SEXTA-FEIRA, 09-12-2016, ANO 17, N.º 6159
Eusébio
EUSÉBIO (1942-2014)
Morreu Eusébio
08:01 - 05-01-2014
Eusébio da Silva Ferreira, 71 anos, morreu na madrugada de domingo, dia 5, por volta das 3.30 horas, vítima de paragem cardiorrespiratória.

O antigo jogador, e embaixador do futebol português pelo mundo, já vinha dando sinais de saúde debilitada, tendo estado internado em junho de 2012 no Hospital da Luz, na sequência de um acidente vascular cerebral (AVC) que sofreu na Polónia. Eusébio estava em Poznan, a acompanhar a seleção nacional durante o Campeonato da Europa de futebol, quando se sentiu mal e foi internado num hospital daquela cidade polaca.

Considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos destacou-se ao serviço do Benfica e da Seleção Nacional, tendo sido determinante na conquista do terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 1966.

O «Pantera Negra» era conhecido pela sua velocidade, técnica e pelo seu poderoso e preciso remate de pé direito.

Eusébio da Silva Ferreira nasceu em Lourenço Marques, a 25 de Janeiro de 1942 no Bairro de Mafalala, atual Maputo, Moçambique.

Eusébio jogou pelo Benfica 15 dos seus 22 anos como jogador de futebol. Ainda hoje detém o recorde de golos dos encarnados com 638 golos em 614 jogos oficiais.

No Benfica ganhou 11 Campeonatos Nacionais (1960-1961, 1962-1963, 1963-1964, 1964-1965, 1966-1967, 1967-1968, 1968-1969, 1970-1971, 1971-1972, 1972-1973 e 1974-1975), 5 Taças de Portugal (1961-1962, 1963-1964, 1968-1969, 1969-1970 e 1971-1972), 1 Taça dos Campeões Europeus (1961-1962) e ajudou a alcançar mais três finais da Taça dos Campeões Europeus (1962-1963, 1964-1965 e 1967-1968).

Foi o maior marcador da Taça dos Campeões Europeus em 1965, 1966 e 1968. Ganhou ainda a Bola de Prata sete vezes (recorde nacional) em 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1970 e 1973. Foi o primeiro jogador a ganhar a Bota de Ouro, em 1968, façanha que mais tarde repetiu em 1973.

Eusébio recebeu várias distinções nacionais e estrangeiras ao longo da vida, entre elas os colares de Mérito Desportivo (1981) e de Honra ao Mérito Desportivo (1990), além da «Águia de Ouro», o mais alto galardão do Benfica, em 1982.
Redação

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destaques

Amante de Salazar que fez boxe e dançou nua, talvez nem seja o mais espantoso…
Do Passado para o Presente Com novo Benfica-Sporting a caminho, regressa-se a 10 de fevereiro de 1935. Foi o dia do primeiro Benfica-Sporting para o campeonato. Mais do que recordá-lo apenas – o que aqui se faz é mostrar-lhe um país onde a hipocrisia se misturava com a moral de sacristia. Acabou num empate, campeão foi o Benfica - a treiná-lo estava Vítor Gonçalves. 40 anos depois, o filho, tinha o país a arder, no PREC, era Vasco Gonçalves. Na segunda volta, o Sporting ganhou – e na sua primeira vitória para o campeonato houve pé de um brasileiro de Águeda que depois viveria drama no Porto, o drama de ter de ir para a baliza do Sporting sofrer oito golos, perder por 10-1… Até essa época de 1934/35, Portugal não tinha campeão a sair de uma Liga – para além dos Campeonatos Regionais havia o Campeonato de Portugal disputado ao jeito do que é hoje a Taça. A ideia de mudança fora de António Ribeiro dos Reis, Cândido de Oliveira e Maia Loureiro – e resultara sobretudo de um choque telúrico, a derrota da seleção em Espanha por 9-0: - A goleada, no apuramento na o Campeonato do Mundo, deu motivo a ironias e grandes gozações, mas acabou por ser mal que veio por bem. O Campeonato de Lisboa era, realmente, um torneio cada vez mais desinteressante (o último, então, carregadinho de problemas, até perdera a dignidade), o Campeonato de Portugal era uma prova rápida, a eliminar, faltava de facto uma Liga, no qual as melhores equipas se defrontassem entre si, felizmente fez-se... O derby, o primeiro Benfica-Sporting para o campeonato nacional, foi à quarta jornada, no Campo das Amoreiras – e acabou num empate.Carlos Torres marcou aos 27 minutos para o Benfica, Mourão empatou aos 65. NA