QUARTA-FEIRA, 04-05-2016, ANO 17, N.º 5940
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destaques

Não lhe deram bolsa de estudo, foi gasolineiro (e não só…)
Grande História Capítulo 1. Sim, é tão impressionante (e tão incrível) a história de vida de Jesse Owens (e a história da vida de gente que com ele se cruzou ainda mais, talvez…) que a vamos contar em vários capítulos.(Vá até ao fim e quando lá chegar pode ter a certeza: das próximas vezes vai espantar-se mais, muito mais - e não apenas com o aquilo de que aqui ainda se não falou: do mistério do aperto de mão a Hitler à certeza da Casa Branca que Roosevelt não lhe abriu, não lhe mandando, sequer, mensagem a felicitá-lo pelas quatro medalhas de outro de Berlim, que só foram quatro por causa de dois judeus. E isso é um exemplo apenas do que descobrirá por aqui - mas ainda não agora... Antes de Jesse Owens houve outro, pode dizer-se que sim, que o primeiro grande velocista negro da história do atletismo não foi ele - foi Eddie Tolan. Nascera no Colorado, crescera em Salt Lake City – e uma vez contou: - Depois de estudar várias cidades, o meu pai descobriu que o melhor sítio para uma família de negros sonhar era Detroit. Pagou na minha mãe e nos meus quatro irmãos – e fomos todos para lá viver… Toland tinha 15 anos, na Cass Technical High School de Detroit logo se lhe percebeu o jeito para a velocidade. E ainda mais para o futebol americano. Foi, aliás, pelo futebol americano que Eddie Tolan entrou na Universidade de Michigan – entrada história por ser o primeiro negro a lá jogar no século XX. (Em 1890, a equipa tivera nas suas hostes George Jewett, filho de um abastado ferreiro que na Michigan University se tornara médico, um dos primeiros médicos afro-americanos que os Estados Unidos tiveram…) DISSERAM-LHE QUE FUTEBOL NÃO, PARECIA UM DIÁCONO… De repente, deu-se volte-face no destino: lesão num joelho abalou-o ao terceiro treino, o treinador que o levara chamou Eddie Tolan ao seu escritório, anunciou-lhe, pesaroso: - Os restantes técnicos julgam que o joelho vai trair-te, não te querem na equipa. Disse-lhe que estava cada vez mais encantado contigo, eles desconfiam que estou iludido. Como tive medo de ser derrotado na minha fé, aceitei a decisão. Em vez de ires para a equipa de futebol americano, vais para a nossa equipa de atletismo… Eddie Tolan corria a mascar pastilha elástica e com óculos de aros redondos presos por fita adesiva – por causa disso um jornalista escreveu: - Parece um diácono de uma igreja a espantar almas na cinza. Foi assim que, a 1 de Julho de 1930, em Vancouver, fez 10,2 segundos aos 100 metros. Apesar de a meta ter sido posta num ponto 30 centímetros mais alto do que a partida e de haver filme que mostrava que não se insinuava na pista um fio de vento, a IAAF não aceitou a marca como recorde do mundo – porque o anemómetro não estava lá. Se valesse só teria sido batido 26 anos depois. DEPOIS DO OURO EM LOS ANGELES, SÓ QUERIA EMPREGO… Foi já como The Midnigth Express, O Expresso da Meia Noite, que chegou aos Jogos Olímpicos de Los Angeles – e juntou a medalha de ouro dos 200 à dos 100 metros. Nos 100, protagonizou o mais um dos mais arrepiantes duelos da história, Eddie Tolan contra Ralph Metcalfe, dele saindo, ambos, em 10,38 segundos – recorde mundial eletrónico. Frank Murphy, o prefeito de Detroit, organizou manifestação de boas vindas para o receber na estação de comboios. Chorando, a mãe pediu que lhe arranjassem um emprego – e ao pai que caíra no desemprego. E Eddie, que já perdera a esperança de estudar para médico, deu toque mais comovente ao lamento: - Nós aqui nesta festa e o meu irmão lá fora, no parque, a apanhar papel... Mas tem mais sorte do que eu, ao menos tem trabalho... A súplica caiu em saco roto – e seis meses depois, William H. Beatty, escreveu numa crónica, num jornal de Detroit: - É inadmissível o que está a acontecer ao homem mais rápido do mundo. O vinho inebriante das suas vitórias em Los Angeles transformou-se durante a noite no mais acre vinagre… A SUA DESGRAÇA? TER ENTRADO EM ESPETÁCULOS DO FRED ASTAIRE NEGRO… Teve efeito o reparo: em janeiro de 1933, arranjaram-lhe emprego num cartório de Detroit – mas pagavam-lhe tão pouco que aceitou outro desafio: entrar em espetáculos de vaudeville com Bill Robinson, o Fred Astaire negro dos anos 20 e 30. Por causa do dinheiro que assim ganhou, em junho, a Michigan Amateur Athletic Association retirou-lhe o estatuto de amador, não pôde, por tal razão, voltar aos Jogos Olímpicos Como profissional Eddie Tolan andou pela até pela Austrália – e no regresso a Detroit voltou a escriturário no cartório. Em 300 corridas perdera apenas sete. Tornou-se professor de educação física – e em 1965 sentiu os rins a falharem. A hemodiálise não o salvou. Dois anos depois morreu – e nesse dia Jesse Owens molhou de lágrimas frase que murmurou: - Quando eu andava na escola, Eddie era o meu ídolo, foi ele que me ensinou a olhar para cima e a sonhar......
