Olímpico-tropicalismo (artigo de Gustavo Pires, 46)

Olimpismo 30-10-2016 18:51
O acontecimento foi-me, em primeira mão, relatado por José Craveirinha (1922-2003), esse grande poeta moçambicano que tinha um enorme amor pelo atletismo. Em meados dos anos noventa tive a oportunidade de conversar com José Craveirinha que me recebeu na sua residência na cidade do Maputo. Para meu espanto e admiração, na tradição da cultura desportiva moçambicana, a “sala de estar” onde Craveirinha me recebeu fazia lembrar os “ginásios de ferro” que estiveram na génese da cultura física e do movimento desportivo na cidade de Lourenço Marque, atual Maputo, que Edmundo Ribeiro, docente na Universidade Pedagógica, tão bem referiu na sua tese de doutoramento defendida em 2014 no ISCTE em Lisboa.

José Craveirinha contou-me que, em meados dos anos oitenta foi ele que, na qualidade de dirigente desportivo, conduziu a grande campeã moçambicana Maria Mutola para a prática do atletismo. A partir de então, a atleta passou a ser treinada por Stelio Craveirinha (filho de José Craveirinha) um dos técnicos de atletismos mais prestigiados do desporto moçambicano. O que acontece foi que Maria Mutola, acompanhada por três dirigentes moçambicanos entre eles o próprio José Craveirinha, esteve no SL Benfica a fim de ser avaliada a possibilidade da atleta poder passar a viver em Portugal e a treinar no clube. Todavia, os dirigentes moçambicanos, depressa se aperceberam que, se Mutola ficasse em Portugal, para além de passar a competir sob o emblema do SL Benfica, o que seria natural, rapidamente seria naturalizada portuguesa a fim de passar a competir também por Portugal. Claro que em prejuízo dos interesses de Moçambique. Em consequência, sob a orientação do Governo de Moçambique, os dirigentes moçambicanos, acompanhados por Maria Mutola regressaram imediatamente a Moçambique. Mais tarde, através de uma bolsa atribuída pelo programa de Solidariedade Olímpica do Comité Olímpico Internacional (COI) a atleta foi viver para os EUA onde passou a estudar e a treinar. E continuou a competir por Moçambique. Acabaria por conseguir resultados extraordinários nos 800 metros em Campeonatos do Mundo e Jogos Olímpicos. Competiu, pela primeira vez, nos Jogos Olímpicos de Seoul (1988) tinha 15 anos de idade. Em Barcelona (1992) ficou em quinto lugar, em Atlanta (1996) ganhou bronze e em Sydney (2000) ganhou a medalha de ouro. Maria Mutola acabou por ficar conhecida como o “Expresso do Maputo”. Ela passou a representar um extraordinário caso de sucesso com um final que, devido à perceção e inteligência dos dirigentes moçambicanos, acabou por proteger Portugal de uma atitude que, a ter acontecido, só faria lembrar o Luso-tropicalismo dos velhos tempos coloniais, em que o regime se servia dos atletas africanos oriundos das chamadas Províncias Ultramarinas para, através do desporto, expressar uma falsa multiculturalidade do regime. Infelizmente, Maria Mutola foi, tão só, uma das poucas exceções no Portugal do pós 25 de Abril.

Na realidade, foram inúmeros os casos de atletas africanos provenientes dos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOPs) que, vivendo ou tendo vindo viver para Portugal, foram aliciados a competir por Portugal. Por exemplo, um dos casos mais flagrantes aconteceu com essa grande atleta que foi Naíde Gomes na medida em que ela, entre muitos outros atletas africanos, representa bem a mediocridade cultural e política de alguns dos nossos dirigentes desportivos e políticos no que diz despeito à conceção e execução de uma estratégia de relações fraternas de Portugal com os PALOPs que, verdadeiramente, se projete num futuro que deverá ser comum. Naide Gomes fez parte da Missão Olímpica de São Tomé e Príncipe (100 metros barreiras) aos JO Olímpicos de Sydney (2000). Quatro anos depois, integrou a Missão portuguesa (heptatlo) nos JO de Atenas (2004). Ora bem, isto trata-se de “rapina desportiva” por parte de Portugal relativamente aos países que falam português. Portugal não é uma Dinamarca, uma Suécia ou Noruega que não viveram o processo histórico da colonização. Portugal tem responsabilidades ético-morais em África que não podem ser varridas para “debaixo do tapete” por um qualquer dirigente desportivo ou político oportunista e ignorante.

