Olimpismo, Eleições e Dignidade (artigo de Gustavo Pires, 55)

Olimpismo 16:28
No meio de milhares de “selfies” e do mais genuíno discurso de desresponsabilização relativamente a um dos mais medíocres resultados da história do Olimpismo nacional, o Comité Olímpico de Portugal (COP) vai a votos numa competição em que, indecorosamente, só há um candidato.

Quer dizer, uma organização, que devia primar pela promoção das virtualidades de uma competição franca e aberta, continua a viver sob a direção de uns Estatutos e Regulamento Eleitoral completamente discordantes com os nobres princípios e valores que apregoa. Quer dizer, o País está perante uma situação que, para além de revelar uma completa ausência de cultura em matéria de desporto, não preserva um mínimo autenticidade em defesa de uma ética democrática de competição justa, leal e nobre, que deve ser apanágio do Movimento Olímpico.

Afinal está tudo na mesma. Contudo, há quatro anos foram muitos aqueles que entenderam que, finalmente, se iam ultrapassar os vinte e tantos anos de marasmo de uma liderança que conseguiu conduzir o Olimpismo nacional ao cume do ridículo quando, em 2001, apresentou ao Primeiro-ministro António Guterres a “proposta utópica e irrealizável de Portugal receber os Jogos Olímpicos”. Não importava em que ano. Podia ser 2016 ou 2020 tanto fazia. Contudo, ainda o deixaram estar mais doze anos à frente do COP. Acabou por conduzir a instituição para a vergonhosa hecatombe que foram os Jogos Olímpicos de Pequim (2008) e para a monumental confusão que foi o Ciclo Olímpico de Londres.

Infelizmente, quando julgávamos que, finalmente, o “olímpico hilariante” tinha passado para a triste história do desporto eis senão quando começámos a ser brindados pelo novo protagonista da Travessa da Memória com um outro tipo de performances desta feita trágico-cómicas que se iniciaram com a nomeação da Joana Vasconcelos para a Comissão de Cultura do COP, e prosseguiram com: a adesão entusiástica à vergonha nacional que foram os “Lusofonia Games”; a nomeação de Miguel Relvas, entretanto afastado do Governo, para Alto-comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa no Rio de Janeiro; a determinação, ao estilo “magister dixit”, do desporto como um “desígnio nacional; a pungente situação do Presidente do COP, coberto de medalhas e “honoris causa”, a embarcar para o Rio de Janeiro preocupadíssimo com as questões do cumprimento do “dress code” quando existiam situações absolutamente inaceitáveis relativamente aos atletas; a participação olímpica portuguesa transformada numa espécie de “jogo de casino” quando, confundindo a realidade com os próprios desejos e confiando na sorte que os deuses do Olimpo haviam de lhe oferecer, o presidente do COP anunciou pomposamente (como é seu hábito) ao País seis medalhas olímpicas que só não foram reduzidas a zero por obra e graça do Divino Espírito Santo.

Entretanto, depois do desastre que foi a participação portuguesa nos Jogos do Rio, o Presidente do COP, apoiado pela sua própria Direção também ela responsável pelo desastre, como se não fosse nada com ele, deitou o fracasso para trás das costas e, com a desenvoltura dos mais genuínos mestres da política portuguesa, perante a indignação geral, anunciou a sua recandidatura a mais um mandato!

Em consequência, à revelia da sua história, e através de uns Estatutos e um Regulamento Eleitoral absolutamente anacrónicos, o COP está a transformar-se numa organização cada vez mais fechada à sociedade portuguesa e à participação democrática da generalidade dos portugueses. Quer dizer, uma organização que devia ser exemplarmente gerida por uma cultura fundada na meritocracia está, desgraçadamente, a ser gerida pela mais genuína mediocrocracia.

E, assim, perante a abúlica passividade do Governo, os portugueses vão continuar a financiar uma organização cujas lideranças, ao estilo “superstar”, se recusam sistematicamente a assumir as suas responsabilidades e, daí, honrosamente, retirarem as devidas consequências.

