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Ética no Desporto
“Francisco de Assis e Franscisco de Roma” - mais um livro de Leonardo Boff (artigo Manuel Sérgio, 38)
21:47 - 04-08-2014
Manuel Sérgio
Não é sem vivíssima emoção que escrevo este artigo. É que a minha visão do cristianismo, que me leva a seguir Jesus, muitas vezes de olhos rasos e de alma em prece, assemelha-se à de Leonardo Boff, um dos próceres da Teologia da Libertação e que portanto tentou articular o discurso indignado dos marginalizados pela sociedade injusta (onde predominam os corruptos e os corruptores) com os ideais sublimes de Cristo, donde nascem a mulher e o homem, como seres morais.

No sagrado solo da Grécia floresceu a filosofia; em Roma, despontou o direito – mas, tanto os gregos como os romanos, eram povos enodoados pela escravatura. Com Jesus de Nazaré, o ser humano, rico ou pobre, sábio ou ignorante, saudável ou doente, escravo ou homem livre, tem sempre a mesma dignidade e valor. É esta a grande revolução social do cristianismo: todos somos iguais, porque todos somos irmãos, filhos do mesmo Pai!

Foi o próprio Jesus a dizê-lo: “Amarás ao Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças e o teu entendimento e ao próximo como a ti mesmo”. Certo dia, um escriba, dado a discussões, interrogou-o: “E quem é o meu próximo?”. Jesus sereno, firme afirmou: “Descia um homem de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de ladrões que o espancaram, o roubaram e o deixaram às portas da morte. Passaram um cidadão endinheirado e um conhecido sacerdote e não pararam para atender quem deles necessitava. Horas depois, um pobre samaritano deu de frente com o quadro arrepiante. Deteve-se, ungiu as chagas do ferido, com azeite e vinho. Depois, sempre com extremos cuidados, pôs o homem sobre a sela e continuou a viagem, puxando o burro pela rédea até à próxima estalagem, onde o tratou com mais vagar”.

Leonardo Boff entendeu bem esta parábola e, ao sentir a miséria, a exploração, a marginalização dos povos da América Latina, aderiu à mensagem da Teologia da Libertação, tornou-se um apaixonado defensor dos Direitos Humanos e, acusando o Vaticano de conluio com o poder, a violência, a inumanidade dos grandes senhores deste pequeno mundo, abandonou a vida ; eclesiástica, “mudando assim (a seu juízo) de trincheira, para continuar a mesma luta”.

No livro Francisco de Assis e Francisco de Roma: uma nova primavera na Igreja (Pergaminho, Lisboa, 2014) Leonardo Boff faz do Papa Francisco não só um Papa que segue na peugada de São Francisco de Assis (um e outro chamados por Deus a restaurar a Igreja) mas também, pela solidariedade, pela misericórdia, o mais atual anunciador de uma Igreja que separa da antiga a nova era - a era do Papa Francisco. Passo a palavra a Leonatdo Boff: “As atitudes e comportamentos surpreendentes do atual bispo de Roma, como gosta de se apresentar, comummente chamado de Papa Francisco, evocam-nos esta categoria tão determinante da liberdade de espírito. Normalmente o cardeal nomeado Papa depressa incorpora o estilo clássico, sacro e hierático dos papas, seja nas vestes, nos símbolos do supremo poder sagrado e na linguagem, Francisco, dotado de uma imensa liberdade de espírito, fez o contrário: adaptou a figura do Papa ao seu estilo pessoal, aos seus hábitos e às suas convicções. Todos têm conhecimento das ruturas que introduziu, sem a memor cerimónia. Aliviou-se de todos os símbolos do poder, especialmente da cruz de ouro e das pedras preciosas e da mozeta que costumava ser colocado aos outros papas (...); sorrindo, disse ao secretário que queria pôr-lha aos ombros: o carnaval acabou, guarde esta roupa” (pp. 91/92).

Com o Papa Francisco, no pensar de Leonardo Boff, “a Igreja voltou a ser um lar espiritual” (p. 94); de uma fortaleza rodeada de inimigos, transformou-se numa casa de portas abertas a quem dela se aproximar; o Papa deve ser o primeiro na caridade e não através do direito canónico, ele é o bispo de Roma e não o papa da Igreja universal; “o nome Francisco é mais que um nome, sinaliza um outro projeto de Igreja, “uma Igreja pobre para os pobres” (p. 95); “os papas anteriores davam centralidade à Igreja, reforçando as suas instituições e doutrinas, o Papa Francisco coloca o mundo, os pobres, a proteção da Terra e o cuidado pela vida, como questões axiais” (p. 96); com o Papa Francisco, os pobres ganham centralidade, na vida da Igreja, eles são o rosto de Deus, no mundo em que vivemos.

Existe uma razão fria, neutral, iluminista, capitalista, com a ambição da posse até à reificação do seu semelhante e desfrutando de todos os prazeres e exigindo que os demais entrem na roda do seu furor orgiástico, como acólitos necessários, como “lambe-botas” repelentes, ou como vítimas inevitáveis. A crise do Banco Espírito Santo escancarou a razão que comanda o capitalismo, que não sabe ver no semelhante o seu alter ego, mas o estranho, o objeto, ou de indiferença, ou de pura manipulação, com todas as consequências possíveis de exploração, de desconfiança, de animosidade. Ao deixar inspirar-se pelo Jesus histórico, o Papa Francisco está atento a todos, mormente aos explorados e aos marginalizados. “Não é possível imaginar Jesus a morar num palácio, como o de Herodes, ou como o palácio do Vaticano (…). Por este motivo, o Papa Francisco decidiu não se instalar no palácio pontifício, para ir morar onde as pessoas normais moram” (p. 126).

Escreve Leonardo Boff que o Papa Francisco é um advogado e defensor dos pobres.. Ora, no futebol, também há pobres. No futebol, não se movimentam tão-só o Manchester City, o Manchester United, o Chelsea, o Real Madrid, o Barcelona, o PSG e mais alguns, iguais a estes. Há clubes, em provas oficiais, sem o dinheiro bastante, para os vencimentos dos seus funcionários, onde se integram os jogadores e os treinadores. A sensação crescente de desamparo, o medo existencial, a descida constante aos abismos da mentira e do incumprimento dos deveres: são moeda corrente em larga (larguíssima) mancha do futebol profissional.

Aconselho, por isso, a leitura do livro Francisco de Assis e Francisco de Roma, da autoria do famoso teólogo Leonardo Boff . Os Messis, os Ronaldos, os James Rodriguez são exceções, nas regalias de que beneficiam. Há homens caídos na estrada de Jerusalém para Jericó, no futebol que nos apaixona. E faltam homens da estirpe do Papa Francisco. Francamente, vale a pena ler este livro de Leonardo Boff, onde transparecem valores que é bom que vivam, para que o futebol possa viver também! Humanamente!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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