QUINTA-FEIRA, 30-03-2017, ANO 18, N.º 6270
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
O 25 de Abril e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio, 25)
00:52 - 24-04-2014
Manuel Sérgio
Se bem me lembro, sou espectador assíduo do futebol português, desde 1939 até hoje. As mãos de meu pai guiaram-me até ao Estádio das Salésias e, ao seu lado, assisti à vitória da Académica, sobre o Benfica, no jogo final da primeira Taça de Portugal. Meu pai nunca me deixou dúvidas, a este respeito: “Foi a primeira vez que te levei ao futebol”.

Com os meus 81 anos de idade, por entre o vocabulário desbragado da multidão que me rodeava, vi jogar os “cinco violinos” e a equipa do Eusébio e do Coluna e o F.C.Porto de Pedroto, de Pinto da Costa, de Artur Jorge e de José Mourinho e de André Villas-Boas. Por outro lado, a partir de 1968, fui técnico superior da Direção-Geral da Educação Física e Desportos, do Centro de Medicina Desportiva de Lisboa e professor do INEF, do ISEF e da FMH. Para além do mais, aprendi muito com treinadores de futebol, como José Maria Pedroto, José Mourinho e Jorge Jesus. Hoje, posso acrescentar, sem qualquer receio, que faço com o Jorge Jesus um trabalho interdisciplinar. Quero eu dizer: procuro aprender filosofia, com ele, sem ele ensinar-me filosofia e eu ensinar-lhe futebol, sem tocar, ao de leve que seja, na técnica e na tática, específicas do futebol. São, portanto, 46 anos os que levo de estudo do Desporto em geral e do Futebol em particular. E de aprendizagem contínua com “agentes do futebol” de incontestados méritos.

O JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias), de 16 a 29 de Abril de 2014, foi integralmente dedicado aos 40 anos da Revolução dos Cravos. Nesta edição colaboraram alguns dos vultos maiores da nossa cultura. Distingo, entre todos, o Eduardo Lourenço que retoma um tema que bem conhece: “Com o 25 de Abril, Portugal mudou de rosto. Ou antes, conheceu tais mudanças de ordem estrutural e material, que já não somos o que éramos, há 40 anos”. Manuel Alegre, desportista, poeta, escritor e político, não hesita ao escrever: “Comemorar Abril agora tem que ser um novo ato de libertação cultural e política”. Lídia Jorge (autora de um livro que não se esquece, Os Memoráveis) resume deste modo o que escreveu, neste seu magnífico depoimento: “O 25 de Abril, assim mesmo grafado, como se fosse uma simples data que se apõe a uma assinatura, mantém na sua sinalética primária o conceito de uma Revolução que desembocou numa Democracia e só por isso se trata do nosso marco histórico mais assinalável, pois que nos deu a Liberdade”.

O historiador António Borges Coelho, meu contemporâneo na Faculdade de Letras de Lisboa e um corajoso antifascista, refere com amargura: “Sobravam os analfabetos. No ensino primário, a régua e a cana-da-Índia eram instrumentos de trabalho, como o quadro, a ardósia, ou a pena de pendurar na orelha e molhar no tinteiro. Nas aldeias e vilas, para obter o ensino médio, recorria-se ao estreito corredor do seminário. E o Ensino Superior era para os ricos”.