PRIMEIRA VITÓRIA DO SPORTING, O GOLO DO MÁRTIR DOS 10-1... Na segunda volta, o Sporting bateu o Benfica por 3-1 - no Lumiar. Foi a 31 de março de 1935. Um dos três golos marcou-o Rui Carneiro. Era de Águeda e aos 13 anos, os pais emigraram para o Brasil, ele foi com eles. Lançou-se no futebol no Palmeiras - e de um momento para o outro decidiu voltar a Águeda. Joseph Szabo descobriu-o no Recreio - e levou-o para o FC Porto: - Desgostoso com as rivalidades internas que se viviam no FC Porto, achei que o melhor era regressar a Águeda e quando estava a caminho, o Sporting chamou-me para o Lumiar... No Sporting esteve só essa época - e mais uma, a última deu-lhe lugar na história: avançado portista atirou, com a força do seu remate, Artur Dyson para o hospital, para o seu lugar, na baliza, foi Rui Carneiro, sofreu oito golos na histórica goleada do FC Porto ao Sporting: 10-1. Ainda passou pelo Belenenses - e de voltou a dar nova volta à vida: foi de novo para o Brasil, ainda jogou no Vitória da Bahia, tornou-se treinador de sucesso no Esporte Clube Vitória. Os outros golos da primeira vitória do Sporting sobre o Benfica? Um foi de Francisco Lopes, outro foi de Manuel Soeiro. Sim, por essa altura, Adolfo Mourão era a estrela no Sporting. Chegara ao Lumiar em 1926 – e ainda antes de fazer 17 anos já se tornara titular indiscutível na linha de ataque. Aliás, antes, no Carcavelos, onde se lançara como jogador, falsificavam-lhe a idade para o pôr a jogar na primeira categoria: - Como tinha 14 anos, não podia... Dirigente do Sporting vira-o num desafio entre a Casa Borges & Irmão e a Casa Bertrand, no Campo Grande – e desviara-o para lá. GINÁSTICA DE PIJAMA, PELA MADRUGADA... Aliás, no Sporting havia o Mourão – e já havia, em igual fulgor, o Soeiro. Na época anterior, voltando Joaquim Oliveira Duarte, comandante da marinha, à sua presidência, voltou Filipe dos Santos, que de lá escapara, antes em tremenda turbulência, ao seu comando técnico - e o levara para Espanha. Novidade foi passar a haver nos seus jogos do Sporting claque organizada. O Sporting ganhara o Campeonato de Lisboa – e o Campeonato de Portugal de 1933/34 (a que o FC Porto não concorrera por estar suspenso pela FPF) mas, no fundo quem o ganhou foi o Soeiro. A final fora com o Barreirense, fechou-se a 4-3 e graças aos seus quatro golos – falou-se, pela primeira vez num jornal, em... poker, o poker do Soeiro, do Manuel Soeiro Vasques. Nascera e crescera no Barreiro e lá vivia. Para além de jogar futebol, passou a explorar a tabacaria do Sporting, vendendo jornais, revistas, cigarros, charutos - e antes de Filipe dos Santos o descobrir, descobriu ele Filipe dos Santos: - Estava no Luso e via o senhor Filipe a dar ginástica aos jogadores, que encaravam aquilo quase como um sacrifício. Estabeleci um plano de campanha. Pela manhã cedo, seis horas normalmente, levantava-me, vestia o pijama e sozinho ia para o quintal imitar o que tinha visto fazer ao senhor Filipe. Saltava à corda, fazia flexões, movimentos respiratórios, corria, pendurava-me... Minha mãe ao ver-me exercitando — e começava logo na cama, com abdominais — dizia que eu era maluco, não saindo a nenhum deles! Mas não, foi assim que se me abriu caminho para o sonho de ser do Sporting, do Sporting do senhor Filipe... O GUARDA-REDES QUE NÃO QUERIA ALTERNAR... Nesse primeiro Benfica-Sporting para a Liga repetiu-se o que acontecera na final daquele Campeonato de Portugal de 1933/34: para a baliza leonina foi Jordão Jóia, que viera do Nacional da Madeira - e não Artur Dyson, o Dyson que já antes lamentara: - Não compreendo a atitude da Direção do Sporting, do nosso treinador. Chamaram-me para me dizer que alternaria com Jóia. Recusei. Não me importava absolutamente nada de ir para a reserva, mas andar a saltitar, isso não, não me parece bem. Ao Jóia só reconheço uma vantagem sobre mim: a atenção ao jogo. Sou, de facto, um jogador... distraído, por vezes nem me recordo de que estou a jogar! O treinador do Benfica, que do Benfica faria campeão da Liga de 1935/36, era Vítor Gonçalves, o