QUINTA-FEIRA, 30-03-2017, ANO 18, N.º 6270
Ética no Desporto
José Medeiros Ferreira: o desportisra, o político, o intelectual (artigo Manuel Sérgio 21)
23:11 - 23-03-2014
Manuel Sérgio
Faleceu, no passado dia 18, deste primaveril mês de Março, o José Medeiros Ferreira, meu colega de curso, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Era eu então (primeiros anos da década de sessenta) funcionário do Arsenal do Alfeite e, ao abrigo do artigo 4º. do Decreto 19478, podia frequentar as aulas dois dias, por mês. Só que estes dias eram-me descontados nas férias e, assim, durante doze anos (os anos que levei, como trabalhador-estudante a fazer o liceu e a licenciar-me) nunca me foi concedida, anualmente, mais do que uma semana de licença graciosa. Não foi casualmente que conheci o Medeiros Ferreira, «caloiro» como eu. Ele distinguia-se, pelo seu sorriso aberto, talvez até ingénuo e uma ou outra piada que pareciam manifestar uma sabedoria acumulada, ao longo de muitos anos de vida, quando ele, de facto, era um jovem de 18 anos de idade. Aproximei-me do Medeiros Ferreira e, possivelmente ridículo, lancei-lhe a pergunta: «Onde nasceste?.» Na sua radiante simpatia, deu-me a resposta: «Nasci, na Madeira, mas sou açoreano.» Calou-se um segundo e acrescentou pausadamente. «E também sou benfiquista.»

Pelo futebol, ganhei força para uma conversa mais demorada - conversa que nunca mais acabou até ao fim dos seus dias! Foi um dos grandes amigos que a vida me deu. E um exemplo de cidadão, de intelectual, de político. Um dia, caminhávamos ambos (bem me lembro), indiscretos e alegres, em direção ao Estádio do Restelo, para vivermos (vivermos, tensa e intensamente) um Belenenses-Benfica, e eis que me fez esta confissão inesperada e sentimental: «Não sei o que sinto pelo Benfica. Se calhar é amor!»
No entanto, amando o Benfica, sentou-se e viveu ao meu lado um jogo de futebol do seu Clube, sem deixar de aplaudir as defesas do guarda-redes do Belenenses, nem o golo dos «azuis» (perdemos, por 1-2). Findo o jogo, não pude reprimir uma palavra de admiração: «Que encantador era um jogo de futebol, com espectadores, como tu!». E, de emoção contida, prossegui: «É que eu senti que tu sofreste e, mesmo assim, não deixaste de aplaudir o que de bonito fizeram os jogadores do Belenenses». E rematei, a sorrir: «És uma avis rara!»

Era, de facto (repito-me) um desportista, um intelectual, um político, um cidadão, sem mácula. Quando regressou do exílio, não se esqueceu de telefonar ao seu velho amigo: «Manel, vamos reiniciar as nossas conversas. Não digo a nossa amizade, porque essa, tenho a certeza, nunca morreu.»

E, frequentemente, almoçávamos (almoços houve em que foi nosso conviva o Homero Serpa) e fazíamos longos telefonemas, que a Dra. Maria Emília, sua esposa, não deixou de me referir, com simpatia, no Palácio Galveias, ao apresentar-lhe os sentidos pêsames: «Quando os vossos telefonemas eram mais espaçados, eu até estranhava.»

No Palácio Galveias, encontrei e abracei o Prof. Eurico de Figueiredo, meu contemporâneo na Assembleia da República e psiquiatra ilustre, que eu conheci, pessoalmente, ele, em Medicina, nós, o Zé e eu, em Letras, no refeitório da Cidade Universitária, nos idos anos da década de sessenta. Disse-me ele: «Estamos aqui a homenagear o profeta dos três D (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Lembra-se?»

Lembrava-me e lembro-me perfeitamente. Foi a tese do José Medeiros Ferreira, apresentada ao Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, corria o mês de Abril de 1973, na qual ele anteviu o papel primordial, na Revolução dos Cravos, das Forças Armadas – que aliás fariam dos três D o guião do programa do MFA. E (sirvo-me agora das palavras de António Reis) «por sobre tudo isto, como esquecer o prazer do nosso convívio, com as tuas piadas certeiras, as tuas estórias, o teu humor tão fino quanto sarcástico, a tua propensão para as profecias histórico-conjunturais, tantas vezes, aliás, certeiras» (O Longo Curso – Estudos em Homenagem a José Medeiros Ferreira, Lisboa, 2010, p. 23).

Neste mesmo livro, o general Pedro Pezarat Correia, um militar distinto, professor universitário e também oposicionista à ditadura, escreveu: «Cruzam-se na multifacetada personalidade de José Medeiros Ferreira diversas dimensões do cidadão interventivo e do intelectual atento e, porque atento, preocupado com o mundo que o rodeia. Do historiador por vocação e por formação académica ao político militante por opção de vida, do investigador por necessidade de encontrar respostas para as suas inquietações ao divulgador, ensaísta, professor, conferencista, colunista, comentador, tem sido sempre um homem do seu tempo» (P. 25).

Vítor Serpa, escritor e jornalista e seu admirador e amigo, distinguiu nele «a cultura e a independência». (A Bola, 2014/3/22). Aqui e agora, quero salientar o amigo e o desportista.

O amigo? O amigo, de facto, que ainda em Maio do ano passado, se sentou entre os alunos de um seminário de que fui o único docente, no Museu Nacional do Desporto, durante o qual teve a bondade de afirmar, de viva voz: «A tese que defendes e criaste merece o meu aplauso público. E por isso aqui estou.»

Querido amigo, muito obrigado! Continua a haver, no que faço como «aprendiz de filosofia», um pouco dessa tua inteligência que nos deixaste em rasto e tantas vezes me revelaste. Como desportista, o grande poder de vida, colorido e relevo do teu comportamento moral; o prudente espírito crítico, bem longe de um clubismo faccioso, adulterador dos factos; a tua tolerância, tão profundamente humana, que tudo compreendia à luz da razão serena – mereciam (merecem) um estudo visando provar, de forma convincente e definitiva, de que o amor a um clube (como o teu, em relação ao Benfica) não se confunde com qualquer antipatia pelos clubes adversários, com o desrespeito pela missão do árbitro, com os que proclamam a liberdade para abafarem a liberdade dos outros. Querido amigo, foste dos grandes «peritos em humanidade» que eu conheci, ao longo da minha vida... que já nâo é curta! Se houver céu, relembro o poema do poeta brasileiro: tu, pedindo licença, para entrar. E a voz acariciante de Deus: «Entra, amigo! Você não precisa pedir licença!»

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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