SEXTA-FEIRA, 21-07-2017, ANO 18, N.º 6383
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
O Deus dos filósofos e os deuses do futebol (artigo de Manuel Sérgio, 40)
18:38 - 17-08-2014
Manuel Sérgio
O Deus dos filósofos é uma figura não religiosa do divino. A expressão nasce do génio de Pascal, que distinguia o Deus dos filósofos, que náo é objeto de fé, do Deus de Abraão, Isaac e Jacob, objeto de fé. O Prof. Manuel Gonçalves Cerejeira, catedrático da Universidade de Coimbra (seis anos depois seria Cardeal Patriarca de Lisboa) publicou, em 1924, o livro A Igreja e o Pensamento Contemporâneo que, naquele tempo, obteve um considerável êxito editorial e... farta polémica, pois que a sua desassombrada mensagem cristã não mereceu os aplausos dos racionalistas e positivistas, então também com farta audiência, nos meios universitários.

No prefácio, escreve o Prof. Cerejeira: “Crendo possuir a verdade, o autor cuida que, melhor ainda que pensar, é viver. Por isso, depois de ter procurado acompanhar na sua audaciosa peregrinação o pensamento contemporâneo, não oculta, concorda com essas almas simples (para quem o bem parece tão natural como a respiração) que não lerão nunca este livro mas, se o lessem, diriam consigo: para quê tantos raciocínios complicados, se é tão simples conhecer e amar a Deus?”. Pascal está inteiro nestas palavras do professor de Coimbra, como aliás, ao longo do livro A Igreja e o Pensamento Contemporâneo.

Portanto, para Pascal e Cerejeira, há provas da existência de Deus, tanto pela razão como pela fé. Mas, pela razão, é possível dizer-se que um jogador de futebol é como Deus? Pela razão, ele não passa de um homem, homem só, nada mais do que homem! Hamlet, porém, vai repetindo, ao longo dos séculos: “Há mais coisas, no céu e na terra, do que sonha a tua vã filosofia”. E pela fé, pelas “razões do coração”, com a experiência dos místicos, surge, diante de nós, opulento e majestoso, um retrato perfeito de Deus?

Tenho para mim que Deus não O conheceremos nunca, através da razão, a qual des-sacraliza a realidade. E pela fé? Se o ser humano não pode existir sem cultura, não pode existir também sem culto. Culto e cultura correspondem-se. Por isso, a cada uma das culturas clubísticas corresponde um determinado culto a novos deuses. No Benfica, o culto pelo José Águas, pelo Eusébio e pelo Coluna; no Sporting, o culto pelos “cinco violinos”; no F.C.Porto, o culto pelo Pinga, pelo Pavão e por José Maria Pedroto; no Belenenses, o culto pelo Pepe e pelo Matateu (e quedo-me por estes quatro clubes) – são manifestações de fé nos deuses que corporizaram a cultura, a alma destes clubes. Pode mesmo afirmar-se que não há, no clubismo desportivo, cultura, sem culto aos seus deuses favoritos.

No livro Assim Falava Zaratustra, Nietzsche proclamou (cito de cor): “Se existissem deuses, como poderia eu suportar não ser Deus? Portanto, não há deuses”. Ricardo Namora (antigo jogador de futebol e doutor em Teoria da Literatura pela Universidade de Coimbra) observa, no seu livro (magnífico, aliás) Eterno Domingo (Lápis de Memórias, Coimbra, 2014): “Embora a sociologia, a antropologia, a meteoreologia, a prestidigitação, o tarot, a história e a psicologia possam ajudar a explicar certos aspetos do futebol, não há dúvida de que é a economia que mais perto se encontra da verdadeira dinâmica daquele desporto” (p. 213). No meu modesto entender, antes dos aspetos económicos do futebol, ele é o fenómeno cultural de maior magia por razões que não são unicamente económicas. Para mim, a transcendência (a superação) é o sentido da vida e é no futebol que, no mundo de hoje, este fenómeno, profundamente humano, melhor e mais frequentemente se manifesta. Ora, este anseio de transcendência é bem mais do que economia...

Mas o futebol altamente competitivo (como, convenhamos, qualquer outra modalidade desportiva, em situação de alto rendimento) merece que encontremos nele uma inapagável lição: é que ele é estruturalmente relacionalidade. No futebol, ser é relacionar-se. O Pelé, o Maradona, o Cruyff, o Eusébio, etc., etc. foram intérpretes de exceção desta modalidade desportiva porque, para além do seu valor individual, que todo o mundo se vê rendido a prestar homenagem, tiveram por si dirigentes, treinadores, médicos, enfermeiros e ainda colegas de equipa , que tudo fizeram a que nada faltasse ao desenvolvimento das suas potencialidades.

Pode recordar-se o Pelé, sem a solidariedade do Tostão, do Gerson, do Didi e do Zito? Pode falar-se do Eusébio e esquecer o Coluna e o Simões (principalmente estes?). Ou do Cristiano Ronaldo e desconhecer a presença, nos seus golos, do Bale, do James Rodrigues, do Benzema, do Di Maria e dos demais jogadores do Real Madrid? Ou do Messi e deitar um olhar lateral para o Neymar, o Xavi e o Iniesta e dos restantes companheitos de equipa? Ser é relacionar-se e portanto, antes do mais, jogar futebol é relação. A própria competição desportiva força é convir que se trata de uma forma especial de relacionamento. Na competição desportiva, a sobrevivência de um contendor não significa a anulação do outro, nem o desrespeito pelo seu trabalho, pelo seu esforço. Pelo contrário, o desporto surge vazio de sentido, se não se pratica purificado do “vale-tudo”, ou seja, da manha, da falcatrua, da corrupção, da violência, da inveja. Há também, em demasia, no futebol, principalmente por parte dos dirigentes, uma verborreia passional que faz dos outros alvos-substitutos dos próprios fracassos. Em que muito pese aos defensores de um clubismo doentio, nada disto se confunde com o futebol. Nem com o desporto.

O culto religioso pelos clubes, ou pelos seus atletas mais representativos, só na fé, numa peculiar tonalidade afetiva, me parece ser possível fundamentar-se. Querer e crer: eis a divisa dos “doentes da bola” que nos adversários vêem inimigos tão-só. E, nos principais jogadores das suas equipas, verdadeiros seres sobrenaturais – quando, afinal, alguns deles, a uma racionalidade concreta, sabiam jogar futebol e por aí se quedavam. A fé é necessária, quando respeita a razão. Quando se elimina a possibilidade de pensar, a fé não passa de pura alienação. Ao converter o sentimento em eixo exclusivo do devir, o clubismo restringe e confina o leque dos possíveis. Nas potencialidades fundantes e genesíacas do humano, onde há Razão há Fé e onde há Fé há Razão! Porquê? Porque ambas são elementos inseparáveis da complexidade humana!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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