Alternativa Olímpica: Votar Nulo… (artigo de Gustavo Pires, 54)

Olimpismo 12-02-2017 23:09
Por Gustavo Pires
Numa situação em que nada é o que pretende fazer crer, depois de admitir o fracasso que foi a Missão aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, à boa maneira portuguesa, deitou para trás das costas quatro anos de uma gestão absolutamente ruinosa e, sob o lema “o futuro que nos une” anunciou a recandidatura a mais quatro anos de olímpico poder.

Infelizmente, trata-se de uma candidatura única na medida em que, embora o candidato lamente não haver oposição, o que é facto é que os Estatutos do Comité Olímpico de Portugal (COP), revistos recentemente por ele próprio, para além de configurarem uma organização profundamente fechada ao País e aos portugueses, originam um Regulamento Eleitoral que, em termos práticos, dificulta ao máximo o surgimento de qualquer candidatura para além daquela que já está instalada no poder. E, a prova-lo, aí está o “flop” que foi a candidatura alternativa anunciada n’ A Bola (2016-09-09) que, perante um silêncio sepulcral das Federações Desportivas que embora não acreditem em bruxas sabem que elas existem, acabou por não conseguir sequer as assinaturas necessárias para se apresentar a eleições. Ora, se do ponto de vista interno, esta situação não honra uma organização que devia primar pelo contraditório próprio de uma cultura olímpica de competição, do ponto de vista externo, é inaceitável a permissividade com que os Governos olham para a situação, delegando competências e transferindo recursos financeiros substanciais para uma organização cujos Estatutos e Regulamento Eleitoral impossibilitam uma cultura de verdadeira competição democrática.
Entretanto, ao cabo de doze anos de inaceitáveis fracassos desportivos, as Federações Desportivas que, há muito, estão a funcionar “abaixo da linha de água”, inspiradas no pensamento de Friedrich Nietzsche (Ecce Homo - como vir a ser o que se é), já deviam ter concluído que não vale a pena elegerem “líderes com pés de barro” como intermediários entre elas e a tutela porque só vão ser prejudicadas. Quer dizer, há muito que estão a financiar uma organização que duplica serviços que competem ao Estado, sem que daí advenham quaisquer vantagens, antes pelo contrário. Em consequência, enquanto as Federações Desportivas vivem numa confrangedora penúria financeira, que se tem vindo a traduzir em prestações cada vez piores dos atletas nacionais nos Jogos Olímpicos, dos dados já conhecidos do relatório que está para aprovação, percebe-se que o COP vive alegre e confortavelmente numa situação de superávite à custa do dinheiro que, a partir de 2005, começou a ser subtraído às federações. E o presidente do COP, de tal maneira “vidrado” pelas medalhas olímpicas, faz-nos lembrar Aquiles que, na parábola de Zenão, jamais conseguirá alcançar a tartaruga.

A tendência para desenvolver organizações de estilo paternalista e de pensamento único que privilegiam um ambiente de “paz podre” não é de agora. Sempre foi desejo de determinados líderes de estilo autoritário em defesa de um “status quo” de conveniência. Ora, o desenvolvimento não acontece no “status quo”, só acontece a partir da euritmia de um equilíbrio dinâmico onde é possível confrontar conhecimento, experiência e projetos alternativos. A esta situação os gregos antigos chamavam-lhe “stasis” palavra que significava que cada talento ou vocação se devia desenvolver e realizar através do confronto da luta física ou, entre outras, da luta de ideias. Como referiu Carl Schmitt, a palavra “stasis” estava envolta numa “tensa dialética” na procura de uma situação eurítmica de estabilidade dinâmica pela permanente competição, em oposição a uma situação de estabilidade podre pela anulação da vontade dialética com a consequente subordinação de todas as vontades a uma única vontade que, voltando ao pensamento de Nietzsche, significa, simplesmente, uma cultura em que se privilegia o “instinto de rebanho”. E foi neste sentido que Pierre de Coubertin, que era um helenista de alto gabarito, concluiu que o verdadeiro atleta só aprendia realmente a conhecer-se a si e aos outros quando, eficazmente, associava a vontade de vencer às mais nobres qualidades da condição humana que desabrocham num ambiente de competição justa, leal e nobre. Ele entendia que o princípio da luta justa, leal e nobre, no respeito pelo princípio da equidade, era para ser aplicado tanto a atletas, quanto a técnicos e a dirigentes, bem como à generalidade dos sistemas sociais. Quer dizer, a defesa do Espírito Olímpico, devia estar de acordo com o princípio moral do contraditório enquanto apanágio da vida democrática. Por isso, quando Pierre de Coubertin desencadeou a organização do Movimento Olímpico moderno ele olhou para o futuro com uma perspetiva sonhadora mas, sobretudo, com a postura ideológica de que o futuro só podia acontecer a partir da justa luta de caráter positivo entre opostos.

Um verdadeiro líder deve ser possuidor de uma ampla abertura de espírito relativamente aos outros e ao mundo e, sobretudo, aceitar os outros para além do controlo burocrático-financeiro que sobre eles pode exercer. Vangloriar-se de um apoio de unanimidade quando se exerce domínio financeiro sobre aqueles de quem se recebe o apoio significa, tão só, que se está perante “um líder com pés de barro” que deixou de se enxergar.

Assim sendo, em vésperas de eleições para os órgãos sociais do COP, a Assembleia Eleitoral deve considerar que, salvo uma ou outra exceção, se está perante: (1º) Uma lista única liderada por alguém que ao longo dos últimos quatro anos deu provas de não estar interessado em desenvolver uma liderança partilhada com a generalidade das Federações Desportivas; (2º) Uma lista única formada por dirigentes completamente ultrapassados que, como se viu no último Ciclo Olímpico, já nada têm a oferecer ao Movimento Olímpico; (3º) Uma lista única remendada por novos dirigentes que, sem qualquer currículo de ordem prática ou teórica no âmbito do Movimento Olímpico, levantam sérias dúvidas quanto à sua capacidade para desempenharem as funções que, eventualmente, lhes serão atribuídas; (4º) Uma lista única que peca pela reduzida presença de ex atletas olímpicos, bem como de ex treinadores olímpicos que, aos olhos dos críticos, foram simplesmente ostracizados.

Em conclusão, fica-se com a ideia de se estar perante uma lista que levanta muitas interrogações que, sem invocar a mulher de César, não têm explicação possível.

Em consequência, a Assembleia Eleitoral do COP está confrontada com uma situação em que se aderir à lista única: (1º) Fica mais quatro anos prisioneira de uma liderança que, pelo seu estilo e prática, foge do contraditório pelo que não dá a devida atenção às Federações Desportivas e aos demais agentes; (2º) Dá a entender ao Governo estar de acordo com o atual modelo caótico de desenvolvimento sustentado numa organização que não responde nem pode às inalienáveis obrigações constitucionais do Estado português em matéria de desenvolvimento do desporto.

Nesta conformidade, os membros da Assembleia Eleitoral do COP, a fim de preservarem a sua dignidade e competência, perante a inaceitável ausência de uma lista alternativa, no próximo dia 23 de Fevereiro, só lhes resta votar nulo. O voto é secreto.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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