes de ver longe e com amplitude, analisar em profundidade, arriscar, responder às necessidades do País e aos interesses dos portugueses.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
Gustavo Pires

comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de FUTEBOL

Futebol Bernardo Gomes de Almeida foi reeleito presidente da Direção do Sp. Espinho por unanimidade, durante uma assembleia geral eleitoral que decorreu sexta-feira à noite. Os corpos sociais, que se mantiveram praticamente inalteráveis, foram empossados log
Futebol Na manhã deste sábado, um automóvel ligeiro despistou-se contra a montra da Loja Tigre, do Sp. Espinho. O veículo partiu o vidro da montra e danificou alguns troféus que se encontravam expostos.

destaques