pai de Vasco Gonçalves, o primeiro ministro que em 1975 incendiaria Portugal com o PREC – e o do Sporting era um romeno: Wilhelm Possak. Jogara no Timissoara, notabilizara-se no Ujpest e no Vasas de Budapeste e, já em final de carreira, apareceu, quase à aventura, no Lumiar. Joaquim Oliveira Duarte, sabendo do fulgor do seu passado, ofereceu-lhe contrato de jogador e de treinador. Essa Liga de 1934/35, a primeira da história, acabou ganha pelo FC Porto – com o Sporting em segundo lugar e o Benfica em terceiro. Ainda houve, nessa época, Campeonato de Portugal – e no Campeonato de Portugal, os sportinguistas vingaram-se dos portistas, afastando-os da final com 0-0 no Lima e 4-0 no Campo Grande. O PRIMEIRO BENFICA-SPORTING NA FINAL DO CAMPEONATO DE PORTUGAL Adversário na final do Campeonato de Portugal? O Benfica - e foi a primeira vez em que a final do Campeonato de Portugal se vez entre Benfica e Sporting. No Campo do Lumiar, perante mais de 30 mil espectadores - Óscar Carmona, o Presidente da República que tinha um neto que haveria de jogar futebol no Sporting, o Sporting de que ele era Sócio Honorário, chamou à tribuna de honra os finalistas, cumprimentando-os um a um e desejando-lhe «sorte e raça». Mourão fez 1-0, Lucas empatou - e Valadas pintou o título de vermelho. Campeonato de Portugal houve ainda em mais três edições. Na de 1935/36, o Sporting ganhou a final ao Belenenses. Na de 1936/37, o FC Porto ganhou a final ao Sporting. E na de 1937/38, o Sporting ganhou a última final da prova que deu lugar à Taça de Portugal ao Benfica - e o Benfica que perdera a primeira das quatros edições do Campeonato da Liga (que a partir de 1938/39 passou a denominar-se Campeonato Nacional da I Divisão) venceu as três seguintes. (E, com isso, campeão da Liga foi o que o Sporting nunca foi...) ...
Grande História (Capítulo 2) Se Garrincha tivesse vindo para o Sporting, o seu destino poderia ter sido diferente. Nunca se saberá – e o que aqui se conta, tendo ainda como pano de fundo o concerto que Elza Soares deu no Coliseu, é como, mesmo sem Pelé a seu lado, ele ganhou o Campeonato do Mundo do Chile para cumprir a promessa que fez à cantora que, no fim do jogo, entrou eufórica pelo balneário onde já havia campeões nus e o champanhe continuava a jorrar das garrafas que saltavam de mão em mão e a Elza jurou: - Não, não reparei em ninguém pelado, porque eu só queria o Garrincha… O resto? O resto é o que não imagina. A Elza com a casa apedrejada – ou pior. Com a filha a salvar-se por milagre de um tiro, com ela atacada num morro a «pedra e pau». Tudo isso tinha a ver com o Botafogo? Tinha. E o que Garrincha tinha a ver cada vez mais com o Botafogo também é o que nem imagina: faltava a treinos – e teve até ordem para passar a noite antes do jogo com o Flamengo no quarto de Elza. Saiu de lá quase direto para o campo – e esse jogo está na história como o jogo em que Garrincha foi Garrincha pela última vez… Garrincha foi ao Chile disputar a Copa de 1962 – e Elza Soares também foi ao Chile. Não, não foi por causa de Garrincha – foi por ser quem era, estrela cada vez mais faiscante: Edmundo Klinger, famoso empresário uruguaio, criou em Asiva, perto da estância balnear de Valparíso, um festival musical paralelo ao Mundial, chamou-lhe mesmo a Copa da Música, com vários cantores a representarem vários países. Para representar o Brasil, foi Elza que ele escolheu. Chegou antes do jogo com a Espanha, Pelé já se lesionara e já se sabia que não poderia voltar a jogar a Copa. Di Stéfano, que também se lesionara mas ainda não se sabia se jogaria ou não contra o Brasil, afirmou provocador: - Mesmo com 11 Garrinchas, o Brasil vai perder o Mundial. E vai começar a perdê-lo connosco. Quando, ao almoço, na concentração, lho contaram, Garrincha reagiu com mostarda no nariz (e mel no coração): - Gente boa, acabei de pedir Elza em namoro e vou jogar para ela, vou ganhar a Copa para ela! E para dar ao Di Stéfano o troco que ele precisa, né?! SAIU AFÓNICA DO ESTÁDIO, DEIXOU LOUIS ARMSTRONG DE BOCA ABERTA... Klinger arranjou-lhe