A fábrica dos sonhos (artigo de José Augusto Santos, 5)

Espaço Universidade 13-09-2017 23:44
Sou operário na fábrica dos sonhos. Pretendo ser fautor de liberdade e de transformação mágica ao serviço de patrões inclementes que exigem o máximo de mim. A minha função principal como operário de sonhos é colocar asas nos produtos inacabados que me chegam e permitir-lhes voar acima das limitações e dos constrangimentos que trazem do berço.

Professor rima, na métrica e na essência, com liberdade. Não podia ser de outra forma.

Que estranha profissão é esta em que os patrões estão sempre a mudar? Estes patrões, embora temporários, são ditatoriais em extremo, não nos permitindo quaisquer desvios para a fragilidade e comodismo. Por eles temos de ser sempre fortes, mesmo que as forças sejam artificiais e nos venham dolorosas do âmago da alma. Quantas vezes o ânimo soçobra, a energia esvai-se, a vontade falece, mas temos, qual Fénix renascida, de acordar na manhã seguinte como se a roda do mundo dependesse de nós e da nossa arte em a pôr a girar.

Não podemos falhar porque os nossos patrões são implacáveis. Ali estão, com os olhos repletos de vida e a alma transbordando esperança, esperando de nós os passos de mágica que lhes permita inteligir o futuro.

Estes patrões, porque herdeiros de outros que já nos comandaram, trazem no seu íntimo o novo; são recalcitrantes, mas aggiornatti porque estão insuflados com o fluir do tempo. Ser professor é também saber acompanhá-los nas suas visões e motivações não querendo impor os modelos dos patrões anteriores. Cada geração de patrões que nos comanda tem os seus valores e idiossincrasias. Estar atentos a eles é nossa obrigação e mister fundamental.
São patrões que me ouvem e dão sentido ao meu trabalho. Enquanto, em outras fábricas, o trabalho pode ser alienante, isto é, afasta o homem da raiz de si próprio, na minha fábrica o trabalho é sinónimo de liberdade, inclusão, transformação radical e constante abertura ao novo.

O problema da minha fábrica é que os lucros não são facilmente mensuráveis. Os lucros demoram, por vezes, muito a chegar. Alguns dos meus patrões ficam mais ricos que outros; os condicionalismos para esta disparidade são múltiplos e pouco têm a ver com a sua capacidade de gerar riqueza e mais com as quotas iniciais com que chegam à fábrica. A riqueza que a minha fábrica promove acrescenta-se no corpo e na alma que é aquele lugar inexpugnável, derivado do corpo, e onde só se chega pela via da emoção e racionalidade.

Todos os dias entro na fábrica, não esmagado pela obrigatoriedade de um dever mecânico, mas engrandecido por um trabalho libertador que me suscita, cada dia, novos desafios.

Os meus patrões são irreverentes e constantemente insuflados pela pulsão da transformação. Não fazem a coisa por menos - todos os dias querem mudar o mundo. Honra lhes seja feita, pois ser jovem é trazer em si todos os sonhos do mundo. Ao contrário do poeta, eles são algo, serão sempre algo, querem ser sempre ser algo e além disso trazem na alma todos os sonhos do mundo.
Enquanto forem nossos patrões não lhes podemos coartar os sonhos. Isso seria crime hediondo merecedor de mil suplícios, porque dos seus sonhos nasce, em cada dia, um homem novo. Eles não sabem, nem lhes podemos dizer que esse homem novo não existe. É sempre um homem recauchutado com todas as imperfeições cobertas com um manto inefável de pretensa modernidade. Mas enquanto porfiam pelo homem novo o mundo pula e avança como…

Talvez lhes possa dizer que os seus sonhos também já foram meus. Vou-lhes dizer que quando era pequeno também, como eles, queria mudar o mundo; mais tarde, aprendi a mudar-me a mim próprio e, quero acreditar, que ao mudar-me a mim próprio, possa ter dado um contributo ínfimo para realizar o meu sonho de criança.

Temos patrões gentis, curiosos, servis, desinteressados, mal-educados, bonitos, feios, andrajosos, tortos, direitos, pretos, brancos, amarelos, esquerdistas, direitistas, centristas, conservadores, revolucionários. Esta diversidade natural caracterizadora de sociedades liberais não permite esquecer o cimento estruturante que os une – a dimensão de humanidade que a todos assiste. Ser professor é respeitá-los no seu fluir biológico, psicológico, cultural e axiológico.

Ser professor não é ser neutro em nenhuma das dimensões existenciais. É ser capaz de manifestar as próprias convicções de forma a que ninguém se sinta ofendido. Esse desiderato não é fácil de atingir, mas a autenticidade de um professor não pode ser calcada no cadinho da uniformização anódina. O ato de ensinar releva da coragem de assumir valores, mesmo em contraponto aos valores vigentes.

É melhor ser um professor bem definido axiologicamente que um ser anódino que vinga no disfarce da sua interioridade. O professor deve ser livre, autêntico e temerário e assumir-se plenamente perante os seus patrões. Ser professor não é ser “porreiro”; é ser exigente, principalmente consigo próprio, na consecução dos objetivos de enriquecer os patrões com o élan transformador que os potencie para a vida.

Os meus patrões chegam à fábrica titubeantes, incompletos, inseguros. Porfio para que saiam mais assertivos, menos incompletos e mais seguros. Alguns saem da fábrica repletos de certezas. Bem lhes digo: - Patrão! Não valides tanto a certeza e valida mais a redução da incerteza. Alguns fogem da linha de montagem que consiste em fazer produtos estranhos e difíceis de construir – espíritos livres e autênticos perscrutadores incansáveis da realidade. Esses que fogem da linha de montagem querem receitas imediatas para resolver problemas imediatos, quando a missão essencial da fábrica é perscrutar o futuro.

Alguns dos meus patrões, porque especiais, levaram-me àquele ponto de realização em que a emoção moldou a razão. Esses, são os próximos construtores do futuro.

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
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