Os deuses não estão satisfeitos com o Movimento Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 71)

Espaço Universidade 13-09-2017 23:46
A 2 de Outubro de 2008 a comunicação social no Brasil noticiou que Arthur Nuzman acabara de ser eleito, por mais quatro anos, para presidir aos destinos do Comité Olímpico Brasileiro (COB). Tratou-se de uma eleição fundamental para Nuzman na medida em que, com grande probabilidade, significava que ia ser ele a presidir aos destinos da organização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016) cuja decisão seria tomada pelo Comité Olímpico Internacional (COI) no ano seguinte. E assim aconteceu. Nuzman, para além de membro do COI e de presidir ao COB, porque os deuses ouviram as suas preces, acabou a presidir à Comissão Organizadora dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Todavia, os deuses só atenderam às preces de Nuzman porque o desejavam castigar.

E porque é que deuses o desejavam castigar?

O que aconteceu foi que, sem ter avisado devidamente e em tempo útil os eleitores, isto é, os presidentes das Confederações, de que o ato eleitoral se ia realizar, Nuzman desencadeou um processo do qual só ele podia sair vencedor. Em conformidade, apenas publicou editais no Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro, e no Jornal do Comércio, de Pernambuco. Em consequência, muitos presidentes das confederações só souberam da eleição dois dias antes pelo que, diga-se de passagem, num País com um território imenso de 8.515.767,049 km² em que a distância entre Portalegre e Manaus é de 4.358 km, exercer o direito de voto, para a grande maioria das Confederações, acabou por ser uma autêntica missão impossível.

Ora bem, a virtude que os deuses do Olimpo mais apreciam nos Homens é um espírito competitivo, justo, nobre e leal. Pelo contrário, aquilo que eles mais abominam é um espírito covarde, hipócrita e oportunista que leva muitos dirigentes desportivos a utilizarem todos os processos para ganharem eleições e manterem-se agarrados ao poder. Infelizmente, por esse mundo fora, há muitos olímpicos dirigentes que organizam eleições “democráticas” que só ele pode vencer. E fazem-no sem qualquer réstia de vergonha.

E porque é que acontecem tais aberrações?

Porque suas excelências aprovam estatutos que lhes permitem fazer o que muito bem entendem sem prestarem satisfações a quem quer que seja.
Nesta conformidade, temos de dizer que Nuzman desenvolveu uma jogada de mestre, não porque tenha cometido qualquer ilegalidade mas, precisamente, porque tudo feito na maior das legalidades, quer dizer, de acordo com os estatutos do COB.

Todavia, os deuses do Olimpo ficaram profundamente desagradados com o comportamento e a eleição de Nuzman. Em conformidade, decidiram castiga-lo.
Não sei se o jornalista brasileiro Juca Kfouri recebeu qualquer informação especial da parte dos deuses do Olimpo, o que sei é que ele, há muito tempo, já vinha a denunciar o que se estava a passar no Movimento Olímpico (MO) no Brasil. E até afirmou que, desde o dia 2 de Outubro de 2009, data em que em que a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para receber a organização dos Jogos da XXXI Olimpíada, que se sabia que, mais dia, menos dia, Nuzman ia ser convidado para visitar a Polícia Federal a fim de explicar uma acusação com origem em França relativa à compra de votos por parte do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em que ele surgia como intermediário.
Em todo este processo, na linha de pensamento de Katia Rubio, uma das vítimas de Nuzman, tenho para mim que o dito já pouco interessa. Desde logo porque já passou à estória do desporto brasileiro. O caso está entregue à justiça pelo que, agora, só nos resta esperar que ela funcione e consiga transmitir, não só para os brasileiros como para os cidadãos dos mais diversos cidadãos países do Mundo, que o MO não pode ser um espaço de deboche e impunidade.

Mas se Nuzman já pouco interessa não é por isso que se podem baixar os braços e deixar que o MO, tanto em termos internacionais quanto nacionais, continue a ser uma instituição a funcionar em roda livre onde se realizam as mais estranhas eleições de corpos gerentes, quer dizer, sem qualquer controlo a não ser dos próprios vencedores. Por exemplo, uma eleição em que um dos candidatos, depois de afastar os eventuais opositores, preside à Comissão Eleitoral e decide sobre eventuais conflitos, não é uma eleição é uma farsa digna do mais primário subdesenvolvimento, aconteça onde acontecer.

