SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Os cem anos da FPF: em Portugal também há progresso? (artigo Manuel Sérgio 23)
23:56 - 06-04-2014
Manuel Sérgio
Em finais da década de setenta, na Corunha, em Espanha evidentemente, comprei o livro (das Ediciones Sígueme, Salamanca) A la busqueda del sentido, de que são autores Herbert Marcuse, Karl Popper e M. Horkheimer. O Herbert Marcuse que, “in illo tempore”, parecia vomitar excessos, escreveu nesse livro: “Afirma-se por aí, pondo a afirmação na minha boca, que a sociedade altamente desenvolvida do capitalismo tardio deixou de ser uma sociedade de classes (…).

A verdade é que, nos últimos anos, a diferença de proventos e de mordomias entre os ricos e os pobres aumentou (…). E tanto mais de surpreender este facto quanto é certo que a enorme riqueza social produzida poderia, realmente, erradicar a pobreza e o trabalho alienado da face da Terra”. Por isso, continua o filósofo: “a revolução, no século XXI, não pode nascer da pobreza (material, intelectual, moral) que o capitalismo vai criando. Até porque as reformas, insistentemente apregoadas pelos governos, nunca ultrapassam os limites que o Capital consente e os pobres são, assim, formatados para pensarem de acordo com interesses que não são os seus”.

Estas palavras continuam atuais. Com efeito, subjugados à classe dirigente e dominante, que encarna o “pensamento único” de um capitalismo superior ao tempo e à história - aos explorados e marginalizados nada mais resta do que viverem atentos, veneradores e obrigados das migalhas que, de quando em vez, tombam das mesas dos seus patrões e senhores. Herbert Marcuse acreditava, por isso, que a revolução não poderia surgir à maneira da União Soviética do Estaline ou da Cuba dos Castros, mas por um “movimento estudantil”, sem as conversas suporíferas de um qualquer “controleiro” e capaz de fazer a autópsia dos cadáveres do capitalismo e do socialismo, que nos têm governado.

Pode ensinar-se a pensar o futebol? O que predomina, no “desporto-rei”, neste âmbito do pensar, é o consumismo e a comercialização de meia-dúzia de “ideias feitas”. R. Musil, no seu livro Da Estupidez, declara, sem tibiezas: “Não existe um único pensamento importante que a ignorância presumida não saiba imediatamente utilizar, movendo-se em todas as direções e assumindo mesmo todas as aparências da verdade. Por isso, o caminho da verdade é muito difícil: está sempre prejudicada à partida”. Com efeito, é tamanho o poder informativo destes ignorantes, mas repentistas e improvisadores retóricos, que deixa os incautos na persuasão que o desporto não passa de um saber de franciscana pobreza, em confronto com uma copiosa bibliografia de livrinhos e livrecos, onde os panegíricos hiperbólicos e glorificadores pretendem substituir o senso crítico, a probidade, a isenção e o estudo. Para muita gente, portanto, há o futebol e o resto.

Ora, o futebol movimenta-se em subordinação estrita ao resto, quero eu dizer: à ideologia e ao sistema económico dominantes. A diferença entre os clubes ricos e os clubes pobres é também enorme (enormíssima) e, se bem venho entendendo as palavras do generoso presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF), Dr. Joaquim Evangelista, em mais de metade dos clubes portugueses, com futebol profissional, os jogadores recebem os seus vencimentos, com atrasos de dois, três e quatro meses. Há bem poucos dias, o treinador principal de um clube da 2ª B e antigo e conhecido jogador profissional de futebol me confessava que era de 500 euros mensais o que auferia pelo seu trabalho. Adiantando, compreensivelmente, que sentia dificuldades em manter dois filhos, no ensino universitário.

Nos cem anos da FPF, há assuntos a ter em conta, para além da “construção civil” ou da “arquitetura”, em obras que não se contestam, mas que não podem ser o essencial do trabalho de uma Associação ou de uma Federação. O essencial é uma cultura de paz e uma organização que não permita situações próximas da miséria de muitos “agentes do futebol”. Porque tudo é instrumental em relação ao ser humano. Adorno já afirmou que a filosofia “perdeu a esperança da totalidade”. E, porque se perdeu a esperança da totalidade, o homem é meio e a megalomania de alguns dirigentes é o fim. Hoje, em Portugal, em muitos clubes, mais importante do que o respeito pelo trabalho dos jogadores de futebol situa-se uma certa política onde os valores de forte caráter humanizante – não existem! E um desporto sem estes valores não é desporto – é uma mentira, comandada e propalada pela indolência mental de algumas pessoas. Eu sei que a prudência me aconselha a que me desvie cautamente de um assunto pouco oportuno, em ano do Mundial do Brasil. É bem mais fácil, bem mais cómodo exaltar a excelência do futebol do Cristiano Ronaldo e dos seus colegas de equipa, ou a “sagesse” do Paulo Bento e da sua equipa técnica. Mas como esquecer que o nosso futebol se encontra num estado de pobreza económica estrutural? Pode haver crescimento ou progresso, quando a miséria se instalou no futebol português? Há interrogações que estão vivas, dolorosamente vivas, no nosso futebol. E que não podem calar-se, designadamente o provedor da Ética no Desporto.

Segundo se diz, a Federação Portuguesa de Futebol não sofre de quaisquer carências económicas. Nos drs. Gilberto Madail e Fernando Gomes deverá saudar-se a ciência e a consciência de dois economistas e gestores de indiscutíveis méritos. Mas não acaba neles, nem na sua política, o futebol nacional. Para muitos “agentes do futebol”, o nosso “desporto-rei” vive uma “apagada e vil tristeza”. É estranho? Eu digo que não. Numa sociedade de classes, há classes. Quero eu dizer: há ricos e pobres, mulheres, homens e instituições! Mas termino, realçando as palavras de Gustavo Pires, na revista do SJPF: “O futebol é uma das poucas coisas que de positivo acontecem no País. Hoje, a seleção nacional de futebol faz mais pelo País que todos os ministros dos Negócios Estrangeiros juntos alguma vez fizeram”. Faço minhas as palavras do meu amigo Gustavo Pires, homem culto, como poucos o são, no nosso desporto, acrescentando que há mais mundo, para além do mundo da política e dos políticos, que aliás pretendem até colocar fora da discussão pública esta problemática, reservando-a a ser discutida em meios fechados e restritos.

“A sociedade pós-moderna é esplendorosamente decente, como os libertinos definiam a decência: a exibição das convenções, das virtudes e da lei, para melhor praticar o deboche” (Manuel Augusto Araújo, “Economia e Cultura, na Sociedade Pós-Moderna” in Vértice, Março-Abril de 2008). No entanto, no meu humanismo, que procura ser imparcial e crítico, cabe sempre uma palavra de respeito e gratidão pelos dirigentes que criaram a FPF – e a defenderam e defendem, contra ventos e marés! E com uma veemência de amor, ideal e entusiasmo, onde há muito de um admirável misticismo patriótico.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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