A Loja Olímpica do Chinês (artigo de Gustavo Pires, 63)

Olimpismo 16-06-2017 23:35
Por Gustavo Pires
Segundo a comunicação social, um conjunto de gestores de topo da REN e da EDP foram constituídos arguidos na sequência da investigação que envolve as rendas pagas pelo Estado à EDP e negociadas por anteriores governos. O imbróglio é complicado desde logo porque o Ministério Público suspeita que EDP foi beneficiada em mais de mil milhões euros.

Mas o que é esta estória tem a ver com o desporto nacional?
Tem a ver com o desporto nacional na medida em que as empresas em causa são das maiores patrocinadoras do desporto ao ponto da REN ter patrocinado o Comité Olímpico de Portugal (COP) e a designada “equipa Olímpica” no Ciclo Olímpico do Rio de Janeiro. Atualmente ainda figura no portal do COP como uma das patrocinadoras.

E qual é o problema?

A política energética nacional está, hoje, nas mãos de grupos monopolistas. Em consequência, se as empresas portuguesas são esmagadas pela fatura energética que as colocam numa situação de desvantagem competitiva perante as suas concorrentes no mercado global, por sua vez, as famílias portuguesas, entre as europeias, são as que suportam a maior fatura com a eletricidade.

Em consequência, a imagem corporativa das referidas empresas junto da população portuguesa não pode ser boa, desde logo porque os portugueses são mansos mas não são parvos.

Ora, na impossibilidade de fazerem passar uma identidade corporativa positiva de confiança, credibilidade e prestígio para a população que não entende como é que tem de pagar altos preços a empresas estrangeiras pela eletricidade produzida nas barragens portuguesas, as referidas empresas são obrigadas a investir numa imagem corporativa virtual com o objetivo de mitigar os estragos provocados pela falta de confiança, credibilidade e prestígio da sua identidade corporativa junto da população.

E não é para menos porque, os portugueses, numa relação custo benefício inaceitável, para além terem as piores taxas de participação desportiva e os piores resultados nos Jogos Olímpicos da generalidade dos países desenvolvidos ainda se vêm na situação de estarem a promover a imagem de duas grandes empresas multinacionais que, tal como a generalidade delas, aos olhos da generalidade das pessoas, apoia o desporto como quem vai ao jardim zoológico, à aldeia dos macacos, atirar-lhes alguns amendoins. Claro que haverá sempre um ou outro macaco que ficará contente.

Quando em Novembro de 2013 a REN renovou o apoio ao COP o seu presidente durante a assinatura do protocolo teve a oportunidade de dizer: “o olimpismo é uma referência pelos valores e ambição que representam para todos os cidadãos e empresas”. Dizia, ainda, que a sua empresa se associava com entusiasmo ao COP na “preparação da Equipa Olímpica Portuguesa para os próximos Jogos Olímpicos no Brasil”. Pelo seu lado o presidente do COP afirmava que “o apoio de empresas nacionais é fundamental para que possamos promover o Olimpismo e o desporto em geral no nosso país”. Trataram-se de proclamações lindas que só serviram para satisfazer os basbaques.
É evidente que a posição do presidente da REN é absolutamente compreensível embora não aceitável. Ele limitou-se a defender os interesses corporativos da REN uma empresa constituída para liberalizar o mercado mas que funciona em regime de monopólio. Por isso, que melhor podia pretender a REN do que, ao “preço da uva mijona”, colocar o Movimento Olímpico nacional ao serviço da promoção da sua imagem.

Pelo seu lado, o presidente do COP quando afirmou que “o apoio de empresas nacionais é fundamental para que possamos promover o Olimpismo e o desporto em geral no nosso país” incorreu, pelo menos, num enorme equívoco. Tem a ver com o facto de a REN só ser uma empresa nacional porque opera em Portugal. Repare-se que a sua estrutura de acionistas é a seguinte: State Grid of China 25,0%; Omã Oman Oil 15,0%; Portugal Fidelidade 5,3%; Portugal Grupo EDP 5,0%; Red Eléctrica Internacional 5,0%; Estados Unidos The Capital Group Companies 4,8%; Canadá Great-West Lifeco 2,1%; Acções proprias 0,7%; Capital disperso (acionistas privados) - 37,2%.

O mesmo se passa com a EDP cuja estrutura acionista tem a seguinte constituição: China Three Gorges (21,35%); CNIC Co., Ltd (3,02%); Capital Group Companies, Inc. (14,09%); Oppidum (7,19%); BlackRock, Inc. (5,00%); Senfora BV (4,06%); Grupo BCP + Fundo de Pensões do Grupo BCP (2,44%); Sonatrach (2,38%); Qatar Investment Authority (2,27%); Norges Bank (2,29%); EDP (Acções próprias) (0,60%); Restantes Accionistas (35,31%).

Nestes termos, a ver bem, o Movimento Olímpico nacional, a troco de um prato de lentilhas, está a promover uma multinacional cujo acionista maioritário é chinês. Quer dizer, uma empresa “portuguesa” como lhe chamou o insigne presidente do COP que, praticamente, nem acionistas portuguesas tem. E assim, o desporto nacional, infelizmente, está transformado numa espécie de “loja do chinês”.

Entretanto, antes que a bomba-relógio rebente, continuamos, com expectativa, a aguardar Nova Agenda para o Desporto anunciada no Programa do XXI Governo Constitucional.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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