É inaceitável que atletas oriundos diretamente das antigas colónias portuguesas, inclusive de segunda e terceira gerações a viverem em Portugal, sejam aliciados a optar pela nacionalidade portuguesa em contrapartida de poderem obter as oportunidades e os apoios necessários ao treino desportivo que, de outra maneira, não conseguiriam obter. Jacques Rogge, antigo presidente do COI, em 2004 afirmou bem alto para todos aqueles que o quiseram ouvir que se opunha à compra de atletas oriundos de países em vias de desenvolvimento pelas nações mais ricas que, deste modo, só pretendiam aumentar o seu “medalheiro desportivo”. Que direito tinha Portugal de “usurpar” uma atleta a São Tomé e Príncipe só para tentar ganhar mais uma medalha nos Jogos Olímpicos de Atenas? Repare-se que a atleta, à semelhança daquilo que aconteceu com Maria Mutola nos EUA, podia treinar e competir por um clube português e, eventualmente, até obter os apoios do Estado português e continuar a competir por São Tomé e Príncipe. Se tal tivesse acontecido só demonstrava a elevação das políticas públicas em matéria de desporto dos vários governos portugueses. O problema é que, hoje, até no desporto, os mais nobres valores espirituais estão, olimpicamente, condenados a desaparecer.

Por isso, a situação desportiva africana, em muitas situações, é dramática. O desporto africano, em especial o futebol, está a ser sangrado pelos mais diversos países europeus. Como refere Peter Alegi professor da Universidade do Michigan, mais de 80% dos jogadores da Taça de África de Futebol jogam em clubes sediados na Europa. É o chamado “brawn drain” que prejudica o próprio desenvolvimento do desporto africano. Quem visita países africanos apercebe-se rapidamente que as populações estão mais interessadas no futebol europeu do que no dos seus próprios campeonatos. Ora, esta situação significa um certo neo-colonialismo cultural e desportivo que, hoje, se processa por via da televisão e da net. Consequentemente, o futuro do futebol africano está na triste situação de não ter futuro nenhum desde logo porque, muito embora alguns grandes jogadores de futebol como Didier Drogbas ou, entre outros, Michael Essien, tenham regressado aos seus países de origem e estejam a contribuir para o desenvolvimento do futebol e do desporto em geral o que é facto é que eles não são a regra mas a exceção.

É claro que não nos podemos opor a que atletas africanos procurem melhores condições de prática desportiva e, sobretudo, de vida, nos clubes europeus. Todavia, tal como não se pode negar que um atleta africano possa representar um clube europeu, assim também não se pode admitir aos governos dos países europeus que, para colherem dividendos políticos internos, tirem disso partido a fim de melhorarem as respetivas seleções nacionais em prejuízo das seleções dos países africanos. É inaceitável que os governos europeus, a partir das respetivas federações desportivas que, regra geral, exercem funções públicas, aceitem que as seleções nacionais das mais diversas modalidades sejam constituídas à custa de atletas de países africanos mesmo que já sejam de segunda e terceiras gerações. O que está a acontecer no desporto, que, no fundo, é um laboratório social, representa bem quanto de errado estão as políticas económicas e sociais hoje desenvolvidas na Europa que, cada vez mais, se está a transformar num continente moribundo que deseja mostrar vitalidade à custa de resultados desportivos conseguidos por atletas que deviam estar a competir pelos seus países africanos.

