QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Carta Aberta ao Ministro do Desporto do Brasil (artigo Manuel Sérgio, 31)
16:17 - 08-06-2014
Manuel Sérgio
Senhor Ministro Aldo Rebelo e meu Exmº. Amigo

Não me esqueço da homenagem, de há pouco mais de uma semana atrás tão-só, que preparou, nas instalações do Ministério do Esporte, em Brasília, querendo distinguir o que de menos frágil existe nos mais de 40 livros que já escrevi e no meu aprendizado, sempre aberto a um progresso incessante (dada a consciência das minhas limitações) que venho realizando com diversos “agentes do desporto”, entre os quais se conta um número apreciável de treinadores de futebol. Não me esqueço também do almoço que me ofereceu, na intimidade do seu lar, onde pretendeu associar-me a um sonho que o habita e que espera ver concretizado, ainda antes dos Jogos Olímpicos de 2016. Quero que saiba também que me deliciei com a leitura do livro, que fez o favor de oferecer-me, A Pátria de Chuteiras do Nelson Rodrigues, “o mestre das crónicas imortais”, como o meu amigo, o prefaciador, lhe chama. Enfim, termino o princípio desta carta, com um “muito obrigado” sincero.

As funções que hoje exerce, no governo brasileiro, não atravessam mares de calmaria. Pelo contrário: são mares encapelados as palavras e as pessoas que rodeiam o seu Ministério. Nas aulas que lecionei na UnB, abertas a todos os alunos e professores desta universidade, divisei os socalcos cavados pelas ondas de uma séria contestação, em relação ao Mundial de Futebol. Os jovens universitários, que de mim se aproximaram, muitos deles ignaros ainda de uma vida com dificuldades económicas, não escondiam, que o dinheiro gasto na construção de 12 estádios, se não estou em erro, melhor seria canalizá-lo, em boa parte, para a Educação e a Saúde que, no Brasil, apresentam lacunas indesejadas. “Seis estádios seria o bastante. Veja bem que se gastaram 866,5 milhões de euros, sendo assim o Brasil o país que mais dinheiro gastou na construção de infraestruturas desportivas, para a realização de um Mundial”. E, alteando a voz, acrescentou: “Isto, num país, com carências enormes, como lhe disse, na Educação e na Saúde”. Era de um aluno da licenciatura em Educação Física o desabafo...

Na UnB, no entanto, não vislumbrei um professor ou aluno, que tomassem a peito qualquer contestação radical, desabonadora da realização da Copa, no Brasil. Eu senti neles tão-só uma crítica ao volume enorme dos gastos. Porque receber o Cristiano Ronaldo, o Lionel Messi, o Andrès Iniesta, o Mesut Ozil, etc., etc. (que pena me faz não ver entre eles o Zlatan Ibrahimovic, o sueco do Paris Saint-Germain) – receber es estrelas maiores e mais rutilantes do futebol atual é sempre aliciante e honroso. Não sei até onde se exacerberá a conjunção de fatores negativos, mas espero que o Mundial não seja interrompido, por qualquer tipo de agitação social, designadamente as que destroem, em vez de instigarem ao progresso. Não o merecia o futebol, o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo, nem os brasileiros, nem o meu querido amigo, um governante e... um homem culto, que eu descobri, logo que me mostrou a sua biblioteca, onde o Gonçalo M. Tavares se perfila ao lado da Clarice Lispector, onde reinam o Machado de Assis, o Jorge Amado, o Fernando Pessoa e o José Saramago, onde se destacam também a portuguesa Sofia, a brasileira Cecília Meireles e “o imperador da língua portuguesa”, o Padre António Vieira. Recordo a pergunta que me fez: “Este rapaz, o Miguel Sousa Tavares, é filho da Sofia?”. E adiantou: “Gostei muito do Equador, que belo romance!”.

