DOMINGO, 25-06-2017, ANO 18, N.º 6357
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Cristiano Ronaldo: agilidade física ou intelectual? (artigo Manuel Sérgio 12)
00:11 - 15-01-2014
Manuel Sérgio
Ao Jorge Mendes consideram-no as pessoas entendidas e as instituições responsáveis o melhor agente de futebol, no mundo. Ninguém se atreve, no orbe terráqueo, a duvidar de que Jorge Mendes é o empresário mais influente no futebol – ele, que é empresário do Cristiano Ronaldo, do José Mourinho e outros famosos (famosíssimos) do futebol. Mas também não há voz dissonante quanto à notoriedade do CR7, em relação a qualquer outro “agente do futebol”.

Ele é o mais louvado, o mais aplaudido, o mais desejado de todos os fazedores do futebol atual, sejam eles jogadores, dirigentes ou treinadores. Ora, ele, o Cristiano Ronaldo, é português. E, para muita gente, por esse mundo além, o português mais conhecido e de prestígio mais retumbante. Daí que se aceite, sem surpresa e com agrado, a sua condecoração, pelo Presidente da República Portuguesa, com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Demais, para o presidente da F.P.F., ele é um exemplo para as novas gerações, pela sua tenacidade, pela sua capacidade trabalho, pela sua vontade de vencer, principalmente em tempos, como o nosso (acrescento eu) em que persiste um sentimento generalizado de insegurança. A crise económica descontrolada, a incerteza das instituições, o desprestígio dos governantes não deixam adormecer ninguém, com tranquilidade. E o cidadão vulgar, tratado pelos oportunistas e os jogos partidários, como analfabeto e de menoridade, continua à espera de mais Cristianos Ronaldos. E não só no futebol. Diante dos equívocos em presença, diante dos vendedores de ilusões, diante dos nefastos manipuladores da opinião pública, um vencedor faz-nos falta e que timbre em conhecer o povo para servi-lo melhor.

É verdade o que diz o presidente da F.P.F.: o Cristiano Ronaldo é um exemplo! Mas exemplares foram também o Sporting Clube de Portugal, o Manchester United e o Real Madrid, que lhe proporcionaram os recursos materiais e humanos, que lhe apontaram os valores, necessários à sua formação de homem lúcido e jogador superdotado. O atleta “fora-de-série” nasce com invulgares qualidades físicas e intelectuais. “Krechevsky e Gardner relembram-nos que o desenvolvimento das inteligências, nos diferentes indivíduos, reflecte uma combinação de influências ambientais e factores hereditários. Por outras palavras, e apesar de as inteligências terem origem num potencial biológico, para compreendermos a competência real de cada indivíduo também é necessário ter em consideração o contexto cultural no qual ele trabalha” (AA. VV., Inteligência – perspectivas teóricas, Almedina, Coimbra, 2009, p. 139).

O ser humano é sempre e em todas as circunstâncias uma complexidade. Nasce com uma determinada vocação. Vocação insofismável. Mas tudo o que ele potencialmente é (“uma colectânea de aptidões”) precisa de ser acarinhado, cultivado, desenvolvido. Para que o pinto não morra na casca, usando as palavras do Palito Métrico. Sou do tempo em que o meu Clube, o Belenenses, beneficiava do concurso de um dos maiores futebolistas portugueses de todos os tempos, o Matateu. E recordo também a preocupação do Acácio Rosa, nos nossos pequenos ócios pós-prandiais (ele, como empresário do calçado; eu, nos meus primeiros anos de professor do secundário) quando comigo desabafava: “O Matateu não precisa que o ensinem a ser futebolista. Precisa que o ensinem a ser homem”. E continuava: “Você já viu jogador mais inteligente do que ele, dentro do campo? E por que não é ele tão inteligente, fora do campo, ao longo da vida?”.

A resposta era simples, mas nem o Acácio, nem eu, a sabíamos dar, naqueles distantes anos: é um homem que se prepara, quando se prepara um campeão. Hoje, nos departamentos técnicos de futebol das principais equipas (não me refiro a outras de menores exigências), com médicos e enfermeiros e fisiologistas e metodólogos do treino, especializados; com tecnologia de ponta; com treinadores informados – não há jogadores mal preparados fisicamente, ao contrário do que a ignorância de alguns comentadores constantemente acentua. Há, de facto, jogadores com problemas humanos que lhes roubam a força psicológica, o ar vivificante, o ânimo, a vontade, indispensáveis a quem faz alta competição, a quem não se pede menos que tudo.

Uma crítica hodierna ao desporto (criticar, etimologicamente, é discernir, julgar, avaliar) deve ter em conta a contradição dialética de ele poder ser um poderoso instrumento, para desnudar e até desfazer alienações e poder descambar nas alienações que diz exautorar. Os cientistas pouco ligam a temas, como este. Só que um campeão desportivo, se se analisa só ao microscópio, como uma bactéria, continuamos sem saber quem ele é e o que vale. Mais decisivo, para o campeão, do que o biologismo de muitas sessões de preparação física, é um ideal de vida, onde aprenda a respeitar e a respeitar-se. E ainda: que a confiança em si próprio é a essência dos êxitos inesquecíveis. E sobretudo que, por esse mundo além, há, embora poucos, mais Cristianos Ronaldos – mas sem pão, sem cuidados médicos, sem amor. Bem mais importantes, para eles, nas atuais circunstâncias, do que um jogo de futebol.

No entanto, saudemos o Cristiano Ronaldo, o maior jogador de futebol da hora presente, que personifica simbolicamente um Portugal de maior prosperidade e progresso. E o que distinguir nele a agilidade física, ou intelectual? Tanto a agilidade física como a agilidade intelectual! Mas lutemos todos (ele e nós) por um mundo outro, onde o CR7 poderá ser ainda melhor do que hoje é! E nós também!

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