E tudo isto vem a propósito da notícia da Inforpress, diretamente da Cidade da Praia, de finais do mês de setembro de 2016, que anunciava que o futebolista luso-cabo-verdiano Gelson Martins foi convocado para o duplo confronto da seleção portuguesa, frente a Andorra e Ilhas Faroé, jogos para a qualificação para o Mundial de Futebol a realizar na Rússia em 2018. Claro que Gelson Martins, independentemente de todas as influências e pressões a que, eventualmente, tenha sido sujeito, tem todo o direito de decidir sobre a sua vida e o destino que lhe quer dar. No entanto, o Governo português, para além de ter a obrigação de cultivar as boas relações entre Estados também tem a responsabilidade de preservar e incrementar os bons sentimentos entre os portuguese e os cidadãos das ex colónias, hoje países independentes. Assim, é inaceitável a institucionalização de um novo Luso-tropicalismo desportivo que só nos pode envergonhar e prejudicar as relações entre os PALOPs e Portugal, país que, cada vez mais, é visto nas ex colónias como um parasita desportivo. Ao tempo do colonialismo eram os interesses políticos que, na metrópole, determinavam a utilização de atletas africanos pelos clubes e pelas seleções nacionais das várias modalidades, contudo, nas colónias, o desporto formal era fundamentalmente praticado pela população branca. Hoje, são os mais mesquinhos interesses económicos e políticos que comandam as decisões políticas em matéria de desporto num país carente de políticas públicas minimamente concertadas com os verdadeiros interesses dos portugueses e a organização do futuro do País. Nestes termos, foram absolutamente inapropriadas as palavras do presidente do COP quando, após o insucesso da Missão Portuguesa aos JO de Londres (2012), numa entrevista à Lusa (9-8-2012), afirmou: “Se queremos 10 ou 11 medalhas, rápidas, então temos de mudar de caminho. Há muitos atletas africanos que querem vir para a Europa e as medalhas aparecem." Ora bem, trata-se de uma visão do desenvolvimento do desporto absolutamente desgraçada que, na esteira do Luso-tropicalismo, distorce completamente os princípios e os valores olímpicos bem como a vocação daquilo que deve ser a Missão Olímpica de um país. Por outro lado, nunca 10 ou 11 medalhas olímpicas poderão, alguma vez, melhorar as condições de vida do País ao ponto de, como se afirmava, tornar os portugueses mais felizes. Ou até, tão só, de melhorar o nível desportivo do País. Esta visão olímpico-tropical é, tão só, na sua desumanidade e ignorância, inadmissível.

Gelson Martins, ao optar pela seleção portuguesa que está sempre sob o risco de se transformar numa espécie de “legião estrangeira”, declinou o convite feito pela Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF) para se integrar na equipa dos “Tubarões Azuis”, nome por que é conhecida a seleção cabo-verdiana de futebol. Não foi o primeiro cabo-verdiano a fazê-lo e, certamente, não será o último. Muitos cabo-verdianos optaram por competir pela seleção portuguesa em prejuízo de uma eventual participação na seleção cabo-verdiana. Ora, se esta situação significa dividendos políticos internos e chorudos prémios de participação para Portugal, pelo contrário, para Cabo Verde significa humilhação política e prejuízos económicos para o futebol cabo-verdiano. Os referidos futebolistas estavam e estão no seu direito. Longe de nós pôr em causa esse direito. Contudo, no que diz respeito ao governo português, a situação já é bem diferente na medida em que ao conviver apoliticamente com tal processo acaba por descuidar das relações entre o povo português e os povos das antigas colónias que, naturalmente, se sentem defraudados sempre que surgem semelhantes situações.

Devemos exigir uma ética de autenticidade aos dirigentes políticos e desportivos portugueses. O futebol nos países africanos é um caso sério. Por exemplo, Cabo Verde ocupa a 71ª posição do ranking da FIFA. Em 2013 ficou em 7º lugar na Taça das Nações Africanas e, em 2015, em 11º lugar. Por muito pouco não esteve presente no Brasil em 2014 e as expetativas de poder estar presente em 2018 na Rússia continuam intactas assim possa o País contar com os futebolistas que militam na Diáspora. A seleção cabo-verdiana é constituída praticamente por futebolistas que jogam em países europeus maioritariamente em Portugal. Em consequência, do Programa de Governo da IX Legislatura (2016-2021) da República de Cabo Verde pode ler-se que o Governo incorporará a Diáspora no desenvolvimento do Desporto Nacional. Diz o programa: “a nossa vocação de País de Emigração implica um reforço da aposta que muitas federações desportivas vêm fazendo no recrutamento de atletas residentes nos países de acolhimento, alargando o campo de recrutamento à possibilidade de participação no desenvolvimento do desporto nacional a técnicos, dirigentes e empresários da indústria desportiva”. Esta situação não é de agora. Há vários anos as autoridades de Cabo Verde assinaram um protocolo com a International Centre for Sport Security (ICSS) a fim de estabelecer uma estratégia de "controle" da fuga de atletas de Cabo Verde para Portugal e outros países. O programa que decorre sob a responsabilidade tripartida do Ministério da Educação, do Ministério das Comunidades e do Ministério das Relações Exteriores tem como objetivo prospetar e detetar jovens talentos desportivos na diáspora. Trata-se de integrar a diáspora no desporto nacional e tentar acabar com o drama que é a perca de talentos desportivos para outros países o que não acontece só no futebol.

