QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Ética no Desporto
O olho das rãs e o futebol (artigo de Manuel Sérgio, 39)
18:34 - 10-08-2014
Manuel Sérgio
Há dois anos, encontrava-me eu, em Santiago do Chile, a convite da Universidade Pedro de Valdívia. O Reitor, homem mordaz e gracioso, comentando os anos que levo de estudo, em relação à epistenologia da motricidade humana, contou-me o seguinte: “Na Faculdade de Ciências da Universidade do Chile, existe um pequeno conglomerado de barracões de madeira, que há muito deixaram de ser provisórios. Numa das salas, pontificava o Prof. Humberto Maturana e, em busca da vasta e poliédrica obra deste cientista, que o mundo todo conhece, eram muitos os alunos que procuravam o seu conselho. Há cinquenta anos, um rapaz, com um rosto de menina, liso e perfeito, mas que se distinguia por uma ilimitada curiosidade, interrogou-o: Gostava de conhecer as leis que nos levam ao conhecimento do percurso matéria-consciência. Solícito, o Prof. Maturana perguntou-lhe: Qual é o teu nome. E ele: Francisco Varela. Então, disse-lhe Maturana por fim, tens de começar a estudar o olho das rãs”.

Este curioso diálogo, entre Maturana e Varela, marca o início de um trabalho científico de repercussões inapagáveis na biologia. Ora, e o que descobriram Maturana e Varela, no olho da rã? Mostraram que a rã enxerga preferencialmente alguns objetos, ao mesmo tempo que ignora outros que parecem perfeitamente visíveis. O sistema nervoso não reflete fielmente a realidade, mas possui detetores, especialmente votados ao que interessa à vida do animal. De acordo com trabalhos mais recentes destes dois cientistas (o Varela já faleceu, como se sabe), a perceção encontra-se subordinada à atividade global do cérebro e, em segunda instância, do organismo como um todo. Enfim, em área científica, em que me sinto apoucado de conhecimentos, sou tentado a concluir com esta síntese: eu vejo como sou!

Jorge Jesus, Lopetegui, Marco Silva não vêem os três o mesmo futebol, porque são pessoas diferentes e porque são elementos de sistemas diferentes também. Para compreender portanto as suas decisões não bastam os fundamentos neurofisiológicos da conduta, mas também a organização que Filipe Vieira, Pinto da Costa e Bruno Carvalho criaram e pretendem manter. E que matematicamente não se explica, como Galileu o pensava. Porque a inteligência, a experiência e a imaginação criadora, diferentes em cada um dos presidentes dos “três grandes”, não cabem num simples número. Demais, eles não são hoje mais do que três teimosas fragilidades a viver escravos de mil condicionalismos económicos e políticos. Não sei se estamos no fim de uma era, mas admito que o que se passou com o Banco Espírito Santo possa transformar-se numa breve ou demorada despedida de um tempo que já se encontra socialmente (e intimamente) desfigurado. Como o venho escrevendo, ao longo dos anos, o futebol altamente competitivo reproduz e multiplica as taras do sistema sócio-ecomómico que nos governa. Onde todos acabamos vencidos – até o dr. Ricardo Salgado! “Rui Alves diz não aceitar a forma como os líderes dos três grandes – Benfica, Sporting e Porto - estão a concentrar as decisões do futebol português” (A Bola, 2014/8/7). Mas tem de ser assim, para que não se descubra que é postiça a sua saúde e já cumprem dolorosamente o ato de viver. Pasmei de tanta suficiência e candura, na nossa seleção de futebol, no Mundial do Brasil, Sem engenho e arte para cumprir a caminhada, foi uma equipa que perdeu coletivamente o rumo. E pior do que tudo: não se sentia em perigo de vida, pelo facto mesmo de existir daquela maneira. Só o Cristiano Ronaldo não aparecia enrodilhado em si mesmo. É que a paisagem é sempre ele, os outros pouco contam. A propósito: não foi esse um dos males de que a seleção padeceu?

“Jorge Jesus, Lopetegui, Marco Silva não vêem os três o mesmo futebol”, escrevi eu. Por muitos motivos e mais este: o nível cultural de cada um deles também não é o mesmo, já que um treinador tem de ser um especialista, numa das ciências hermenêutico-humanas. É um dos dados da ciência atual: do caos, da desordem pode nascer uma nova ordem. Ando, há mais de 40 anos, a aconselhar, sem sentir na boca o sarro da verborreia, que é preciso ler as páginas seletas dos grandes escritores, para melhor se entender o desporto (e portanto o futebol). A leitura de determinados autores dá à vida uma dimensão inesperada. Ora, o desporto é vida e nada mais! E também o desporto se torna mais belo e até mais eficaz sempre que aos aspetos quantitativos se acrescentam os aspetos qualitativos que afinal distinguem tudo o que é humano. Na História, nenhuma ortodoxia é eterna. Chegou por isso o tempo de não identificar o desporto exclusivamente com a biologia. No desporto, a biologia está integral mas superada. Herdeiros que somos de Kant e Husserl, há entre o animal e o ser humano uma descontinuidade essencial. E porquê? Porque no meio do determinismo da natureza – somos livres! Eu sei que um processo biológico está submetido a causas, não a razões. Mas um pensamento é determinado, por causas ou por razões? Por ambas? Então a biologia e a filosofia são necessárias. E o que o olho da rã nos diz é que não pode explicar totalmente a visão humana. O animal faz um, com a natureza, e o ser humano faz dois. Não esqueço o que aprendi em Sartre: “Uma pessoa é uma escolha absoluta de si”. Kant poderia objetar que somos também prisioneiros do passado. Recordo o anti-humanismo teórico de Louis Althusser: o homem não é princípio, é resultado... de muita coisa que, por exemplo, um treinador deve procurar conhecer, sempre que analisa um jogador de futebol! A verdade, numa equipa de futebol, é simplesmente uma verdade científica?

Que deste sucinto bosquejo ressalte a hipótese de que, numa equipa de futebol (ou em qualquer outra modalidade desportiva) a verdade não é simplesmente uma verdade científica. Aliás, uma equipa de futebol é, sobre o mais, uma verdade ou uma vontade?

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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