QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Ética no Desporto
A Literatura e o Desporto: a propósito de Sophia (artigo Manuel Sérgio, 34)
16:35 - 02-07-2014
Manuel Sérgio
Se não laboro em erro, o desporto, como tema literário, foi tratado, pela vez primeira, pelo estro vibrante de Píndaro.

Os Jogos dominavam a vida da Grécia clássica e ele deixou-se embriagar pelos feitos atléticos dos campeões olímpicos. Nada mais natural. Durante a realização dos Jogos, desaguava em Olímpia tudo o que na Grécia havia de mais artístico, filosófico e desportivo. Os poetas declamavam o que lhes saía da alma, os sofistas dialogavam com auditórios eruditos, os artistas maravilhavam o público, com as suas obras, designadamente no âmbito da arquitetura e da escultura, e os atletas competiam entre si. Enfim, arte, filosofia e desporto, num conúbio que muito enriqueceu a literatura grega. Já Homero poetizara as corridas de carros, mas poesia, centrada no desporto, foi Píndaro o primeiro. Depois dele, muitos outros – na Grécia e não só! Na Literatura Portuguesa, também é significativa a presença de escritores a evidenciarem uma simpatia encorajante pela prática desportiva. Desde o D. João I do Livro da Montaria e o D. Duarte da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela (o primeiro tratado de equitação, que se escreveu na Europa) até aos nossos dias. Distingo, entre todos, o Eça de Queirós, o Ramalho Ortigão e o Manuel Alegre. Sim, eu sei: e o Ricardo Reis? E o António Botto? E o Ruy Belo (que me leu, nas instalações da Faculdade de Letras de Lisboa, uma admirável prosa poética sobre o basquetebol)? E o Baptista-Bastos? E o Urbano Tavares Rodrigues? E o Romeu Correia? E o Ruben A.? E o Gonçalo M. Tavares?... E muitos outros havia que lembrar. Só que o espaço de um artigo de jornal o não permite.

Mas eu explico, em meia dúzia de linhas, as razões da minha escolha no Eça, no Ramalho e no Manuel Alegre. N`Os Maias, o Eça de Queirós, através de Afonso da Maia, mostra conhecer os grandes sistemas da Educação Física, no século XIX, ou seja, o desporto britânico, a ginástica de Ling e a de Amorós e o turnen alemão: “Nós não temos os jogos de destreza das outras nações (…). Não temos o cricket, nem o foot-ball, nem o running, como os ingleses. Nâo temos a ginástica, como ela se faz em França. Não temos o serviço militar obrigatório, que é o que torna o alemão sólido. Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada. Tirem a tourada e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado”. O Ramalho n`As Farpas, com a latitude e a plasticidade do seu espírito cultivado, escreveu: “A fisiologia moderna tem mostrado que a saúde não é mais que o justo e perfeito equilíbrio das diferentes forças inerentes ao nosso organismo. A higiene tem provado, com muitas observações e fundada nas mais repetidas experiências, que o exercício regular e metódico de todos os nossos membros e de todos os nossos órgãos é o único meio de manter o equilíbrio a que acima nos referimos. A sistematização desse exercício regular e metódico chama-se a ginástica”. Há um cartesianismo evidente, na prosa do Eça e do Ramalho. “Eu sou meu corpo” da fenomenologia não se vislumbrava ainda. Em conversa com o tio de Manuel Alegre, o embaixador Mário Duarte, que foi o guarda-redes da primeira equipa de futebol do Belenenses, um gentleman e por isso um sportsman, pude enxergar que o autor do romance Alma e de poesias inesquecíveis ao Bentes, ao Figo e ao Eusébio foi internacional de natação e que nasceu de uma família onde o ideário olímpico encontrou o mais fundo eco. Manuel Alegre, se bem entendi Mário Duarte, é um discípulo de Coubertin, sem perda da sua inconfundível personalidade de democrata e dos seus ideais socialistas. Ele é um poeta, um escritor onde o desporto tem lugar destacado, talvez único, na História da Literatura Portuguesa...

José Peseiro, meu antigo aluno no ISEF de Lisboa, há 32 anos, confessou, há pouco, publicamente, em seminário de que fui um dos docentes: “Só agora, como treinador de futebol, é que entendi o que nos disse numa aula, depois de nos ter lido um poema da Sophia de Mello Breyner Andresen, ao aconselhar-nos a que lêssemos diariamente um texto de um grande nome da nossa literatura, para melhor entendermos o desporto”. É verdade, há 32 anos, li aos meus alunos, futuros professores e treinadores desportivos, um poema de Sophia que muito me sensibiliza, a “Meditação do Duque de Ganda sobre a morte de Isabel de Portugal” do livro Mar Novo (Guimarães Editores, Lisboa, 1958):

"Nunca mais A tua face será pura limpa e viva Nem o teu andar como onda fugitiva Se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida. Nunca mais servirei senhor que possa morrer. A luz da tarde mostra-me os destroços Do seu ser. Em breve a podridão Beberá os teus olhos e os teus ossos Tomando a tua mão na sua mão. Nunca mais amarei quem não possa viver Sempre Porque eu amei como se fossem eternos A glória, a luz e o brilho do teu ser, Amei-te em verdade e transparência E nem sequer me resta a tua ausência, És um rosto de nojo e negação E eu fecho os olhos para não te ver. Nunca mais servirei senhor que possa morrer."

Extraordinário poema de uma extraordinária poeta. O que mais me agrada, na poesia de Sophia, é o facto de a sua inteligência, sempre presente, nunca anular a carga poética dos seus versos, ou da sua prosa. A sua inteligência não era a física ou a matemática, mas uma inteligência estritamente estética e, porque estética, ética – dado que, em Sophia, o Belo e o Bem se confundem. Uma homenagem a Sophia, há 32 anos, numa das aulas do ISEF de Lisboa! É preciso que aconteça, no Desporto, o rompimento com as amarras que o prendem a uma atividade meramente física e portanto amoral e apolítica. Nesse momento, Sophia surgirá como leitura indispensável!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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