bilhetes para a partida, Elza Soares gritou tanto – que saiu do estádio quase afónica. À noite teria de cantar no programa onde também estava Louis Armstrong – e ao ouvi-la cantar rouca como ele, mas mais do que rouca como ele numa mistura de Ella Fitzgerald e Nancy Wilson, num swing como nunca ouvira, antes de subir ao palco para fechar o concerto, Armstrong esperou-a na coxia, abraçou-a, exclamou-lhe: - my daughter… Elza agradeceu-lhe e conta-se que, comovida, murmurou para um dos seus músicos: - Só não entendi por que o cara disse doctor… e ele explicou-lhe: - Não foi doctor que o Armstrong disse, foi daughter, como se tu fosses filha da música dele… COMO O DIRETOR DO ESCRETE AFASTOU ELZA DE LÁ... Os organizadores do Festival de Asiva promoveram Elza a «Madrinha da Seleção Brasileira» - e preparam sessão em que ela se fotografasse com todos os seus jogadores, usando faixa que dizia: - Madrinha mas Paulo Amaral, o diretor da equipa, não deixou, pediu, muito cortês desculpa: - … vocês sabem, as mulheres podem interferir no trabalho, quanto mais Elza… Apesar disso, Elza não deixou de falar, num breve enleio, com Garrincha – e ele repetiu-lhe: - Eu vou ganhar esta Copa para você, só para você… A PRIMEIRA VEZ EM QUE FOI EXPULSO E AS PERIPÉCIAS À VOLTA DISSO... No quartos de final, contra a Inglaterra, Garrincha marcou dois golos – e, nas meias-finais, nas meias-finais contra o Chile de Fernando Riera, o Fernando Riera que haveria de vir de lá para o Benfica substituir Béla Gutmann, mais dois marcou – e foi nesse desafio que sucedeu o que Ruy Castro revelou, poético: «Garrincha ser expulso de campo por agredir um adversário parecia tão absurdo quanto são Francisco de Assis disputar um concurso de tiro aos pombos ou Branca de Neve ser apedrejada por discriminar anões. Mas foi o que aconteceu no jogo Brasil-Chile. O agredido foi o violentíssimo zagueiro chileno Eladio Rojas. Rojas sabia que era candidato a mais um baile de Garrincha. Para conseguir para-lo, teria de afiar seu habitual repertório de pontapés, dedos nos olhos e cotoveladas. Pois Rojas fez tudo isso aos olhos complacentes e apertados do árbitro peruano Arturo Yamazaki, descendente de japoneses. Mas não adiantou. Garrincha aniquilou Rojas e o resto da defesa chilena. Fez o primeiro gol com um chute de pé esquerdo; o segundo, com outra cabeçada; deu o terceiro a Vavá e foi, mais do que todos, o responsável pela vitória brasileira por 4-2. Já era o maior homem da Copa. Aos 39 minutos do segundo tempo, com o placar definido, Garrincha levou outro pontapé de Rojas. Caiu, levantou-se e, mais por desfrute que vingança, acertou-lhe um tostão - um peteleco de joelho - na bunda. Rojas atirou-se ao chão como se a cordilheira dos Andes lhe tivesse desabado em cima. O bandeirinha, a um metro do lance, chamou o árbitro Yamazaki e denunciou Garrincha. Yamazaki o expulsou. Elza viu quando Garrincha, de cabeça baixa, caminhou debaixo de vaias para fora do gramado. Aymoré Moreira correu ao encontro de Garrincha, seguido por uma chusma de fotógrafos. Elza viu também quando Garrincha olhou na direção das cadeiras, onde achava que ela deveria estar, e fez-lhe um largo aceno. De repente, ele pareceu baquear e levou a mão à cabeça - uma pedra, atirada da arquibancada, acertara-o bem no cocuruto. Elza se desesperou: desceu correndo as escadas, querendo passar para dentro do campo de qualquer maneira. Um carabineiro foi contê-la. Elza o insultou e tentou abrir a grade. Dois outros carabineiros avançaram sobre ela com os cachorros. Edmundo Klinger apareceu e a levou embora dali…» O QUE SE FEZ PARA QUE GARRINCHA JOGASSE A FINAL DO MUNDIAL QUE FOI ELE... Sim, Garrincha foi expulso, não deixou de jogar a final – apesar de os jornais chilenos o tratarem como ele não era de verdade: brigão e arruaceiro. E por que não deixou de jogar a final assim o revelou Ruy Castro: «Para absolver Garrincha, céus e terras se movimentaram logo após a partida. Luís Murgel, representante da CBD (mas, como brasileiro, sem direito a voto), baseou sua defesa na ficha de Garrincha como