DOMINGO, 25-06-2017, ANO 18, N.º 6357
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
As dúvidas do Doutor Eduardo Barroso: as dele e as minhas! (artigo Manuel Sérgio, 32)
22:45 - 22-06-2014
Manuel Sérgio
Quando os mais de 40 livros que já escrevi se transformarem em raridade de alfarrabista e merecerem (talvez!) uma insignificante anotação nos livros de filosofia e epistemologia do desporto, já ninguém se lembrará do esforço que se desenvolveu, no ISEF/UTL, ainda antes do nascimento da Faculdade de Motricidade Humana, sob a liderança do Doutor Henrique de Melo Barreiros, em prol da criação de um paradigma que fundamentasse o labor científico da, então, nascitura Faculdade.

Quero adiantar, sem problemas de qualquer espécie, que, naquela Escola, ele era o único professor que mostrava interessar-se e compreender mesmo a minha investigação, no âmbito da epistemologia. Um pouco mais tarde, o Doutor Gustavo Pires, que forcejava também por criar a Gestão do Desporto, como disciplina autónoma, faria o mesmo e nasceu assim uma amizade que hoje se mantem viva a sólida. E a que conclusões cheguei eu? 1. Que não há Educação Física, mas a Educação de Pessoas, no movimento intencional da transcendência (ou superação). 2. Que deveria, por isso, nascer uma ciência nova, a Ciência da Motricidade Humana (uma ciência humana, inevitavelmente) que teria como especialidades o Desporto, a Dança, a Ergonomia e a Reabilitação. 3) Que o método a empregar, nesta Ciência, seria o integrativo, resultante do pensamento complexo. Num país, como o nosso, fértil em ortodoxias, logo certas pessoas trataram de marginalizar-me. No entanto, para outras, a marginalização converteu-se em motivo de curiosidade e a ideia (uma nova ciência e um novo método) vai fazendo o seu caminho, ampliando-se assim a comunidade científica. Não fosse a epistemologia uma espécie teórica subalternizada, no desporto português, quando não desprezada por ignorantes e já, há mais tempo, se saberia em Portugal que o Desporto é, no âmbito das ciências humanas, que pode estudar-se e praticar-se.

O conhecimento científico, porém, é uma construção social e uma ciência não progride, sem o contributo de todas as outras ciências e até do senso comum. Já há doze anos atrás, Boaventura de Sousa Santos escreveu n`A Página da Educação (Maio de 2002) que, desde meados do século XIX, começou a desenhar-se um confronto, no âmbito das ciências sociais e humanas, entre uma conceção positiva e uma conceção crítica. Ambas visam analisar a realidade humana e social, “mas enquanto a primeira reduz a realidade ao que existe e, como tal, tende a conformar-se com o que existe, a segunda inclui na realidade a sua potencialidade e a sua capacidade para ser de modo distinto daquele que hoje permanece”.

A conceção positiva defendia, por exemplo, que a medicina era dos médicos e o direito dos juristas e não admitia “contaminações” de saberes estranhos. Tudo se pensava sob a categoria suprema do Mesmo. Um médico e cirurgião, de muitos méritos, como o Doutor Eduardo Barroso, sabe como a cirurgia e a farmacologia e a biologia (e até a engenharia) se encontram inúmeras vezes; que em um número seleto de médicos, de tanto talento como o seu (recordo Egas Moniz, Reinaldo dos Santos, João Lobo Antunes, etc.) se encontra uma excecional cultura literária. Enfim, o desenvolvimento da medicina supõe e exige o desenvolvimento doutros saberes. Portanto, porque a inter e a transdisciplinaridade são “conditio sine qua non” de desenvolvimento científico, ao Desporto muito interessa que o Doutor Eduardo Barroso dele se ocupe com seriedade e rigor.

A Secretaria de Estado do Desporto e Juventude, através do Instituto Português do Desporto e Juventude, vai editar, dentro de poucos dias, o Código de Ética Desportiva. A Ética é um dos capítulos da Filosofia. Todavia, conforme o assinala, com atualidade, no prefácio, o Dr. Emídio Guerreiro, “o desporto implica um diálogo estruturado intersectorial, intergovernamental, intergeracional de uma transversalidade e multidisciplinaridade, que o transformam num dos mais prestimosos recursos sociais, educativos e profiláticos”.

Entre os autores estão o Doutor António Gentil Martins e a Ordem dos Médicos. Karl Popper adverte que devemos estudar problemas e não disciplinas. Ora, se se estudam problemas e não disciplinas, no meu modesto entender especialistas com o valor intelectual e profissional e moral do Doutor Eduardo Barroso são sempre bem-vindos e até necessários ao Desporto. Só que o conhecimento puro e exato não existe. E aqui começam as dúvidas do Doutor Eduardo Barroso e... as minhas! É evidente que as dúvidas não existem quando o desporto se desenha em pinceladas ligeiras e em tons suaves de aguarelista. Mas, de quando em vez, nem sempre é possível falar deste modo do fenómeno desportivo. Volto ao que venho dizendo, há mais de 30 anos: o Desporto é uma área do conhecimento, como as demais...

NB.: Os meus sentidos pêsames ao F.C.Porto e à família do Dr. Fernando Sardoeira Pinto, um dos desportistas de maior elegância moral, que já me foi dado conhecer, no desporto português. Nunca o esquecerei, como pessoa eticamente exemplar.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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