Novas tecnologias nas organizações desportivas (artigo de António José Silva)

Olimpismo 12-10-2017 19:06
As federações desportivas (FD’s) são o elemento central da organização desportiva passando por elas o essencial da atividade quanto à regulamentação e organização competitiva. No âmbito do ordenamento jurídico o estado delegou competências de natureza pública nas federações de utilidade pública desportiva (UPD) porque considera que o desporto é uma atividade propícia ao exercício de cidadania através da dimensão associativa e um importante fator de inclusão, coesão social e territorial.

Devem, por isso, as FD’s no ordenamento jurídico do sistema desportivo nacional ser consideradas como os principais parceiros do estado na garantia do direito ao desporto, com insubstituíveis funções de interesse público com vantagens excecionais para os cidadãos, qualidade da vida comunitária e imagem do País em termos internacionais.

Depois de um período de um grande investimento estatal, via IPDJ, nas sedes das FD’s com UPD, na 1ª parte da década do novo milénio assistiu-se a uma redução drástica de financiamento (2012-2016) com consequências na trajetória, até então crescente, de aumento dos índices de prática desportiva, sem o necessário investimento na formação dos recursos humanos não técnicos das OD’s. Na fase atual justifica-se repensar o modelo de organização do desporto e, na estrutura de organização atual, os desafios da contemporaneidade que se colocam às OD’s.

O desporto exige estruturas organizacionais flexíveis capazes de responder aos desafios de uma sociedade em contínua e rápida mudança, num ambiente de responsabilidade social, de observância de elevados valores éticos, de partilha, de prestação de contas e de envolvimento numa governação orientada para a transparência, a eficiência e a eficácia.

Este pressuposto vai ao encontro de duas realidades atuais incontestáveis: ii) necessidade de readequação dos procedimentos organizacionais aumentando, num período de reduzido financiamento público, a eficiência organizacional e a resposta à missão institucional; ii) a necessidade de aumentar a atratividade de novos praticantes e espectadores num País com uma das taxas mais baixas de federados desportivos e de prática sistemática.

É neste contexto que o Desporto e as suas organizações devem encarar a premência de uma revolução tecnológica, com desafios e oportunidades em todos os seus pilares organizacionais, em áreas tão sensíveis como o marketing e comunicação, a gestão dos recursos humanos e documental, tudo inerido num plano de sustentabilidade que torne cada vez mais competitiva e eficaz a tomada de decisão.

A renovação tecnológica pode ser adotada em, pelo menos, três diferentes níveis de decisão: i) reorganização estrutural e funcional; ii) procedimentos de informação e comunicação; iii) ferramentas de apoio à tomada de decisão dos agentes desportivos.

No nível 1: Reorganização estrutural e funcional das OD’s, pela implementação da (re) estruturação interna e departamental e fluxo de interação entre os diferentes sectores, articulando as estruturas de liderança com as estruturas intermédias de governação, envolvendo as pessoas nas decisões; adequando o modelo funcional e adotando práticas organizativas flexíveis, facilitando a estratégia de diversificação de fontes de financiamento, privilegiando cenários de match funding.

No nível 2: Centralização da comunicação institucional, gestão interna de informação e comunicação unificada entre todos os departamentos e atividades, pela implementação de uma mensagem institucional unificada entre os diferentes agentes desportivos, promovendo a atratividade das OD’s e a captação de novos e diferenciados públicos, praticantes e espectadores, com dinâmicas mais próximas dos jovens, integradas num plano de comunicação “amigo” e de fácil perceção para o exterior. Este processo deverá passar pela afirmação da marca e imagem das OD’s; de renovação de páginas web e criação de páginas específicas de notícias e eventos; e o aumento de menções nas redes sociais.
No nível 3: Aumentar a capacidade de resposta às exigências, por um lado, e necessidades da prática por outro, garantindo aos agentes desportivos uma estrutura de suporte que lhes garanta condições para cumprir o seu trabalho, com planos estruturados e duradouros onde expõem todos os seus processos e contextos e nos quais são evidenciadas as condições, ferramentas e instrumentos de trabalho ao dispor, mediante o desenvolvimento de sistema de informação, de suporte à decisão.

O meio envolvente dos clubes e federações está cada vez mais complexo e evoluído e o desporto é mais competitivo e estudado, existindo várias fontes de informação. A filtragem da informação útil e pertinente e a análise das mesmas para a tomada de decisão são ferramentas imprescindíveis para o output final.

Nos três níveis de intervenção os diferentes agentes desportivos são os principais atores e responsáveis pela implementação tecnológica que deverá passar pelo aproveitamento de soluções existentes e acessíveis no mercado, adaptando-as: i) na implementação de programas de modernização e de desmaterialização otimizando e simplificando a utilização de plataformas digitais de gestão correte; ii) no aumento do uso de soluções digitais na gestão e nas práticas do quotidiano; iii) e no estímulo à utilização de soluções tecnológicas com uma visão de racionalização de custos e capacitação do conhecimento.

Como sensibilizar as OD’s a utilizar estas novas ferramentas e o estado a financiar?

Por um lado, pela disponibilização, numa estratégia de Benchmarking, dos recursos/plataformas tecnológicas de suporte à gestão organizacional das instituições desportivas já existentes, valorizando em sede de financiamento o seu uso.

Por outro lado, numa segunda fase se implementação, a obrigatoriedade da existência da certificação de qualidade institucional (que passa muito pela adoção de procedimentos certificados de gestão centralizada e unificada da informação) como condição sine qua non para o financiamento público.
Esta aposta tecnológica por parte das OD’s com UPD, devidamente regulada e financiada pelo estado, poderia estimular um nicho de mercado que se abre em termos de empreendedorismo tecnológico desportivo com as soluções que se colocam para a resolução de problemas concretos no âmbito do desporto em geral e algumas modalidades em particular.

O desenvolvimento de novos equipamentos; alimentos naturais e energéticos; wearables, soluções tecnológicas e de bioengenharia (sensores e microsensores; smart shoes, Indicadores 3D do movimento; Indicadores salivares, etc.); plataformas tecnológicas de apoio e consultoria técnico-científica à decisão; mecanismos de popularização do acesso à prática de eventos desportivos (eventos populares); desenvolvimento e canais de Streamming e apostas online, entre outros.

António José Silva, presidente da Federação Portuguesa de Natação
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