um jogador que nunca fora expulso de campo. O jornalista Canor Simões Coelho telefonou de Santiago para seu amigo em Brasília, o primeiro-ministro Tancredo Neves, sugerindo-lhe que passasse um telegrama à comissão, "em nome do povo brasileiro", pedindo o perdão para Garrincha. O presidente do Peru, Manuel Prado y Ugarteche, por intermédio de seu embaixador no Chile, pediu a Yamazaki que não fizesse carga contra Garrincha na súmula. E, no caso de o bandeirinha ser chamado a depor, Mozart di Giorgio achou conveniente que ele, digamos assim, desaparecesse de Santiago. Não devia ser difícil. O bandeirinha era o uruguaio Esteban Marino, árbitro da Federação Paulista de Futebol nos anos 50. E havia um brasileiro apitando na Copa, João Etzel, o único juiz de futebol no Brasil que era chamado de ladrão por todos os times. Etzel teria feito rápido contato com Esteban Marino e recebido sinal verde. Falcão e Di Giorgio foram ao hotel de Marino aquela mesma noite e ofereceram-lhe uma passagem Santiago-Montevidéu - via Paris. Coincidência ou não, Marino embarcou na manhã seguinte. Mas talvez não tivesse sido necessária toda aquela movimentação. A FIFA não era o Santo Ofício, e sua comissão disciplinar julgava politicamente os casos. Sem Garrincha, o Brasil poderia perder para a Checoslováquia - e, em 1962, a quem interessava que um país socialista (logo, amador) fosse campeão do mundo? Mesmo assim a comissão disciplinar respirou aliviada quando, talvez por influência do embaixador peruano, Yamazaki escreveu na súmula que "não vira a infração" de Garrincha. E que seu auxiliar Esteban Marino "tivera de viajar", mas deixara-lhe um bilhete descrevendo a suposta agressão como um "revide típico de lance de jogo". O grande advogado de Garrincha na comissão foi o miliardário antilhano Mord Maduro, que já levara o Botafogo várias vezes à América Central. Com seus 150 quilos e voz feminina, Maduro demonstrou brilhantemente que, com aquela súmula e o depoimento do bandeirinha, o caso estava descaracterizado. Outros seguiram o seu voto e Garrincha foi absolvido por 5X2, recebendo apenas uma advertência simbólica.» LIVRE DO CASTIGO, NEM A FEBRE O TRAVOU... Garrincha ficou, pois, livre de castigo – mas mas poderia não ter jogado a final da Copa contra a Checoslováquia por outra razão: no dia do jogo acordou engripado. Os 39 graus de febre foram arrefecidos a poder de aspirinas – e o Brasil, ganhando por 3-1, tornou-se bicampeão do mundo, a Copa, fechou, simbólica num olé, com Garrincha de pé posto sobre a bola, esperando, parado, que algum checo fosse tentar tirar-lha, mas nenhum se atreveu – e essa foi a Copa em que um jornalista do El Mercúrio escreveu: - De que Planeta vens tu, Garrincha? NO DUCHE COM GARRINCHA, HOUVE QUEM SE INCOMODASSE OU NÃO... Quando o árbitro apitou para o fim, Elza Soares desmaiou na tribuna – depressa recuperou da emoção e correndo se precipitou para o balneário do Brasil, cantando: "Você pensa que cachaça incha/ Garrincha incha muito mais/ Quando ele põe o pé na bola/ Passa mais de dez pra trás." O ambiente era o que se imagina: por entre champanhe, uísque e cerveja, gente feliz com lágrimas aos gritos de "É bicampeão!" – e ao vê-la de vestido de cetim verde-amarelo aconteceu o que está revelado em Estrela Solitária: … Provocou um imediato silêncio. E, segundos depois, pôs todo mundo em polvorosa. Era uma mulher num ambiente de homens nus - algo impensável para 1962. O primeiro a saltar do chuveiro, em busca de uma toalha ou bandeira, foi Didi: "Tirem essa mulher daqui!" Alguns jogadores cobriram as partes. Outros procuraram se esconder. Menos Zagalo: "Esconder pra quê? O problema é dela!" Elza, indiferente à comoção que causara, atirou-se a Garrincha debaixo do chuveiro e carimbou-o de beijos. Seu vestido de cetim, ao molhar-se, colou-se mais ainda ao seu corpo. Ele lhe prometera a Copa e cumprira. A Copa era dela. O resto que fosse para o diabo. Se Elza não saísse logo para continuar a comemoração com a torcida, Garrincha, sem querer - mas querendo -, teria ficado inconveniente.»...