Assim, perante este cenário de irresponsabilidade, mediocridade e irracionalidade perguntamos:

1º - Como é possível as Federações Desportivas, ao cabo de 12 anos de sucessivos fracassos, continuarem a aceitar partilhar as suas responsabilidades, em matéria de Alto Rendimento desportivo, com o COP? A preparação olímpica é uma questão do Alto Rendimento pelo que não deve ser um assunto do COP que não tem qualquer competência para isso. Ao COP, segundo a carta Olímpica e a Lei portuguesa, compete-lhe, tão só, organizar a Missão Olímpica. Ora, relativamente aos Jogos Olímpicos do Rio nem isso foi capaz de fazer com a devida competência. O subsistema do Alto Rendimento, a fim de potenciar sinergias de sinal positivo e minorar as de sinal negativo, tem de ser gerido de forma integrada. Ora bem, o COP não tem nem nunca terá competências para isso. Desde logo porque não tem legitimidade democrática. A menos que se acabe com o Estado e se institucionalize a anarquia. Quando é que a tutela política vai compreender isso?

2º - Como é que as Federações Desportivas podem aceitar pactuar com uma organização onde reina a mais inacreditável confusão? Entre muitas outras, lembramos só a inexplicável censura ao relatório do Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Entretanto, à boa maneira do 1984, o Chefe de Missão foi, simplesmente, “apagado”. O que é que se passou no Rio de Janeiro que justifique acabar com o Relatório do Chefe de Missão que é uma das medidas mais saudáveis que ainda subsiste num COP cada vez mais hermético?

3º - Como é que as Federações Desportivas podem aceitar partilhar o financiamento público com o COP quando esta organização vive numa situação de superavit? Hoje, as Federações Desportivas, para além da de futebol, estão transformadas em órgão de logística do COP pelo que estão impossibilitadas de cumprirem a sua missão em matéria de desenvolvimento do desporto. Por um lado, não têm dinheiro para promoverem o Desporto de Base, por outro, não têm competência sobre a totalidade do Alto Rendimento. Entretanto o que é que lhes resta? O kettering?

4º - Como é que os líderes federativos das modalidades do Programa Olímpico, em consciência, podem aceitar pacificamente a inacreditável composição da lista única candidata aos órgãos sociais do COP? Bem vistas as coisas, trata-se de uma lista constituída, por um lado, por antigos dirigentes há muito “fora de prazo”, quer dizer, autênticos “pesos mortos” no Movimento Olímpico e, por outro lado, por novos elementos que pouca gente ou ninguém conhece, escolhidos não se sabe com que critério. Entretanto, é claro e seguro, que os dirigentes federativos, entretanto ignorados, principalmente os presidentes das Federações Desportivas, vão continuar os próximos quatro anos “a ver os navios passar”.

5º - Como é possível que os líderes federativos das modalidades que não pertencem ao Programa Olímpico se possam rever nas atitudes ostracizantes que têm sido desenvolvidas e, seguramente, vão continuar a ser? Porque não existem modalidades olímpicas. Existem modalidades que, circunstancialmente, pertencem ou não ao Programa Olímpico. Sempre assim foi, desde o tempo de Pierre de Coubertin. Quer dizer, não existem modalidades desportivas de casta superior.

6º - Finalmente, como é que a generalidade dos membros da Assembleia Eleitoral do COP pode aceitar mais quatro anos de uma liderança unipessoal ao estilo “magíster dixit”? O mundo do desporto sempre foi gerido a partir de uma cultura democrática. Mesmo antes do 25 de Abril de 1974, de uma maneira geral, o exercício da democracia acontecia na generalidade das organizações desportivas. E, por exemplo, quando José Pontes, antigo presidente do COP, depois do desastre que foi a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Melburne (1956), tal como está agora a acontecer com o atual presidente do COP, também pretendia livrar-se das responsabilidades e continuar agarrado ao poder durante mais quatro anos, acabou por ser afastado contra a sua vontade por Nobre Guedes porque, ao tempo, ao contrário daquilo que hoje acontece, a competição democrática era justa nobre e leal.

Perante a inaceitável situação da existência de uns Estatutos e uns Regulamentos Eleitorais que, em termos práticos, bloqueiam a existência de listas alternativas, no próximo dia 23 de Fevereiro, os membros da Assembleia Eleitoral do COP que ainda acreditam nos valores do Olimpismo, na ética de competição, nas virtualidades da democracia e em projetos partilhados de desenvolvimento do desporto, na privacidade que deve estar garantida quando expressarem os respetivos votos, perante a inaceitável situação de existir uma única candidatura, no respeito pela própria dignidade, em alternativa, têm a oportunidade de manifestar o seu desacordo votando nulo.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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