Grande História Odiado por uns, adorado por outros, é desta forma que Diego Simeone se apresenta no Allianz Arena, para o jogo do mata-mata frente ao exército de Pep Guardiola. Para o treinador catalão o maior sonho seria rumar ao Manchester City com a entrega do título de campeões mundiais aos bávaros. Mas do outro lado está um treinador que não dá tréguas: fiel ao ´cholismo´, o futebol raçudo que reergueu o Atlético de Madrid das sombras, Simeone já avisou Guardiola - «trabalho para ganhar e não para agradar a ninguém. Trabalho para o meu clube, que é quem me paga». E se Simeone parte em vantagem depois do golaço de Saul Ñiguez que levou Vicent Calderón à loucura….Guardiola quer a todo o custo quebrar a maldição que assomba o Bayern de Munique, que nos últimos dois anos foi eliminado das meias-finais da Champions precisamente por equipas espanholas: Real Madrid e Barcelona. Era uma vez um treinador muito simples, franco e democrático. Quando Luigi Simoni era treinador do Inter de Milão, em 1998, tinha por hábito e antes de cada jogo chamar os jogadores, um a um, onde lhes falava das táticas de jogo. Os jogadores aceitavam e nunca opinavam. Todos à excepção de um: Diego, o rebelde ´Churchill´ argentino que mesmo no papel de jogador, nunca deixou de ser o que o futuro lhe reservava: o treinador que qualquer clube desejava ter. O ANTI TIKI-TAKA VESTE DE NEGRO Quando se fala de um ex-jogador argentino, nascido em Buenos Aires, de primeiro nome Diego e que hoje trabalha como treinador, muitos pensam em Maradona. Podia ser, mas o craque de quem se fala é outro, um tal de Simeone que recolocou o Atlético de Madrid na luta pelo título espanhol, rivalidando com os imperiais Barça e Real Madrid. Mais do que um treinador idolatrado no Vicent Calderón, Simeone foi jogador do Atlético em duas ocasiões: de 1994 a 1997 e de 2003 a 2004. Em 133 partidas apontou 23 golos, embora muitos deles fossem fora da baliza – adepto de um estilo de jogo agressivo e intenso, Simeone irritou de tal forma Cruyff, quando treinava o Barcelona, que o holandês chegou a comentar ´ter vontade de entrar em campo e fazer justiça pessoalmente´, revoltado com as entradas desleais do jogador. Em certa ocasião, quando vestia a camisola do River Plate, Simeone armou-se em Eric Cantona: pisou e rasgou a coxa de um jogador que começou a sangrar em pleno relvado. GOLO ´SIM´, MAMÃ ´NÃO´ No seu tempo, Simeone foi um jogador extravagante, mas não se pode dizer que não jogou com raça e coração. Até hoje. Durante os jogos não há outro como ele: berra, pula e gesticula sem parar. O lugar que lhe é reservado no banco de suplentes serve apenas para decorar. Simeone não consegue estar quieto. De pé, ou de um lado para o outro, nunca deixa os jogadores sossegados. Como ele há outro – Jurguen Klopp, o homem que se apresenta de fato de treino. Simeone é mais fino – tornou-se um adepto mascarado de fato e gravata por mero acaso. Em 2011 Simeone chegou ao trono de um Atlético sucumbido. No ano seguinte já estava numa final. Bastaram seis meses para que o treinador argentino levasse a primeira Taça, na final da Liga Europa frente ao Athletic Bilbao. Nesse dia, Simeone tirou uma camisa preta do armário. Vestiu-a e levou-a para o grande duelo. «Sou muito cabulero», admitiu Simeone numa entrevista ao ´El Mundo´, onde explicou que ´cabuleiro´, na Argentina, significa superstição. Teve sorte e tomou-lhe o gosto. Mas o destino marcou-o logo no berço. Mesmo em criança foi um rapaz diferente - a primeira palavra que Diego Simeone disse não foi ´mamã´ mas sim ´golo´. ...
