QUARTA-FEIRA, 29-07-2015, ANO 16, N.º 5660
Eusébio
EUSÉBIO (1942-2014)
Morreu Eusébio
08:01 - 05-01-2014
Eusébio da Silva Ferreira, 71 anos, morreu na madrugada de domingo, dia 5, por volta das 3.30 horas, vítima de paragem cardiorrespiratória.

O antigo jogador, e embaixador do futebol português pelo mundo, já vinha dando sinais de saúde debilitada, tendo estado internado em junho de 2012 no Hospital da Luz, na sequência de um acidente vascular cerebral (AVC) que sofreu na Polónia. Eusébio estava em Poznan, a acompanhar a seleção nacional durante o Campeonato da Europa de futebol, quando se sentiu mal e foi internado num hospital daquela cidade polaca.

Considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos destacou-se ao serviço do Benfica e da Seleção Nacional, tendo sido determinante na conquista do terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 1966.

O «Pantera Negra» era conhecido pela sua velocidade, técnica e pelo seu poderoso e preciso remate de pé direito.

Eusébio da Silva Ferreira nasceu em Lourenço Marques, a 25 de Janeiro de 1942 no Bairro de Mafalala, atual Maputo, Moçambique.

Eusébio jogou pelo Benfica 15 dos seus 22 anos como jogador de futebol. Ainda hoje detém o recorde de golos dos encarnados com 638 golos em 614 jogos oficiais.

No Benfica ganhou 11 Campeonatos Nacionais (1960-1961, 1962-1963, 1963-1964, 1964-1965, 1966-1967, 1967-1968, 1968-1969, 1970-1971, 1971-1972, 1972-1973 e 1974-1975), 5 Taças de Portugal (1961-1962, 1963-1964, 1968-1969, 1969-1970 e 1971-1972), 1 Taça dos Campeões Europeus (1961-1962) e ajudou a alcançar mais três finais da Taça dos Campeões Europeus (1962-1963, 1964-1965 e 1967-1968).

Foi o maior marcador da Taça dos Campeões Europeus em 1965, 1966 e 1968. Ganhou ainda a Bola de Prata sete vezes (recorde nacional) em 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1970 e 1973. Foi o primeiro jogador a ganhar a Bota de Ouro, em 1968, façanha que mais tarde repetiu em 1973.

Eusébio recebeu várias distinções nacionais e estrangeiras ao longo da vida, entre elas os colares de Mérito Desportivo (1981) e de Honra ao Mérito Desportivo (1990), além da «Águia de Ouro», o mais alto galardão do Benfica, em 1982.
Redação

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BOLA DE OURO Eusébio da Silva Ferreira foi homenageado esta segunda-feira durante a gala da FIFA em Zurique, Suíça. O Pantera Negra foi recordado na cerimónia que decorre no Palácio dos Congressos com a exibição de imagens do antigo internacional português no Campeonato do Mundo de 1966, em Inglaterra, Simples, mas carregado de simbolismo, o tributo ao King mereceu os aplausos de toda a plateia.
EUSÉBIO (1942-2014) Em declarações à Rádio Renascensa, o antigo ministro da Economia Daniel Bessa mostrou não ser contra o facto de os restos mortais de Eusébio irem para o Panteão Nacional. «Vou fazer um meã culpa: não sou um aristocrata de nascimento, mas tornei-me um aristocrata da valorização da ciência, da universidade, do conhecimento, de achar que esses são os vínculos fundamentais de promoção e valorização humana. Mas aqui está o meu ponto fraco: quando olho para uma pessoa como o Eusébio – e é di

