SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Ética no Desporto
A grande revolução de Jesus ou o mundo que o desporto não tem (artigo Manuel Sérgio, 26)
21:07 - 01-05-2014
Manuel Sérgio
Se nem só de pão vive o homem, também não se pode viver sem pão. Sem um certo ter, não se pode ser. Os bens materiais só são desprezíveis quando se erguem como obstáculo a uma ordem social, económica, espiritual, onde todos nos sintamos irmãos, ou melhor: onde todos nos sintamos com iguais oportunidades.

Podemos por isso afirmar, sem receio, que pode construir-se uma sociedade moldada nos princípios do Evangelho. Que o mesmo é dizer: não se transforma uma sociedade unicamente por meio de decretos e de leis, ou pelo carisma de líderes incontestados. De uma revolução política, fundamentada nas melhores intenções, podem nascer invejas, ódios incontidos, ambições insatisfeitas. A grande revolução de Jesus transforma o social e o político, porque antes nos transformou a cada um de nós. Interrogam-se os fariseus sobre o reino de Deus e Jesus responde: “O reino de Deus não chega de uma maneira que impressiona a vista. O reino de Deus está dentro de vós”.

Porque desejava fazer um mundo novo, Ele trabalhou e ofereceu a sua própria vida para que nascesse também um ser humano novo. Quando os discípulos lhe perguntaram: Mestre, de nós qual será o primeiro no reino dos céus? Jesus sentou-se, reuniu os doze à sua volta e disse-lhes: “Se algum quiser ser o primeiro, que seja agora o último e esteja ao serviço de todos”. E, chamando uma criancinha, envolveu-a carinhosamente num abraço e ensinou: “Em verdade vos digo que, se não vos tornardes como esta criança, não entrareis no reino dos céus”. Jesus é fator de progresso material, natural, porque é também fator de progresso moral, espiritual. De muitas revoluções surgiram (como o micróbio do fruto apodrecido) figuras hediondas, como Hitler, como Estaline, como Pol Pot e tantos mais.

Jesus é bem explícito, a este respeito: Ele chamou aos discípulos pescadores de homens e não pescadores de almas. E, quando reza ao Pai, suplica: “Não Vos peço que os retireis do mundo, mas que os preserveis do mal”. Por isso, recomenda que se pague o tributo a César, sacia multidões esfomeadas, vai às núpcias de Caná, manifesta um carinho especial por Maria Madalena, etc., etc. Trata-se, de facto, de um cidadão exemplar, mas porque se fundamenta em princípios perfeitamente revolucionários: Bem-aventurados os pobres de espírito (ou seja, os modestos, os humildes) porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; bem-aventurados os que pacificam, porque serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus. E chega mesmo a dizer: “ Se trouxerdes a vossa oferta ao altar e aí vos lembrardes que o vosso irmão tem qualquer coisa contra vós, deixai ali a oferta, ide reconciliar-vos primeiro com o vosso irmão e depois voltai e oferecei a vossa oferta”. Em Jesus, há uma seiva espiritual que alimenta e percorre todo o Seu comportamento, onde brilham a solidariedade e a justiça. São um logro as revoluções sociais e políticas lideradas por ditadores, por violentos, por hipócritas, mesmo que pronunciem palavras encantadoras, ou se afirmem enviados por Deus. Jesus avisa: “Nem todo o que diz Senhor! Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”.

A grande revolução de Jesus é esta: não há na sua doutrina qualquer dualismo (razão-fé, ciência-religião, natureza-cultura, imanência-transcendência, espiritualismo-materialismo, rico-pobre, branco-preto, senhor-servo, indivíduo-pessoa, sagrado-profano): Ele dá sentido à evolução, ao processo histórico – o amor de Deus confunde-se com o amor do próximo! E, porque vês Deus, no teu próximo, sê então um revolucionário. Ocorre-me, neste passo, a frase célebre de Agostinho de Hipona: “Ama e faz o que quiseres”. Com Jesus, nasce um mundo novo e um homem novo. Jesus tudo adotou, retificou, uniu, completou, Ele corresponde aos postulados mais universais e profundos que animam o ser humano. N’Ele, a dimensão social e a dimensão espiritual confundem-se na complexidade humana! A grande revolução de Jesus é esta: a vida tem sentido, sempre que se ama a Deus no próximo, sempre que se descobre a transcendência na imanência. Com isto, não nego a necessidade da meditação e da oração. Digo tão-só que, sem obras, a fé é morta. Foi das primeiras coisas que aprendi, na disciplina de História da Cultura Clássica, na Faculdade de Letras de Lisboa: a cultura ocidental radica na filosofia grega, no espírito jurídico latino e na mensagem judaico-cristã (eu gosto de acrescentar-lhes o criticismo de Kant e ainda o dos grandes nomes do Iluminismo).

Mas, no lugar da religião do indivíduo, é preciso apostar na religião da comunidade, que não subalterniza a realidade e o valor do indivíduo, mas o considera essencialmente relativo aos outros e à sociedade. No plano dos valores, portanto, requer-se a passagem de uma ética individualista a uma ética comunitária, onde todos são corresponsáveis. Em Jesus, não há só o proximus, o amigo, o familiar, mas principalmente o socius, na criação de instituições mais solidárias, mais justas. Jesus não lutou por uma religião dos espíritos, mas por uma religião dos homens, sabendo que, se uma revolução social não chega para criar o “homem novo”, pode criar condições ao seu nascimento. A religião de Jesus não sofre de absentismo e conformismo. Ele escolheu a religião do afrontamento contra os privilégios, contra a violência dos poderosos, contra as injustiças do sistema dominante. Por isso, foi crucificado. Por isso, aqui deixo um resumo das minhas meditações, em muitos momentos da minha vida. Jesus continua (continuará) um grande contemporâneo. Estou a ouvir alguns dos meus habituais leitores a levantarem, perplexos, uma interrogação: “Mas que tem tudo isto a ver com o Desporto?”. É indubitável que a mensagem de Jesus tem em vista um mundo novo – o mundo que eu desejo ao desporto, hoje e sempre! Aliás, permitam-me a pergunta: se este meu artigo nada tem a ver com Desporto, concorre a um melhor desporto um clubismo faccioso e o racismo que ainda enodoa os grandes estádios da alta competição desportiva?

Não esqueçamos que o Desporto tem como objetivo primeiro a concretização de valores que a cultura ocidental proclama como seus – aqueles valores por que Jesus deu a própria vida. Um dos primeiros criadores do desporto moderno foi o cónego inglês Thomas Arnold, que viveu na primeira metade do século XIX. Aos que, entre paroxismos e crispações, caluniam os árbitros, detestam os clubes adversários e só encontram defeitos e limitações... nos outros – seria bom que, uma vez por outra, estudassem a História do Desporto. E peço licença para aconselhar a leitura do livro “de la GYMNASTIQUE aux SPORTS MODERNES” (Vrin, Paris). É a melhor História do Desporto que eu conheço.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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