Do Passado para o Presente No primeiro jogo em que o Sporting foi ao Porto, ganhou. Só que não era oficial. Quando o foi, na final do Campeonato de Portugal de 1922, perdeu – e foi assim que o FC Porto arrancou para o primeiro título nacional da história, numa caminhada marcada por peripécias e desconcertos, no futebol e no país. Com o Sporting de novo no Porto – ainda a sonhar com o regresso a campeão – em pano de fundo é sobre o que aconteceu nessas primeiras vezes que aqui se fala... Com o Benfica já o FC Porto jogara antes e fora esmagado, mas contra o Sporting, no Porto, a primeira vez foi em 1917 e perdeu por 4-1. O desafio foi no Campo da Constituição – que, por vezes, os portistas emprestavam ao Salgueiros, a troco de pagamento de um escudo e cinquenta centavos por partida e 20 centavos por banho e uso de cada toalha. Algum tempo depois, na Illustração Portuguesa que nas praias da Póvoa e de Miramar, de São Martinho do Porto e da Figueira da Foz, de Cascais e da Rocha, no Algarve, já se surpreendiam «banhistas graciosas de braços nus e tornozelos ao léu» - e não como antes: elas de vestidos a roçagarem o chão e às vezes de sombrinha também. Os pobres continuavam, porém, a ter de ir à água em sorrateirice, pela madrugada, vestidos com a roupa do dia-a-dia. E também se contava que uma velha de 70 anos de Vieira de Leiria que andara a vida inteira 16 quilómetros por dia a levar e a trazer malas de correio para ganhar 30 réis ficara «muito feliz» porque já só tinha de «fazer 12 quilómetros» para deixar as cartas de aldeia em aldeia e lhe puxaram o ordenado para 60 réis... DO SPORTING, O PRIMEIRO FUTEBOLISTA A GANHAR DINHEIRO (E NÃO SÓ…) Era do Sporting o futebolista que em Portugal mais ganhava por essa altura: Artur José Pereira. Fora, em meados de 1914, do Benfica para o Lumiar seduzido por José de Alvalade, recebia 36 escudos por mês – e tinha um outro privilégio: ser o primeiro a utilizar a banheira de água quente que havia no balneário. Valeu a pena o investimento – com ele o Sporting venceu o Campeonato de Lisboa de 1914/15, foi o primeiro título da sua história. (Mas, ainda não nacional – porque, então, títulos nacionais não havia no futebol, em Portugal…) Por essa altura, o Benfica tinha no futebol um massagista particular, o sueco Boo Kullberg, que, além de professor de ginástica, se tornou seu primeiro treinador de atletismo. Pagava-lhe pelo serviço de massagens 40 escudos por trimestre – e o FC Porto não se dava a tais luxos, nem a esses do massagista, nem aos outros do amador disfarçado. Nas viagens para fora da cidade, eram os próprios futebolistas do FC Porto que suportavam as despesas. Alguns, se se sentissem com pouco dinheiro, pediam discretamente dispensa. Por causa disso, levantou-se no clube um movimento de insubordinação, com ameaça de greve geral – quando se descobriu que Joaquim Reis, o Farrapa, recebera por baixo da mesa 100 escudos. Para apagar o fogo, o presidente Henrique Mesquita convocou os demais jogadores para, numa reunião no seu gabinete, lhes tocar ao ao coração: - O Farrapa só recebeu as suas despesas por ser tão pobre que jamais poderia pagá-las! «SUJOS E VERGONHOSOS» E OS PORTISTAS QUE FORAM À GUERRA… Era, era vida dramática dos pobres – por essas eras. No Porto ou em Lisboa. Ou onde quer que fosse. Pão pouco havia – e o que havia era de má qualidade. A batata às vezes podre custava 8 centavos o quilos. E na noite de 19 de Março de 1917, milhares de pessoas invadiram, em Lisboa, padarias e mercearias, saqueando-as. A polícia ripostou, a multidão em fúria enfrentou-a com pedras e paus, tiros e bombas – e pelo meio, a arrastar-se, sempre o mesmo grito: - Temos os filhos a morrer de fome... Houve mortos e feridos. E presos, muitos presos. O governo decretou o «estado de sítio» e só cinco dias depois anunciou que o «abastecimento de farinha estava regularizado e a vida na cidade tinha voltado à normalidade». Antes, a 30 de janeiro, partira para França, para a I Guerra Mundial, a I Brigada do Corpo Expedicionário Português, sob comando do coronel Gomes da Costa. Quase metade da equipa do FC Porto – entre portugueses e britânicos, sim porque britânicos eram o Harrisson e o Hamilton – foi na leva. Alguém escreveu que a «soldadesca portuguesa» chegara «suja, imunda, vergonhosa, uma tropa fandanga com que se pretendia alardear que temos um exército, mas não»... (A Cruzada das Mulheres Portuguesas lançou campanha de subsídios de 2 escudos e 30 centavos às famílias dos mobilizados – e em Lisboa o Século criou a Sopa dos Pobres para dar de comer a «milhares de desvalidos»...) A 4 de Abril deu-se nota do primeiro morto do CEP em combate: o soldado António Gonçalves Curado. Sobre o abrigo onde estava caiu granada que fez abater o tecto – e foi isso que lhe esmigalhou a cabeça. ...