destaques

Saiba como a Volta nasceu do homem que esteve no Tarrafal antes de fazer A Bola (mas saiba muito mais: de burlas a mortes, de violações a vergonhas, de fomes a estranhas massagens...)
Estrela de Diamante Com a Volta a Portugal já na estrada, contamos-lhe como tudo começou – e tudo começou com o dedo de Cândido de Oliveira, o Cândido que, depois, haveria de fundar A Bola, com Vicente de Melo e Ribeiro dos Reis. Nem imagina como foi essa primeira vez em 1927 – ou como era o país que, nesse ano, passou a ter a França e a Itália já tinham. Sim, o que aqui se conta é como era esse país também através de fatos de banho e outras coisas de mulheres, através de políticos aos tiros e em revoluções, através de uma bailarina persa violada e de um campeão de hipismo fuzilado (ou não...) & mais, muito mais... Primo de Rivera já subjugara Espanha à sua ditadura nacionalista - e a 18 de Abril de 1925 deu-se em Portugal a Revolta dos Fifis, golpe liderado pelo almirante Filomeno da Câmara e intelectualmente apoiado por Fidelino de Figueiredo (e lançado na esperança de ser uma espécie de riverismo à portuguesa). Até numa padaria se descobriram bombas... Entre os 61 militares que nele participaram estavam Sinel de Cordes e Gomes da Costa. O Século e o Diário de Notícias foram suspensos e se a suspensão não se levantasse entretanto ao DN não teria havido o que houve: o DN a organizar a Volta a Portugal em Bicicleta. Falhada a rebelião, a polícia descobriu 50 bombas espalhadas pelo Parque Eduardo VII, juntou-as a outras 50 que apanhou pela cidade, cinco delas, por exemplo, numa padaria da Graça, para serem usadas durante a greve dos padeiros – e lançou-as, com pompa, ao Tejo a 14 de Maio. Ribeiro dos Reis perdeu com a Espanha, o comandante de polícia foi salvo pela Senhora de Fátima, alguém disse... Três dias depois, António Ribeiro dos Reis, que haveria de fundar A Bola com Cândido de Oliveira e Vicente de Melo, estreou-se como selecionador nacional de futebol, contra a Espanha, perdendo por 0-2. Nesse dia, a Legião Vermelha, organização terrorista ligada aos comunistas, que desde Dezembro de 1919 fora responsável por mais de 200 atentados contra políticos e empresários, voltou a espalhar pânico na cidade – alvejando a tiro Ferreira do Amaral, comandante da polícia. Que se salvou por «milagre de Fátima», alguém escreveu. Os seus principais activistas acabaram presos – e deportados para África, um deles era Bela Kun, o seu líder... Na primeira vitória, o Ovomaltine e as massagens (e a paródia que isso foi...) A 18 de Junho, no Lumiar, a seleção obteve, enfim, a primeira vitória do seu historial. 1-0 à Itália, golo marcado pelo sportinguista João Francisco, que jogava de lencinho a prender os calções, o cinto da sua superstição. A equipa foi submetida a preparação especial. À imagem militar do seu timoneiro - Ribeiro dos Reis era capitão do exército. Estágios em regime de reclusão, fora de Lisboa, na Malveira e em Montachique, marchas pelos montes e ginástica respiratória, «alimentação salutar e reconfortante», médico e massagista a tempo inteiro. Perante isso, detratores levantaram a voz em ironias e imprecações, houve até um que disse: - O estágio é uma paródia, as massagens dão cabo dos homens de barba rija, Ovomaltine e chocolates são para crianças. Não, o Ovomaltine não era só para crianças - e, depois, quando se começou a abrir caminho à Volta a Portugal em Bicicleta, a Volta também passou pelo Ovomaltine, já se verá como. Contra a... «fraqueza genital»? Comprimidos a 17 escudos... Antes, porém, espalharam-se os seus reclames por jornais e revistas com imagens de desportistas famosos, por entre anúncio assim, por exemplo: «Para a fraqueza genital: comprimidos de cloridrato de yohimbina, quimicamente pura, do dr. Wolff – Berlim. Medicamento precioso, sempre que seja necessário tonificar o aparelho genital, reforçá-lo. Resultados garantidos para ambos os sexos». Nas farmácias, custava 17 escudos - e se, «por pudor», se quisessem encomendar por correio, ficava a 18 escudos e 50 centavos. A 19 de Julho, houve nova tentativa de ataque à democracia – com Mendes Cabeçada à cabeça da insurreição. Agatão Lança comandou forças fiéis ao governo – e jugulou-a. Dois meses depois, libertaram-se todos os militares e civis implicados, que assim ficaram à espera de outra oportunidade - e Portugal, se estava marcado pela convulsão política, estava também já marcado por uma volta, a Volta a Portugal a Cavalo, a Volta a Portugal a Cavalo que daria origem a uma Volta a Portugal em Automóvel e a uma Volta a Portugal em Bicicleta... ...