Grande História (Capítulo 1) Não, não era por acaso que ela estava assim, domingo, no Coliseu dos Recreios: imóvel sobre uma poltrona, de vestido negro a prolongar-se para a escada, a cabeleira roxa – e os sons a soltarem-se de a boca no toque que às vezes parecia divino. Elza Soares, a atração maior do MexeFes – estava assim, imóvel sobre a poltrona, porque problema na cervical que a obrigara a várias operações não a deixa cantar como antes cantara, frenética, em palco. Mantém, porém, aos 80 anos o mesmo encanto – o encanto que largou quando em Carne se ouviu: - … a carne mais barata do mercado é a carne negra… ou em outra canções de Mulher do Fim do Mundo, o disco que é uma sinfonia de gritos contra a miséria, o racismo, a violência (& outras coisas mais), mas que é também viagem por corpos e prazeres por entre fogo e lava a escorrer – e é também o disco que faz com que Elza Soares não seja só samba, também é funk, também é rock («mestiço e inventivo») –e sendo tudo isso é uma mulher que «não tem tempo nem pertence a um tempo, está acima dele» como alguém já notou. E, o que aqui se faz – é mostrar como essa mulher, que é um ícone de resistência (e excentricidade…) chegou onde chegou (e ainda agora, com Mulher de Fim do Mundo, ganhou Grammy para o Melhor Álbum de MPB, fintando dramas e tragédias, negaças e destinos, tendo, anos a fio, a vida cruzada na vida de Garrincha, uma vida ainda mais dramática que a sua (mas no caso sobretudo por culpa própria), a vida que também se conta por aqui (e vai de arrepio em arrepio até à sua morte, à morte de um anjo, o Anjo das Pernas Tortas, que, a pouco e pouco, se foi tornando demónio, um demónio dentro de si…) O Manuel dos Santos (aliás, o Garrincha) tinha nos seus antepassados, índios e escravos – e quando nasceu, a parteira logo lhe descobriu, espantadas, pernas tortas, como nunca antes vira: - A perna esquerda era arqueada para fora e a direita para dentro, paralelas, como se uma rajada de vento de desenho animado as tivesse vergado para o mesmo lado. Manuel não herdara essas pernas de Amaro, o pai, mas da mãe, Maria Carolina, embora as dela não fossem tão tortas quanto as dele… Isso escreveu Ruy Castro em Estrela Solitária, a sua biografia, talvez a mais apaixonante biografia de um desportista que alguém fez. O PAI ERROU NO DIA DO NASCIMENTO E NO NOME SÓ PÔS MANUEL... Amaro demorou mais de um mês a arranjar tempo para lhe ir fazer o registo de nascimento e ao chegar ao cartório, atrapalhou-se na data: - … nasceu a 18 de outubro… Não, não fora a 18 de outubro, fora a 28 de outubro, 28 de outubro de 1933 – e também foi Ruy Castro quem o revelou: «O escrivão, coronel Cornélio, sempre oito ou nove canas acima da humanidade, também não era muito minucioso quanto a nomes. Quando perguntou como o menino se chamava e Amaro disse Manuel, lavrou simplesmente Manuel. Não era um procedimento incomum nos cartórios brasileiros. E nem queria dizer que o menino não tivesse sobrenome. Ficava entendido que, sendo filho de Amaro Francisco dos Santos e Maria Carolina dos Santos, Manuel se chamava Manuel dos Santos. Ninguém era obrigado a saber que o Francisco fazia parte do nome da família. Muitos anos depois, quando Manuel já era Garrincha e trabalhava na fábrica, o chefe de sua seção, seu Boboco, acrescentou-lhe o Francisco numa ficha, para evitar confusões com os outros manuéis dos santos da América Fabril. Mas, em todos os documentos oficiais que tiraria no futuro, Garrincha seria apenas Manuel dos Santos.» GARRINCHA POR CAUSA DO PASSARINHO QUE NÃO SE ACOMODA A CATIVEIRO... Pau Grande é localidade à sombra da Serra dos Órgãos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro – cuja cachoeira vai desaguar à Baía de