Senhor Ministro e meu Exmº. Amigo, um Ministro do Desporto com a sua cultura já entendeu que o futebol-espetáculo é mais uma atividade humana do que uma atividade física, tanto ao nível do treino, como da Economia Política. Na fase neoliberal do capitalismo (a partir da última década do sáculo XX), o deus-lucro constitui a mais subtil e anti-democrática das ditaduras, bem visível, por exemplo, num calendário desportivo que obriga os atletas a um trabalho desmesurado e se cumpre, portanto, à custa de lesões de todo o tipo. Do ponto de vista da saúde dos atletas é uma “floresta de enganos” o hodierno futebol de alta competição. A extensa lista de futebolistas ausentes, no Mundial do Brasil, é indestrinçável de tudo isto.

Por outro lado, o uso e abuso de fármacos potentes, mesmo nos casos mais banais da medicina desportiva, para que o futebolista possa “entrar em campo” o mais depressa possível, representam verdadeiras agressões ao organismo, o qual, paulatinamente, se debilita. E assim o desporto alienador, abalado, de quando em vez, por trágicas surpresas que deveriam provocar o alarme público, mas que as grandes centrais de manipulação da opinião pública imediatamente subvalorizam – o desporto, desprovido da ética em que nasceu, nem sempre faz bem à saúde, principalmente se o deus-lucro o instrumentaliza e manipula. A libertação integral do ser humano, a recuperação da sua dignidade passam também pelo espetáculo desportivo. Também ele precisa, usando as palavras de Paulo Freire, de uma pedagogia do oprimido.

Relembro o encontro que o nosso comum amigo, Lino Castellani Filho, me proporcionou com o Paulo Freire, nas vésperas do seu doutoramento, em que o insigne pedagogo e eu fomos os principais arguentes. Dizia-me Paulo Freire que a educação praticada no Brasil era “bancária” e “domesticadora”. Bancária, ou seja, em que a educação se reduz à ação de depositar conteúdos na memória dos alunos. E domesticadora por conduzir ao entorpecimento da consciência, à ausência de espírito crítico. De uma educação bancária e domesticadora resultam fatalmente educandos mudos e passivos, acríticos e crédulos.

Ora, no seminário que lecionei, na Faculdade de Educação Física da UnB, muitos dos alunos e dos professores que dialogaram comigo mostravam reservas de lucidez, ao destrinçarem entre o possível e o quimérico, entre a utopia demagógica e o senso informado do real, entre a emulação honesta e o aventureirismo. Pessoas portanto sensíveis aos objetivos que povoam a sua política, meu caro Dr. Aldo Rebelo. Pessoas que não querem desperdiçar o tempo em guerrilhas fratricidas ou num futebol que reproduz e multiplica as taras do neoliberalismo que, economica e financeiramente, nos comanda. Pessoas que podem ajudar ao nascimento de um desporto novo, num Brasil diferente, Não se faz futebol, porque há futebol; há futebol, porque o ser humano pratica futebol. Por outras palavras: o futebol é, porque nós somos! Senhor Dr. Aldo Rebelo, faço minhas as palavras de Vítor Serpa, no jornal A Bola, de 7 de Junho de 2014: “Eu amo o Brasil”.

No meu caso pessoal, tenho muitas razões para dizê-lo e, depois que o conheço, não tenho receio em adiantar que o Brasil tem um ministro capaz de canalizar a contestação e o arrebatamento dos jovens em direção, como acima escrevi, a um “desporto novo, num Brasil diferente”. E o Mundial que está prestes a começar? O Mundial tem para mm, sobre os mais, um candidato: o Brasil! Não, o Neymar não é o melhor jogador do mundo. Mas a seleção brasileira, hoje, não tem par. E assim, em Julho, a Copa, no meu modesto entender, será vossa. E, entre os fazedores dessa vitória que eu antecipo, o Dr. Aldo Rebelo não sei se é o primeiro, mas é, com particular nitidez, um dos primeiros. Do que o meu amigo trabalhou e pensou e sofreu (e com impressionante serenidade) podiam escrever-se páginas imperecíveis. Que nelas possa caber, em rodapé, a grande estima e admiração que eu nutro, pelo meu Amigo e a Dra. Rita Rebelo, sua Exmª. Esposa.

Um abraço fraterno do Manuel Sérgio


Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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