QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Parabéns ao Benfica: na vitória e na derrota (artigo Manuel Sérgio, 28)
18:50 - 19-05-2014
Manuel Sérgio
N`A Bola, de 15 de Maio de 2014, salienta-se que o Benfica reforça, com a derrota na final de Turim, o estranho estatuto “de clube com mais finais europeias perdidas: 8 em 10. Cinco da Champions e três da Liga Europa”. Há que realçar, portanto,o número considerável de finais a que o Benfica já chegou. Isto significa que tem também por si um número considerável de vitórias. No jogo com o Sevilha, de 14 de Maio de 2014, a vitória não lhe sorriu por causas endógenas e exígenas. As endógenas o Jorge Jesus se ocupará delas. Pouco sei de futebol e não vou, por isso, “meter a foice em seara alheia”. As exógenas decorrem do mundo fechado e estanque da aristocracia da UEFA, que tem os seus interesses, as suas antipatias, os seus valores. O futebol não é aquilo que os olhos vêem. Sendo o espetáculo mais popular do mundo, ou seja, sendo a mais importante das coisas pouco importantes, no povo que o rodeia e o aplaude e o ama encontraremos o elemento mais puro da totalidade donde nasce e onde se desenvolve. Com a férula erguida na autoritária mão direita, acusam-no de apaixonado, destituído de discernimento. Mas o que é um jogo de futebol, sem os cantos, as palmas, os gritos, os incitamentos dos espectadores? Deixa de ser espetáculo. À classe, arte, competição, idealismo dos jogadores fazem falta a policromia, o movimento, a vibração das claques que, à sua maneira, integram e enriquecem um jogo de futebol. O futebol-espetáculo, sem o “mare magnum” de público que o submerge, perde boa parte do interesse e da beleza e daquelas “razões do coração” que o Pascal estudou e o público vive, mesmo que não seja capaz de teorizar. Há o conhecimento intelectual da verdade e o conhecimento místico da realidade. Por isso, a esfera do amor clubista não é tanto a inteligência, mas sobretudo uma realidade que se sente e se vive, sem grandes explicações...


N `A Bola TV, assisti ao comentário “Toni Oliveira – Príncipe da Pérsia”. Parece-me singularmente oportuno, neste artigo, realçar a pessoa do Toni (se quiserem mesmo: a personalidade do Toni). Conheço-o e admiro-o, há muitos anos. Homem de ética inatacável, espírito elegante, ávido de saber, afavelmente desiludido, bondosamente compreensivo – ele é um grande treinador, porque é um homem de crença firme e funda em certos valores estáveis, sobranceiros à flutuação das modas. Sendo amplamente aberto ao diálogo e a todos os ventos da cultura, nem por isso aceitou alguma vez abdicar da sua tábua de valores que formam, por assim dizer, o fundamento de todas as construções do seu espírito. Retorno a uma frase que venho repetindo, ao longo dos anos: “É o Homem que se é que triunfa no treinador que se pode ser”. Porque é um Homem admirável, o Toni triunfou no Irão e não só por saber (e muito) de futebol. Daí a segurança com que ele verbera o que é medíocre e exalta o que é grande. Acabo de receber do Brasil, oferecido pelo seu autor, o livro Oswaldo Brandão – libertador corintiano, herói palmeirense (editora contexto, São Paulo, 2014), da autoria de Maurício Noriega. O internacional brasileiro Gérson (da seleção de 1970, campeão do mundo, portanto) fala assim de Brandão: “Quando algum atleta se machucava, ele ia ao departamento médico, olhava o tratamento, perguntava se poderia ajudar. Uma época, minha filha teve problema de saúde, precisou ser internada várias vezes, no hospital infantil Darcy Vargas, que ficava perto do estádio de São Paulo. O Brandão ficava a noite inteira comigo, no hospital. Ele era um pai para todo mundo”. Outra característica de Brandão, destacada por Gérson: “Ele não gostava de dizer eu fiz, eu ganhei. Ele dizia sempre nós. Todo mundo adorava”. O futebolista profissional é sempre um jovem misantropo, carecido de arrimo e de afago. O treinador, que sabe ser pai também, tem condições ideais para ser um grande treinador. Tem de saber de futebol? Necessariamente! Tem de ser Homem? Antes de tudo!


O Benfica perdeu, no jogo final da Liga Europa? Mas é o campeão nacional da época de 2013/2014. E cimenta, com Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus, uma cultura de vitória, onde o conhecimento científico não pode dispensar uma formação moral e espiritual, profundamente sólida e coerente. A grande revolução a fazer no futebol está aqui: que (se for possível) a uma prática de muitos anos corresponda uma percuciente inteligência e uma profunda e humana bondade! Ocorre-me aquele livro de Gabriel Marcel, Les Hommes Contre L`Humain. O filósofo salientava (se penso bem) que as ideologias políticas são pura mentira, se nelas não se encontram princípios éticos. Calar a ausência de ética no comportamento dos políticos não passa de flagrante cumplicidade com toda a sorte de manipulações, de mentiras, de violências. Na ética, via Gabriel Marcel a solidez das ideologias. A fidelidade a valores de forte pendor antropológico é o princípio de qualqier transformação, no âmbitlo do humano. E como o futebol é uma Atividade Humana e não só uma Atividade Física! Procurou-me, há poucos dias, uma antiga aluna minha, para desabafar: “Professor, estou cansado de pessoas, mulheres e homens, que frequentam o meu ginásio, unicamente para mostrarem um corpo belo e superficiais e fúteis, perante os grandes valores que justificam a vida”. E sublinhou: “E, o que é pior, pensam que, não saindo da fisiologia e até de alguns fármacos de duvidosa qualidade, serão inevitavelmente saudáveis”. A tanto leva aquilo que algumas pessoas entendem por Atividade Física! Não há movimento, nas ditas atividades físicas, onde a intencionalidade não sobrenade. Wittgenstein assegura que há “movimentos do pensamento”. E o Gonçalo M. Tavares, na sua tese de doutoramento, adianta que “o pensamento como que pratica desporto”. Há bem mais do que físico no futebol. Por isso, ao felicitar o Benfica, pelas vitórias conseguidas, na época há pouco finda, peço licença para lembrar que é, na fidelidade a determinados princípios, que o desenvolvimento acontece. Para que o Benfica não seja campeão tão-só, de 3 em 3 anos!

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