QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Eusébio tem lugar indiscutível no panteão nacional (artigo Manuel Sérgio 11)
00:38 - 13-01-2014
Manuel Sérgio
Publiquei, em 1981, um livrinho que intitulei Filosofia das Actividades Corporais (Compendium, Lisboa) e que o Prof. José Barata-Moura fez-me o favor de prefaciar, onde preconizei uma rejeição do dualismo antropológico cartesiano, por vários motivos e mais este: o dualismo corpo-alma é o reflexo do dualismo político senhor-servo. Mas não esqueci também de referir que a tradição órfico-pitagórico-platónica, cristianizada por S. Agostinho, permitiu a José María Escrivá, primeiro presidente do Opus Dei, pudesse escrever no livro Caminho (Editorial Aster, Lisboa, 1957), que lhe grangeou farto prestígio, em certos meios católicos, verdadeiros disparates, como estes: “Acertou quem disse que a alma e o corpo sâo tais inimigos que se não podem separar e dois amigos que se não podem ver” (p. 51). E, na página seguinte: “Ao corpo há que dar-lhe um pouco menos que o preciso – senão atriçoa”. Transcrevo mais três pensamentos do Padre Escrivá, reveladores de um espiritualismo angelista e agressivo: “1. Diz ao teu corpo: prefiro ter um escravo a sê-lo teu. 2. Trata o teu corpo com caridade, mas não com mais caridade do que a que se tem com um inimigo traidor. 3. Se sabes que o teu corpo é teu inimigo e inimigo da glória de Deus, por sê-lo da tua santificação, por que o tratas com tanta brandura?”. Julgando-se em sintonia com o melhor da inspiração evangélica, o catecismo católico ensina ainda às crianças que os três grandes inimigos do Homem são o mundo, o diabo e a carne. Assim, se o cristianismo informou a nossa cultura, através da Igreja e se a Igreja, até meados do século XX (embora o Padre Teilhard de Chardin), sempre olhou o corpo com desconfiança incontida (as Cartas aos Novos, do Cardeal Cerejeira são disso prova evidente) – as práticas corporais, porque não tinham lugar de relevo na teologia católica, apostólica, romana, não o tinham também no nosso sistema educativo.

Por outro lado, os nossos intelectuais, mesmo os progressistas, tinham do espetáculo desportivo e dos seus intérpretes, designadamente os advindos de famílias pobres, uma opinião depreciativa. De facto, o José Travaços (o Zé da Europa), o Manuel Vasques (/o Malhoa), o Mariano Amaro, o Francisco Ferreira, o Rogério (o Pipi), o Matateu, o Félix (o Pantufas), o Barrigana ( o das mãos-de-ferro), o Araújo, o Virgílio (o leão de Génova), o Hernâni Ferreira da Silva, etc., etc. não eram amigos, ou conheciam mesmo, o António Sérgio, o Leonardo Coimbra, o Jaime Cortesão, o Egas Moniz, o Polido Valente, o Reynaldo dos Santos, o Sílvio Lima, o Delfim Santos, o Vieira de Almeida; não sabiam do lugar da Seara Nova, ou dos jornais República e Diário de Lisboa, na vida cultural portuguesa; não entendiam bem por que o Cândido de Oliveira queria, como seu colaborador n`A Bola, o João Gaspar Simões que de futebol nada sabia. No entanto, nenhum cientista, ou literato, ou filósofo, tinham por si, como os mais prestigiados jogadores de futebol, o entusiasmo, admiração, vassalagem da paixão popular, designadamente daqueles que podem dizer o que pensam, sem a pressão cominatória do dinheiro, do partido ou de quaisquer influências sectárias. Também, hoje, se pode dizer outro tanto de Eusébio, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos: foi a soberania popular que prestou aos restos mortais do Pantera Negra uma homenagem que certamente não prestaria a mais ninguém, em Portugal. Não é verdade que, em democracia, o povo é quem mais ordena.

O dia 7 de Janeiro de 2014 mais confirmou uma frase que eu venho repetindo, há muitos anos: o desporto (mormente o futebol) é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo. È verdade: as práticas culturais, como o desporto e a dança, são cultura; o corpo é cultura e portanto o Eusébio (como o Carlos Lopes, a Rosa Mota, o Cristiano Ronaldo e mais alguns) são agentes culturais de extraordinária valia.

“Eu sou meu corpo” é uma frase de Vergílio Ferreira que não se esquece. Alvejar com flechas de desdenhosa ironia estes atletas só porque não foram escritores ou cientistas, de relevo – é manifestar que há pessoas, entre nós, que ainda não ultrapassaram o dualismo antropológico cartesiano, ou seja, que se julgam mais racionais ou inteligentes, do que os mais relevantes praticantes do desporto português, dado que coabitam mais intimamente do que eles com a cultura literária e científica. Ora eu duvido que estes megalómanos polemistas sejam mais inteligentes do que o Eusébio, ou a Rosa Mota, ou o Carlos Lopes, etc., etc.. Segundo a teoria das inteligências múltiplas (cfr. H. Gardner, Frames of mind. The theory of multiply intelligence, que eu li em tradução castelhana), não há só um tipo de inteligência, mas vários: a lógico-matemática, a musical, a linguístico-literária, a espacial, a corporal-quinestésica, a intrapessoal, a interpessoal, a naturalista, a existencial e a espiritual. Cada um de nós beneficia de uma delas, sem exclusão das outras, mas estas em grau bem menor. Os atletas superdotados, ao invés de um escritor, por exemplo, usufruem de uma inteligência corporal quinestésica superior às demais. Feitas as contas, não escandaliza que possa concluir-se que o Eusébio é tão inteligente como o José Saramago. Ambos, cada qual à sua maneira, foram, de facto, muito inteligentes. É a ciência mais recente a dizê-lo.
Merece um lugar, no panteão nacional, o Sr. Eusébio da Silva Ferreira? No meu modesto entender, merece-o, inteiramente. Por todos os motivos e mais este que venho de referir.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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