Guanabara – e ele cresceu a perder-se por lá e pelas suas matas, sempre descalço. Pequeno como uma garrincha, passarinho que canta bonito e não se acomoda em cativeiro, uma das irmãs, percebendo-lhe as semelhanças, por Garrincha passou a tratá-lo – e Garrincha ficou para sempre. Os pássaros eram, como as peladinhas, a sua maior paixão – uma paixão às vezes cruel pois o que ele adorava era caçá-los através das figas que fazia. Talvez fosse exagero, mas os amigos afiançavam que só ele era capaz de atirar a pedra da fisga a 400 à hora e que ninguém tinha mira tão certa como ele: - … por isso era terror para a passarada, matava tudo o moleque: garrinchas, rolinhas, sanhaços, caga-sebos, gaturamos, juritis e trinca-ferros. A PRIMEIRA BOLA COMPRADA NO «ARMARINHO» DO PORTUGUÊS... A primeira bola que chutou era de trapos, aliás nem era bem de trapos - era uma esburacada meia velha de um tio, recheada de papel de embrulho e costurada no cano. Depois, também teve outra – que ele fez da bexiga de um cabrito, soprando para dentro dela e dando-lhe um nó na tripa. Pouco durou. Aos sete anos uma das irmãs mais velhas ofereceu-lhe uma bolinha vermelha de borracha que comprara no «armarinho» de António Barbeiro, o português que tinha loja de venda em Pau Grande – e foi com ela que se lhe percebeu, espantoso, o seu destino, com ela passava hora a fio a driblar árvores, a chutá-la contra muros e paredes. Tinha um problema apenas: - Na bola havia uma biqueira, que lhe causava dores na testa quando ele a cabeceava, talvez por isso a jogar de cabeça nunca fosse o que era a jogar com os pés… O CÃO MORDEU-LHE DEPOIS DA PELADINHA, O PAI MATOU-O... Quando não andava a brincar assim com a bola de borracha ou em por Pau Grande em peladas – andava, pelado, a nadar pelo rio, saltando de penhascos para a água (ou pelo mato à caça de passarada), sem nunca se ter aleijado, sem nunca ter voltado a casa das suas aventuras com um arranhão, até que sucedeu o que Ruy Castro também contou: «O único acidente de sua infância foi acontecer justamente no quintal de sua casa. E esta era a casa para a qual tinham se mudado, na rua dos Caçadores, quando Amaro se tornara guarda da fábrica de tecidos. Ao voltar para almoçar depois de uma pelada, Garrincha foi mordido por Leão, um dos cachorros de seu pai. Ninguém sabia o que dera em Leão. Até então não passava de um vira-lata especializado em dormir e coçar-se. Mas, naquele dia, ele se atirou ao menino e quase lhe abocanhou o pescoço. Enquanto tentavam tirá-lo de cima de Garrincha, o animal conseguiu acertar-lhe umas dentadas no braço. Amaro não conversou: pegou sua garrucha na gaveta, carregou-a e fuzilou Leão. No mesmo dia, a conselho de seu Walter, farmacêutico, Amaro trouxe Garrincha ao Rio para ser examinado e tomar uma injeção anti-rábica. Seu Walter recomendou também que cortassem a cabeça do cachorro para exame. Rosa veio junto no trem, trazendo a cabeça de Leão embrulhada num exemplar de A Noite. No posto médico da rua das Marrecas, constatou-se que nem Garrincha nem o cachorro tinham nada, mas seguro morreu de velho.» NA ESCOLA DA FÁBRICA, MAS POR POUCO TEMPO... Para a escola Garrincha só foi quando já tinha oito anos: - Era a Escola Santana, da própria fábrica, e as professoras de Garrincha no primeiro ano foram dona Olindina e dona Maria das Dores. Eram duas santas: tinham por dogma aprovar a classe inteira. Por mais que Garrincha matasse aula para caçar, pescar ou jogar pelada, elas o passaram para o segundo ano. Neste, em 1942, a coisa foi diferente. A nova professora era dona Santinha, em cujos rigores várias turmas de meninos pau-grandenses já tinham esbarrado e outras iriam continuar esbarrando. Com ela, só era aprovado quem respondesse