Reconstituo o que Miguel Real, filósofo e escritor, de uma espantosa erudição, sublinhou acerca da Revolução dos Cravos, com este pequeno texto: “É impossível pensar, no dia 25 de Abril de 1974, sem ser possuído por um duplo sentimento: por um lado, o de júbilo, pelas realizações alcançadas, no campo social, no campo urbanístico, no campo da ciência, enfim, em todos os camp os que perfazem a totalidade da sociedade portuguesa, que sofreu um dos maiores impulsos de progresso de toda a sua história; por outro e simultaneamente, ser totalmente inundado por um sentimento de pesar, pelo que se poderia ter ainda realizado, no sentido de uma ética comunitária e não ser forçado a viver um autêntico regresso civilizacional nos costumes e na organização do Estado a que se assiste atualmente”. Fecho o JL e, sem a pretensão de dogmatizar a minha opinião, junto-me aos que celebram e aplaudem a Revolução anunciada pelo Medeiros Ferreira com os três DDD (Descolonizar, Democratizar, Desenvolver) - Revolução que deu um rosto novo a Portugal, pela honestidade sem limites dos militares de Abril e pela vontade do povo português, saturado do fascismo salazarista e caetanista. O futebol português beneficiou, com o 25 de Abril, de um maior cuidado na formação de jogadores, do profissionalismo e da vida sindical, da industrialização do futebol e dos novos licenciados em Desporto, pelas Universidades de Lisboa e do Porto.
O espaço de um pequeno artigo não me permite aprofundar o que ao futebol português trouxe a formação dos jovens, lavada a cabo, na Federação Portuguesa de Futebol, por Carlos Queiroz e Nelo Vingada. Mas todos nos lembramos das vitórias nos Mundiais de Sub-19, em 1989, na Arábia Saudita, e de Sub-20, em 1991, em Portugal. Destas seleções, que o Queiroz e o Vingada serviram, defenderam, dignificaram - saíram, para o futebol senior, jogadores de talento, como o Vítor Baía, Paulo Sousa, João Vieira Pinto, Fernando Couto, Hélio, Paulo Madeira, Figo, Peixe, Abel Xavier, Paulo Torres, Jorge Costa, Rui Bento e mais alguns. Entretanto, será de referir que o Carlos Queiroz e o Nelo Vingada são licenciados pelo Instituto Superior de Educação Física da Universidade Técnica de Lisboa (ISEF/UTL) e portanto tendo beneficiado do ensino universitário e d o convívio com Manuel Jesualdo Ferreira e David Monge da Silva (este, na década de 70 do século passado, o único especialista, em Portugal, em treino desportivo).

Como estou convicto que José Maria Pedroto foi dos primeiros treinadores a repensar o futebol, após o 25 de Abril, aqui deixo à sua memória uma palavra de saudade. Ele conduziu-me a questões que, hoje, muitos dos treinadores mais conhecidos não parecem capazes de levantar. “O que lhe parece errado, no treino desportivo?”. “Por que diz que não existe Educação Física?”. “Quem foi esse tal Descartes de que tanto fala? Eu ouvi falar dele, no liceu, mas hoje já nem sei quem ele é”. Em Lisboa, no ISEF, e no cérebro de José Maria Pedroto nasceu um treino desportivo novo, em Portugal..

“Hoje, o futebol português, não só a nível de clubes como da equipa nacional, é extremamente respeitado, em todo o mundo. O campeonato português é dos 7 mais competitivos da Europa (…) e um dos 10 mais competitivos do mundo. A selecção nacional, por sua vez, é uma das equipas mais temidas do globo” (Ricardo Serrado, História do Futebol Português – do 25 de Abril à actualidade, Prime Books, Lisboa, 2010, p. 403). É português o melhor árbitro do mundo, Pedro Proença. São portugueses Luís Figo e Cristiano Ronaldo, dois dos melhores jogadores da História do Futebol. É português o melhor treinador do mundo, o José Mourinho, atual treinador do Chelsea.

Indiscutivelmente, o 25 de Abril foi benéfico ao nosso “desporto-rei”. Há cenários de crise, na vida social e política portuguesa? Os fatores de desmoralização encarniçaram-se sobretudo entre a juventude, forçada a emigrar, para não descambar no desemprego? Aos treinadores e aos jogadores portugueses não lhes falta colocação, nos clubes estrangeiros. Contemplei deliciado o futebol do José Travassos, do Rogério (o “Pipi”), do Matateu, do Hernâni (F.C.Porto), do Coluna, do Eusébio, etc., etc. Eram elegantes no estilo e fulgurantes na vivência da cultura tática das suas equipas. Todos eles escreviam belos trechos de prosa e poesia futebolísticas, atendendo à sua linguagem corporal de extraordinários jogadores. Mas não tiveram o apoio do que o 25 de Abril trouxe: o progresso técnico e tenológico, que chegou ao próprio treino desportivo. E, sobre o mais, a organização dos clubes, onde trabalham especialistas de várias áreas do conhecimento. O 25 de Abril chegou também ao futebol português. Chegou, ou seja, ainda tem muito que fazer (não sei se digo isto com um ligeiro véu de melancolia a embaciar-me o olhar).

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