SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Ética no Desporto
Nossos contemporâneos (artigo Manuel Sérgio 20)
17:26 - 18-03-2014
Manuel Sérgio
Nossos contemporâneos são todos aqueles autores que são nossos companheiros nas investigações que encetámos... tenham esses autores a idade que tiverem, sejam vivos ou mortos até; nossos contemporâneos são, entre outros, Jesus, Sócrates, Aristóteles Descartes, Espinoza, Voltaire, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Foucault, enfim todos aqueles que nos apontam caminhos novos.

Conta Ludwig Wittgenstein que, muitas vezes, no ato de investigar, nos encontramos perdidos, como alguém que, num deserto imenso, procura uma casa habitada, onde possa descansar e alimentar-se. Com muita felicidade, encontra um pastor que se dispõe a procurar com ele o caminho para uma estalagem. Ao fim de algumas horas de viagem pedestre, o pastor parou e disse-lhe: «Agora, procura tu o caminho da estalagem.»

De facto, a partir de determinada altura, devemos ser nós a investigar, sem a ajuda de ninguém. Todo o investigador sente-se perdido, no meio de dúvidas sem conta. Mas é ele, só ele, que pode chegar à estalagem que se procura, porque mais ninguém, por ele, pode fazer o que lhe compete. Um grande autor, a partir de determinada altura, não tem que mostrar que conhece o que os outros pensam, mas que sabe pensar. Roland Barthes diz-nos que não interessa tanto chegar a um porto seguro, mas que o nosso trabalho aumente a solidez do caminho iniciado. Há centenas de teses nas universidades, onde se procura a exatidão, principalmente através da quantificação da realidade. Só que a lucidez dos doutores e dos mestres parece não aumentar. De facto, temos sido formados por uma ciência que se diz exata, que não aceita desvios, que desconhece os possíveis. E assim o novo não acontece. Ora, o progresso nasce do novo.

A palavra complexidade encontrei-a eu, pela vez primeira, se não estou em erro, em Gaston Bachelard, há mais de quarenta anos atrás. E foi a partir das palavras complexidade e totalidade (esta aprendi-a no vocabulário hegelo-marxista) que me pareceu errado um treino que radicava, principalmente, no preparo físico e esquecia que o ser humano é uma complexidade corpo-mente-sentimento-natureeza-sociedade. Poucos me compreenderam. Confesso que eu também nada percebia de treino desportivo, mas talvez por isso mesmo não me deixei contaminar pelo «automatismo dos hábitos» (Michel Foucault) e pude ver e falar diferente. Numa das peças de Beckett, há o diálogo seguinte: «Por que não se vai embora?» E a resposta: «Porque não posso ir-me embora sem as minhas coisas.» Nova interrogação: «E para que servem as suas coisas?.» Nova resposta: «Para nada.» E uma interrogação ainda: «E não pode ir-se embora, sem elas.» Como conclusão final: «Não!.»

De facto, o que sabemos, muitas vezes, não serve para nada, mas é qualquer coisa que já faz parte de nós mesmos. É evidente que o ser humano não é físico tão-só e, assim, a preparação do atleta não pode ser física apenas. Aliás, a preparação do atleta começa na organização e gestão dos clubes e portanto em dirigentes e treinadores, com sabedoria e saber. Há-de ser complexa a preparação do atleta, atendendo à complexidade que o Homem é e em que vive. O escritor Gonçalo M. Tavares costuma dizer que o nosso corpo é constituído pela carne (fisiologia viva) e pelo incorpo (as ligações que a carne estabelece com o mundo). É evidente que, quanto mais o corpo se limita à carne, menos lúcida será a sua motricidade. Um corpo não é carne tão-só. É que um corpo que se limita à carne é facilmente manipulado, torna-se previsível e de uma disponibilidade acéfala. Há um livro de Peter Sloterdijk, intitulado Mobilização Infinita (Relógio d’Água, 2002) onde se fala de uma cinética filosófica, a qual decorre da resposta a perguntas como estas: diante de um desastre, qual a tua velocidade? Diante da mão que se estende, pedindo-te ajuda, qual a tua velocidade? Julgo que no desporto deveria emergir também uma cinética filosófica, decorrente da resposta a perguntas, como estas: no desporto que fazes, o praticante é meio ou é fim? O Desporto que fazes é um dos aspectos do desenvolvimento do teu país?... Ou seja, é preciso fazer do desporto uma ética em acção ou (como diz Peter Sloterdijk) uma cinética filosófica. O desportista, conforme diz este mesmo autor, deveria ser alguém «que não pode descansar enquanto o melhor não for a realidade». Estar parado, diante da falta de progresso e de desenvolvimento, é imoral!

Por tudo o que venho de escrever se infere que nossos contemporâneos são todos aqueles autores que hoje nos fazem pensar. Aqui citei Wittgenstein, Roland Barthes, Michel Foucault, Beckett, que já faleceram. Só que contemporâneos nossos são todos aqueles autores que, vivos ou mortos, nos fazem pensar... hoje! O Padre Manuel Antunes, meu professor na Faculdade de Letras de Lisboa, escreve, no seu livro Grandes Contemporâneos (Editorial Verbo, Lisboa, 1973): «Contemporâneo nosso é aquele que ainda nos fala. Contemporâneo nosso é aquele que, de tão fundo ter descido ao abismo do humano, continua a iluminar-nos com a sua descoberta, a instruir-nos com o seu discurso, a acompanhar-nos com a sua irmandade (p. 7).»

Recordo o Fernando Vaz, jornalista de A BOLA e treinador de futebol e ainda pessoa de uma invulgar cultura literária. Sempre que nos encontrávamos, no bar do Hotel Tivoli, em Lisboa, ele trazia consigo um livro de um escritor conhecido e comentava: «A leitura de livros, como este, é indispensável a um bom treinador de futebol.» Fernando Vaz, nosso contemporâneo!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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