à chamada e estudasse. Garrincha sofreu os rigores de dona Santinha, mas ficou lhe devendo o pouco que aprendeu a ler - o suficiente para ler gibis ou os letreiros dos filmes, se não passassem muito depressa. O mesmo quanto aos garranchos com que, pelo resto da vida, iria assinar seu nome. Mas seu domínio do bê-á-bá não foi suficiente para promovê-lo ao terceiro ano primário. Levou bomba e decidiu parar por ali – para desgosto de Amaro que, entre muxoxos, tinha uma frase para definir o futuro de seu filho: "Tabacudo não vai pra frente." O CAVALO FICAVA À FOME, AS SOVAS A CINTO E PAU NÃO O EMENDAVAM... Desistindo da escola, o pai deu-lhe uma missão: ir, todos os dias, ao pasto, cortar capim para alimentar o cavalo que ele tinha. Garrincha saía de casa para a cumprir, mas, na maior parte das vezes, o cavalo ficava à fome no resguardo: - A punição eram sovas de cinto ou de vara, todas sem efeito. De corpo moído, Garrincha foi oferecer-se a uma doceira de Pau Grande – para lhe vender as cocadas à porta da fábrica: - Ao fim do expediente, o número de cocadas ausentes não batia com o dinheiro em caixa - Garrincha as comia por conta de sua participação nas vendas e ficava sempre devendo… PARA JOGAR EQUIPA DA FÁBRICA, VARREDOR DA FÁBRICA... Razão porque, achando que ele não levava jeito para negócios, dona Glorinha o despachou. Garrincha tinha, porém, cada vez mais refinado o jeito para outra coisa – e aos 14 anos já não havia em Pau Grande quem não tivesse ouvido falar da magia que tinha nos pés. Na América Têxtil, a fábrica onde o pai trabalhava, havia uma equipa de futebol – e foi para Garrincha ir jogar para lá que lhe ofereceram emprego como varredor da secção de algodão – e logo se viu: vivia faltando às obrigações, várias vezes o apanharam dormindo entre as gigantes caixas de algodão. Apesar disso, não o despediram, Ruy Castro conta porquê: «Porque um dos chefes de seção, seu Boboco, também conhecido como seu Franquelino - na verdade, Franklyn Leocornyl -, era o presidente do S. C. Pau Grande, de cujo time juvenil Garrincha, em 1947, já era uma promessa. Ele o protegia com sublime descaro. Seu Boboco fora um grande jogador do Pau Grande e, como torcedor, estava habituado a ir ao Rio assistir aos cobras: Zizinho, do Flamengo, Heleno, do Botafogo, Ademir, então do Fluminense. Mas Garrincha era outra coisa. Como chefe na fábrica, seu Boboco faria vista grossa a qualquer deslize do garoto, desde que este jogasse no seu time. Mas os chefes de seu Boboco precisavam exercer a sua autoridade e, em 1948, quando já trabalhava na fiação, Garrincha foi demitido. A fábrica não podia comportar um empregado que desse tão péssimo exemplo - e Garrincha era candidato ao título de pior operário que já passara pela América Fabril. Amaro quase morreu de vergonha e, como se lavasse as mãos quanto ao futuro de seu filho, mandou-o arrumar a trouxa e botou-o também para fora de casa...» EXPULSO DE CASA, DORMIA NO CORETO DA IGREJA, COMIDA LEVA-LHE UMA MENINA... De dia se não caçava ou não pescava, aventureiro, jogava pelada, impressionante - e, expulso de casa, Garrincha arranjou, sorrateiro, forma de dormir no coreto da igreja – e só não passou fome porque menina que o conhecera na escola ia, clandestinamente, levar-lhe todas as noites sanduíche que fazia com o que sobrava do jantar. Era Nair, com Nair haveria de casar-se. Ao fim de duas semanas, Boboco convenceu o patrão a readmiti-lo na fábrica, com argumento incontrolável: - … sem ser empregado o moleque não pode ser jogador do nosso time e sem Garrincha o time é nada… O patrão concordou e chamou-o de novo para a América Têxtil. Vendo-o voltar, o pai reabriu-lhe a porta de casa. E Garrincha voltou ao seu destino... ...