Grande História A Volta a Portugal em Bicicleta começou com a... Volta a Portugal a Cavalo – no arrasto dos fascínios e das euforias que outra despertou. Foi em meados de 1925, teve duas fases. Uma entre Cacilhas e Viana do Castelo: 1503 quilómetros em velocidade controlada. Outra, entre Viana do Castelo e Lisboa: 405 quilómetros em velocidade livre – e nesse troço chegou José Tanganho a ter 10 horas de avanço sobre o segundo classificado. No Cartaxo já tinha o capitão Rogério Tavares á sua ilharga – e pouco depois, o Favorito «com as patas inchadas e desferrada, negou-se a romper», contou A Capital. «À entrada da Portela, Tanganho teve de desmontar porque o seu animal tinha um rim descaído, necessitando de uma massagem...» O primeiro a chegar a Lisboa, chegou e morreu durante a noite... E assim, o primeiro a chegar a Lisboa, ao Campo Grande foi Rogério Tavares. Tanganho estava a sete quilómetros – continuava a pé, com o Favorito à mão. Quando cortou a meta, dois bombeiros quiseram-lhe dar-lhe um cálice de Vinho do Porto: - Como se fosse uma sopa de cavalo cansado... mas a multidão, desvairada, olhando para as fardas, gritou-lhe: - Não bebas, que te querem envenenar!... Na manhã seguinte, ali mesmo, no Jockey Clube, teria de fazer-se a última prova: 800 metros a trote, com três saltos de sebes, unicamente para se perceber o estado de saúde de cada animal. Emir, o cavalo do capitão, morreu durante a noite. «Aquele esforço não podia deixar de rebentar-lhe o cavalo...» Ao Sport de Lisboa, José Tanganho, revelou, após o decretarem vencedor do «raid hipico»: - Não, para cá de Alverca, quando o capitão Tavares me passou à frente, não me convenci de que havia perdido a corrida. Fiquei apenas surpreendido que estivesse tão perto, supunha-o longe. Tanto por ter comido de mais em Leiria, como por ter sido arrancado ao sono que mal começara na sua cocheira do Cartaxo, o Favorito vinha um pouco desmoralizado, é verdade. Não quis obrigá-lo a um esforço muito grande, apeei-me, seguindo a passo. Quando vi passar, como uma flecha o capitão, fiquei com a ideia de que aquele esforço não podia deixar de rebentar-lhe o cavalo. Ora, sem perigo de rebentar o meu, não podia acompanhá-lo. E por isso o deixei seguir, convencido de que o Emir não chegaria a Lisboa. Muito fez ele! Foi a minha prudência que me deu a vitória. Cheio de sono e de fadiga, o Favorito, vindo a passo, repousou até Lisboa e, no dia seguinte, estava fresco que nem uma alface. O Emir que fizera mais do que podia, morreu... Não foi com a égua, foi com um cavalo que trabalhava a puxar uma charrete... Como tudo começara, haveria de contá-lo o José Bernardo Tanganho no Século Ilustrado, depois: - Estava eu nas Caldas da Rainha com o tenente-coronel José Mousinho a tomar café na barraca de um judeu qualquer, quando vimos passar a cavalo o capitão Silva Dias. «Vejo-o todos os dias assim» - disse eu. «Que é que andará a fazer?» Que andava a treinar o cavalo para a Volta a Portugal, explicou-me o Mousinho. Cá para mim, resolvi logo: «Também vou entrar nisso, tenho uma égua que não há quem possa com a vida dela». Era a égua de uma tipóia de aluguer com que eu me governava. Mas toda a gente me queria tirar aquilo da cabeça: «Tu és doido? Os militares andam a treinar os cavalos há três meses e já só faltam quinze dias…» Agarrei no animal e, sem parar, fui com ele das Caldas a Alcobaça, andei pela Nazaré, São Martinho, Foz do Arelho, Peniche… Acabei por desistir da égua, quando vi que ela tinha uma assentadura. Nessa altura, quando viram que eu tencionava mesmo levar a minha por diante, apareceram-me várias pessoas a oferecer cavalos. Escolhi o do lavrador António Joaquim, do Cartaxo, um cavalo que andava também engatado a uma charrete. Levei-o das Caldas à Foz do Arelho. Quando lá cheguei, fiquei uns dez ou doze dias em exercícios: amarrava o cavalo a uma bateira e punha-o a fazer força para ganhar pulmão... Rompeu três pares de botas em 18 dias, embebedaram-lhe o cavalo... A odisseia demorou-lhe 18 dias, sob sol e chuva, umas vezes a pé, outras a cavalo montado (e pelo caminho rocambolices que se não imaginam): - Rompi três pares de botas... Andava dez metros a cavalo e vinte a pé, para o animal se aguentar. E percorria 100, 150 e até 250 quilómetros por dia, sem horário fixo. Na etapa Odemira-Monchique, que deveria