Quando, pela comunicação social, se tomou conhecimento que Gelson Martins havia integrado a seleção da equipa portuguesa de futebol entrei em contacto com vários amigos cabo-verdianos a fim de perceber o sentimento que lhes ia na alma. A imagem dos Tubarões Azuis é um dos mais fortes símbolos da identidade nacional, da cultura popular, da nação e da “cabo-verdianidade” de um país arquipélago que, constituído por uma significativa diversidade de raças e etnias, conquistou a independente há pouco mais de quarenta anos. Por isso o que constatei foi que a chamada de Gelson Martins à seleção nacional portuguesa de futebol deixou Cabo Verde em estado de choque. Portugal, mais uma vez, ia servir-se de um cabo-verdiano para alimentar a sua seleção nacional de futebol em prejuízo da seleção cabo-verdiana que está a lutar por um lugar no Mundial de 2018. Contudo, a educação e os sentimentos fraternos dos cabo-verdianos relativamente a Portugal e aos portugueses levava-os a controlarem a revolta que lhes vai na alma. O povo cabo-verdiano é, afortunadamente, constituído por uma miscelânea de raças e etnias de uma riqueza extraordinária. A sua personalidade está tão longe dos traços fortes das personalidades dos povos do continente africano, quanto do utilitarismo amoral e egoísta que hoje caracteriza os traços fundamentais da personalidade dos europeus. A música cabo-verdiana, na sonoridade da sua melodia, no batimento dos seus ritmos e no crioulo das suas letras, expressa bem a personalidade de uma povo que tem sabido construir um futuro de harmonia como nenhum outro povo africano. E o desporto em geral com o futebol em particular é um catalisador dessa harmonia e coesão nacional.

Lamentavelmente, a generalidade dos dirigentes políticos e desportivos portugueses ou não faz a mínima ideia dos estragos que tais situações provocam ou, simplesmente, não quer saber o que ainda é pior. Na visão miudinha de curto prazo, egoísta e medíocre que têm do desporto não percebem o poder do próprio desporto enquanto instrumento de “soft power” ao serviço das relações entre os países e os povos. Não entendem que o futuro das relações entre Portugal e os países africanos que falam português, em grande medida, passa pela institucionalização de políticas públicas em matéria de desporto geradoras de solidariedades, afetividades, desenvolvimento e progresso.

Gelson Martins esteve de férias em Cabo Verde no passado mês de Julho. Na ocasião, foi convidado pelo presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol Victor Osório, para representar a seleção nacional. Gelson integrou o escalão sub-21 de Portugal, contudo, segundo as leis da Federação Internacional de Futebol (FIFA), qualquer jogador pode representar uma seleção principal, desde que só tenha representado as categorias (até Sub-21) do país onde nasceu ou fez a formação desportiva. Em conformidade, a questão ficou em aberto pelo que gerou muita expectativa no seio dos cabo-verdianos. Tudo isto se sabia em Portugal.

Infelizmente, os dirigentes políticos e desportivos portugueses não perdem uma ocasião para se aproveitarem de atletas que, com dupla nacionalidade, poderiam competir pelos países africanos de origem ou da origem dos seus progenitores. Contudo, Portugal demonstraria verdadeiramente a grandeza humana das suas políticas, a visão fraterna dos seus dirigentes e um sentido de oportunidade relativamente à construção do futuro comum se optasse por não privilegiar os seus interesses desportivos em prejuízo dos interesses desportivos das ex colónias, hoje países independentes. É o mínimo que se deve esperar de políticos que passam a vida a falar em cooperação económica e cultural e a verter “lágrimas de crocodilo” pelo passado histórico de Portugal em África.

A força do vil dinheiro e da política oportunista, bem como a ausência cada vez maior de qualquer preocupação de ordem ético-moral relativamente a uma ideia de desenvolvimento do desporto, colocam no “caixote do lixo da história” os princípios, os valores e as relações fraternas que deviam presidir à diplomacia desportiva de Portugal para com os países africanos que falam português. Ao fazê-lo, Portugal não honra as suas obrigações na medida em que, em matéria de diplomacia desportiva, insiste em manter uma atitude semelhante à do triste Luso-tropicalismo dos tempos coloniais.


Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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