Por isso, a situação que, hoje, se vive no MO internacional e em diversos países do Mundo, é gravíssima. Note-se que, se, ainda há pouco mais de quinze anos, o COI, presidido por António Samaranch, foi apanhado nas redes da justiça americana devido à corrupção relativa à candidatura de Salt Lake City aos Jogos Olímpicos de Inverno (2002), agora, pela comunicação social, chegamos à conclusão que os sucessores de Samaranch, tanto Jacques Rogge (uma grande desilusão para mim) como Thomas Bach (sem qualquer surpresa) continuaram a ignorar aquilo que se passava no MO internacional relativamente às candidaturas bem como a outros aspetos de fundamental importância para o MO internacional como é, por exemplo, o controlo de utilização de substancias dopantes. Porque, agora, depois do escândalo russo, querem-nos fazer acreditar que nos Jogos Olímpicos do Rio só aconteceram onze casos positivos em mais de 11303 atletas. Melhor do que no Rio de Janeiro (2016) só em Moscovo (1980) onde estiveram 5179 atletas sem que tivesse havido qualquer caso positivo.
Há muito que é evidente que os estigmas que hoje estão a ferir de morte o MO moderno têm de ser combatidos a montante. Eles não passam de consequências a jusante provocadas por causas que não tem havido coragem para combater. Nesta perspetiva, tudo deve começar não só por uma revisão séria, aberta e participada da Carta Olímpica como, também, para além dos relativismos que tomaram conta da consciência de muitos dirigentes, por uma revisão completa dos estatutos perfeitamente anacrónico sob os quais muitos Comités Olímpicos Nacionais (CONs) exercem o seu poder mais ou menos autocrático nos mais diversos países do Mundo. Porque, se começarmos a olhar para os estatutos dos CONs de diversos países da Europa, do Oriente, da América ou de África, chegamos facilmente à conclusão de que, em muitas situações, quando eles têm uma verdadeira existência legal, para além de não respeitarem a lei dos respetivos países, são autênticos atentados a uma sã convivência democrática propugnada, desde os primeiros tempos do MO, por Pierre de Coubertin. Infelizmente, os estatutos de muitos CONs foram elaborados tendo em atenção dois objetivos fundamentais: (1º) concentração do poder numa clique oligárquica que se considera possuída de uma espécie de “sangue azul” que a legitima para além de qualquer crítica; (2º) institucionalização de processos eleitorais que não passam de autênticas farsas que só servem para perpetuar as referidas cliques no poder que exercem sem qualquer controlo social. E tudo isto acontece sob a informação olimpicamente oficial de que os estatutos foram aprovados pelo COI como se o COI tivesse a capacidade para avaliar mais de duzentos estatutos redigidos em variadas línguas.

Pelo que está a acontecer, se, no domínio da ONU, o COI, enquanto membro observador, deve ser colocado na ordem sob pena de poder perder o seu estatuto, no âmbito dos diversos países, a partir das respetivas agendas de reforma do Estado, os governos devem ser capazes de prever a reforma do Modelo Europeu do Desporto (que se propagou pelos mais diversos países do mundo) incluindo a reforma do próprio MO porque este não se pode arvorar, como em muitos países está a acontecer, num Estado dentro do próprio Estado. Porque, o que, hoje, está bem claro é que o MO, tanto em termos nacionais quanto internacionais, não deve continuar a funcionar em roda livres à margem do seu credo, da sua vocação e da sua missão. O tempo de um Sistema Desportivo mundial e respetivos Sistemas Desportivos nacionais a funcionarem à custa do dinheiro dos contribuintes em regime de autorregulação está a virar-se contra as pessoas e a deturpar o ideário deixado por Pierre de Coubertin.

Nestes termos, o MO, em termos internacionais e no quadro dos Sistemas Desportivos dos respetivos países tem de mudar de vida sob pena de, se não o fizer, vir a ser fortemente castigado pelos cidadãos. E se não o for pelos cidadãos será, certamente, fortemente castigado pelos deuses do Olimpo.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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