ser através da serra, o guia, que devia acompanhar os concorrentes, não conhecia o caminho, pelo que andámos perdidos, até darem com o casebre de um pastor. O percurso de Moncorvo a Bragança foi feito debaixo de um autêntico dilúvio. Em Arcos de Valdevez, não havia cavalariças, nem ração, mas isso foi devido a razões políticas, as complicações que por aí houve, os golpes e os contragolpes. Ao chegar a Vila Franca de Xira, o o Favorito começou a fraquejar e houve quem me desse uma garrafa de vinho do Porto para o animal beber e arribar, uma sopa de cavalo cansado. O cavalo bebeu e passados alguns metros estava com uma grande bebedeira…E para ali vim eu, com o cavalo a curti-la…Tive de o trazer à mão e foi assim que o capitão Rogério Tavares chegou a Lisboa em primeiro lugar, isto é, à minha frente... Dos 290 mil contos falsos, virou filme até... E foi assim que Taganho, o «picador que mostrara ao povo que era possível bater um oficial de cavalaria» - saltou para a ribalta quando para a ribalta seguia já outro nome, por outra circunstância: o Alves dos Reis. Falsificando o papel da carta com o timbre do Banco de Portugal e a assinatura do seu governador, em documento que conseguiu até reconhecimento de notário, Alves dos Reis encomendou à Waterloo & Sons, fabricante de papel moeda para o BP, 290 mil contos em notas de 500 escudos. Com o dinheiro fundou o Banco Angola e Metrópole – e entregou-se ao luxo e à ostentação. A mulher chegou a gastar 400 contos em peles e roupas em Paris e 1200 contos numa ourivesaria do Porto. Quando, a 5 de Dezembro de 1925, se deslindou a burla – prenderam-no. (Libertaram-no em Maio de 1945. Regressou a Angola, voltou a ser punido por burla em venda de café, morreu dez anos depois, de ataque cardíaco, pobre. Virou figura de romances e filmes e em Outubro de 2005 uma das suas notas falsas foi posta a leilão – e arrematada por 6500 euros!) Dos 200 escudos de Tanganho à atriz que acabou em desgraça... A vitória de Tanganho na Volta a Portugal a Cavalo pôs-lhe a estrela em fulgor, assim se manteve semanas e meses a fio. Para se exibir no Coliseu de Lisboa e no Palácio de Cristal do Porto ofereceram-lhe cachets de 200 escudos – e por essa altura um automóvel dos mais baratos custava 18 mil escudos, aos 18 mil escudos dizia-se que eram 18 contos, os mais bem pagos salários da indústria, os da refinação do açúcar, andavam pelos 19 escudos... Lina Demoel, nome artístico de Carolina Adelaide Rodrigues, fora das primeiras mulheres a tirar carta de condução em Portugal, mas no auge da sua fama era um motorista fardado que a conduzia ao teatro no seu automóvel de luxo, marcado pelo LD das iniciais do nome em monograma de prata. Exuberante, famosas eram as suas viagens a Paris, para comprar roupas de Poiret e diamantes de Cartier – e mostrar-se em espectáculo do Molin Rouge. Ninguém soube, contudo, quem lhe sustentava a «ostentação que só o palco não podia pagar». Estava-se já em 1926, quando, no Domingo Ilustrado, alguém escreveu: «Ela é hoje a estrela mais brilhante, cheia de fulgor e de elegância, de distinção e de sorriso, que pisa o nosso teatro ligeiro. De Lina Demoel se pode dizer com justiça que é uma actriz parisiense, não só pela sua arte excepcional de alegria, onde há desde a doçura esquiva e frívola da mulher até à intenção perversa, maliciosa e causticante do couplet da rua, mas ainda pelo bom gosto, pela riqueza e sumptuosidade das suas toilletes...» O seu maior êxito assinalara-o, por essa altura, na revista Foot-Ball – e imortal ficou a cantar: Maria! São teus olhos azeitonas Cachopa! São teus lábios qual cerejas E os teus seios cachos de uvas que abandonas À vindima desta boca que os deseja... (À entrada para a década de 40, largou os palcos – para ir trabalhar em alta costura, em Luanda. E em 1954, durante férias em Lisboa, sofreu acidente de automóvel que a paralizou. Vinte anos depois, reportagem num jornal deixou meio mundo em lágrimas, mostrava-a inválida, sobrevivendo num sombrio quarto alugado da cidade...) ...
