QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
O nome da rosa (artigo Manuel Sérgio 13)
00:19 - 23-01-2014
Manuel Sérgio
Li, como toda a gente, O nome da rosa de Umberto Eco. A história passa-se na Idade Média e o autor conta-nos como um monge de nome Guilherme de Baskerville, acompanhado do jovem Adso (que só depois de velho narra o que viu) quer descobrir uma morte estranha, numa abadia do norte da Itália – morte que é a primeira de uma série de sete, que Baskerville interrompe ao desmascarar o culpado. No centro da abadia, levanta-se uma enorme biblioteca, considerada a mais importante e completa de toda a cristandade.

Durante a investigação, Guilherme de Baskerville encontra-se em concorrência com a Inquisição e com o seu incontornável representante Bernard Gui, o qual defende que os hereges são os homicidas que Guilherme procura, designadamente os seguidores de Dolcino, o criador de uma seita hostil ao papado. Consegue, através de horrendas torturas, arrancar confissões, favoráveis à sua tese, a vários monges. Mas não convence Baskerville.

Este a conclusão a que chega é bem diversa: conclui que as mortes não são obra de hereges e que os monges morrem, ao tentarem ler um livro misterioso, ciosamente guardado na biblioteca. A cena final do livro põe frente a frente Baskerville e o assassino, um cego que era um dos monges mais velhos da abadia. Desmascarado, o assassino faculta ao investigador o livro que já havia provocado sete mortes. Tratava-se do segundo volume da Poética de Aristóteles (384-322 a. C.), uma obra desconhecida até então e na qual o Estagirita faz uma profunda reflexão, chegando mesmo a abordar a questão do riso. Acusado por Baskerville, Jorge, o assassino, tem um comportamento estranho e, em vez de esconder o livro, aconselha ao investigador a sua leitura.
Baskerville começa a leitura do livro, mas muniu-se de um par de luvas, pois que descobriu que as páginas do livro se encontravam envenenadas, com um líquido que nelas deitara o monge criminoso. E não escondeu a questão seguinte: por que pretendia ele matar os monges que lessem a Poética de Aristóteles? A resposta foi esta: porque o livro falava do riso e o riso é o contrário da fé, das tradições, dos bons costumes, designadamente o riso contestatário. Pergunta-lhe Guilherme: Mas quais são os efeitos perniciosos do riso?... Responde Jorge: “O riso é a fraqueza, a corrupção, o amolecimento da nossa carne. É a diversão para o camponês, a licença para o alcoólico e até a Igreja instituiu o Carnaval, espaço de muitos crimes e vícios. Portanto, o riso não passa de uma coisa vil (...)”.

Mas Baskerville queria saber mais: Se há tantos livros que falam do riso, da alegria, por que só este lhe inspirava tamanho terror? Declara o criminoso: “Porque era do Filósofo (Aristóteles). Cada um dos livros desse homem destruiu uma parte da ciência que a cristandade tinha acumulado, ao longo de séculos. Os primeiros Padres transmitiram-nos o que era preciso saber, para sempre, sobre o poder do Verbo e bastou que Boécio comentasse o Filósofo para que o mistério do Verbo divino pudesse ser questionado e parodiado. O livro do Génesis diz-nos o que é preciso saber sobre a composição do cosmos e bastou a Física do Filósofo para tudo o que nos foi ensinado fosse repensado. Cada palavra do Filósofo, em que (pasma bem!) há bispos e papas que acreditam, é um perigo para a cristandade”. Jorge faz do livro de Aristóteles o pretexto das suas angústias, diante dos problemas da Igreja. Baskerville, ao invés, não teme o riso, nem a crítica, pois que chega mesmo a pensar num cristianismo sem as taras dos tradicionais, dos repetidores, dos incapazes de uma luta áspera contra o vencidismo.

Como se vê, o riso, o anedotário, a mordacidade intencional dos dissidentes, dos críticos, dos resistentes, dos heréticos, que se opõem a qualquer cartilha ortodoxa, escrita “per omnia saecula saeculorum”, é considerado um perigo, pelos dogmáticos, pelos conservadores, pelas instituições envelhecidas. Há muitos séculos, como hoje. Por isso, se as Faculdades de Motricidade Humana, ou de Desporto, querem contribuir ao progresso do desporto em geral e do futebol em particular, têm de saber estremar o trigo do joio: o joio dos que dizem hoje, “ipsis verbis”, o que já aprenderam, há muito tempo, numa palavra só: os “sebenteiros”; o trigo dos que, humildemente, fazem suas as palavras de Sócrates: “só sei que nada sei”. O futebol precisa dos cursos superiores de Desporto, desde que deles ressalte um saber onde a maior saliência do magistério dos professores seja a insatisfação e a dos alunos a criação de um território, arvorado em independente, aberto aos heréticos a quem se fecham todos os lugares. José Maria Pedroto, o treinador de futebol que anunciou o F.C.Porto vitorioso da década de 80, disse-me um dia, após ler um texto de que sou autor e onde procurei acentuar que nada sabe de futebol quem só sabe de futebol: “Não queira saber o que essa gente é. Não têm uma conversa em condições. E depois querem ser treinadores de futebol”.

Porfiando na pesquisa, na insatisfação, na qualidade que sempre se procura, é bem possível que da universidade possa nascer um futebol novo. E qual a novidade científica que a universidade pode apresentar ao futebol (de Portugal e não só)? O futebol é um dos aspectos da motricidade humana e, como tal, é no âmbito das ciências sociais e humanas que deverá procurar-se o seu paradigma e a sua metodologia. Quem ainda não entendeu isto, duvido que possa transformar-se num grande treinador de futebol. Que bom que seria que o futebol fosse só técnica ou tática ou condição física! Se assim fosse, todos poderíamos ser treinadores de futebol. Mas não é...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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