Estrela de Diamante Num ponto, não há dúvidas: o frenesim que a Volta a Portugal a Cavalo causou, levou a que o Diário de Notícias lançasse em 1927, a primeira Volta a Portugal em Bicicleta. Quem ateou a ideia, isso pode ser mistério, mas não muito... Cândido de Oliveira nascera, a 25 de Setembro de 1897, em Fronteira. Último de 10 irmãos de família pobre, pequenino o levaram para a Casa Pia. Da equipa do colégio saltou para o Benfica. Pela mão de Cosme Damião. Jogou futebol, fez atletismo, ganhou campeonatos de luta greco-romana. Fundou o Casa Pia AC em 1919 – e como seu capitão ganhou o Campeonato de Lisboa ao Sporting, ao Benfica e ao Belenenses. Cedo começou a ser também um homem dos jornais. Para além de funcionário superior dos Correios para onde entrara com 19 anos, era repórter de O Século. Usaram-lhe a reportagem para atacar a democracia, demitiu-se... Em Abril de 1925, mandaram-no fazer a cobertura das ações de preparação e de estratégia das tropas governamentais. Foi e fez o trabalho. Espantou-se que a reportagem tenha ficado no tinteiro – e alguns meses depois indignou-se, ao perceber que as informações que recolhera tinham sido transmitidas em pormenor aos revoltosos que a partir de Braga fizeram o 28 de Maio, o 28 de Maio de 1926 que acabou mesmo com a I República, colocou Portugal sob Ditadura Militar, a caminho do Estado Novo que Salazar haveria de criar através da Constituição de 1933. Por causa disso, como protesto pelo abuso, exclamando que não admitia que lhe tivessem transformado a profissão em espionagem (e pior que a sua peça fosse usada para conspirar contra a democracia, que era em si princípio sagrado, o haveria de levar, depois, ao suplício do Campo de Concentração do Tarrafal...) Cândido de Oliveira demitiu-se do Século - e ao sabê-lo, a empresa do Diário de Notícias deu-lhe a direção de Os Sports, o seu jornal desportivo... Garantia de Mário de Oliveira: foi Cândido quem desafiou o DN à Volta Numa edição de 1958 do Diário Ilustrado, Mário de Oliveira garantiu que foi Cândido de Oliveira quem desafiou Caetano Beirão da Veiga, administrador do DN, o DN que acabara de comprar Os Sports à Desportiva Gráfica a fazer uma Volta a Portugal em Bicicleta – e que como director de Os Sports lançou, ele mesmo, as suas bases. Aliás, o seu nome aparece nos primeiros documentos da Comissão Organizadora – e só não esteve no terreno porque entretanto deixou de ser director de Os Sports – foi trabalhar para a Stadium, passando a dedicar-se mais, também, ao cargo de selecionador nacional. Gil Moreira, na sua história do ciclismo, tem outra versão (mas errada, desmentida pelo próprio Raul de Oliveira como já se verá...): que a Volta nasceu de Raul de Oliveira, o Raul de Oliveira que em 1917 foi integrado no Regimento de Transmissões que partiu para a I Guerra Mundial. Dois anos depois mantinha-se em Arrás e pediu licença para acompanhar o Tour que renascia dos escombros, algumas das suas estrelas tinham sido mortas em combate. Regressou a Portugal, entrou para O Sport de Lisboa. Foi, pois, o próprio Raul de Oliveira quem o contou: - Um belo dia, o Banana – nome porque era conhecido um vendedor de jornais e lotarias – estava embaraçado com o jogo e resolveu deixar, na minha ausência, dois vigésimos da roda que estava prestes a andar. E aparecia-me, um pedaço depois, a anunciar, alvoraçado, que os ditos vigésimos estavam premiados com quatro contos. Na presença desse favor da fortuna, não me era possível ainda pensar na realização da Volta a Portugal. Mas – disse comigo – com este dinheiro vou promover a Volta a Lisboa. Não era tudo, mas seria como abrir o caminho para a grande organização... Em busca de trajeto para a Volta, Raul de Oliveira perdeu um braço por causa de uma estupidez... Ou seja, pode ter tido a ideia de uma Volta a Portugal na sua cabeça, mas não passou disso: de uma ideia na sua cabeça – a I Volta a Portugal, tendo como designação Circuito Ciclista de Portugal, quem a atirou à estrada foi de Cândido, o que Raul fez (e não foi pouco...) foi transformá-la no fenómeno em que ela se tornou... Em 1929, o DN deu-lhe a direção de Os Sports que Cândido de Oliveira deixara e Raul de Oliveira assumiu, nessa condição, a direção da Volta a Portugal, propagandeando-a através de um truque notável: a rivalidade entre Nicolau e Trindade, entre o Benfica e o Sporting – e 10 anos depois, numa visita a Braga, para escolher trajetos para a Volta sofreu acidente de automóvel que levou a que se lhe amputasse um braço. Na origem do desastre esteve derrapagem causada por areias que os responsáveis pelas estradas tinham decidido colocar nas curvas mais perigosas – como forma de levar os condutores a velocidades menores. Era um disparate, um disparate trágico – e Os Sports, acusando a junta das estradas de negligência, abriu feroz campanha contra a peregrina ideia e não tardou a que se soltasse dos caminhos... ...