João Wengorovius Meneses e o Aniversário Neokitsch do COP (artigo de Gustavo Pires, 25)

Olimpismo 13-12-2015 19:51
Por Gustavo Pires
Presumimos que o sr. secretário de Estado da Juventude e Desporto foi convidado para, na próxima segunda-feira dia 14 de dezembro de 2015 pelas 18.30 h, presidir à festa de aniversário “neokisch” dos inflacionados 106 anos do Comité Olímpico de Portugal (COP). Ao fazê-lo, nesta data que presumimos estratégica na medida em que o dia do aniversário oficial do COP (embora errado) foi no passado dia 26 de outubro, sua excelência vai, certamente, ser surpreendido com a tradicional praxe com que os dirigentes desportivos fazem questão de brindar os anjinhos que, vertiginosamente, pousam na tutela do desporto nacional. E assim, o dito vai viver o ritual de iniciação do costume que passa por uma demonstração de “poder sem força” da corporação desportiva que, completamente falida, se organizará à volta das habituais palavras de ordem do nosso nacional olimpismo: “queremos mais dinheiro”. E, salvo sempre as tradicionais exceções, todos aqueles dirigentes, com o poder do estatuto que têm, mas sem a força do dinheiro que não têm, vão explicar ao novo secretário de Estado o quanto se sacrificam pelo desporto nacional: são as cansativas viagens para todos os lugares do mundo; são os intermináveis “chekines” nos hotéis de cinco estrelas; são as desconfortáveis deslocações nos BMWs conduzidos a condizer por um “chauffeur” devidamente fardado e; são os inúmeros países que são obrigados a visitar como, por exemplo, o sacrifício que foi o terem ido à India participar nos “Lusofonia Games” que, na pantomina “neokitsch” em que o nosso nacional Olimpismo está transformado, ficarão para a estória do desporto nacional como os “Jogos Idiotas”. E, perante tantos sacrifícios, sua excelência o secretário de Estado chegará, certamente, ao fim da cerimónia com lágrimas nos olhos perante tantos e tão desinteressados sacrifícios. E, ficará ainda, com o coração despedaçado quando aquela pungente massa humana, num espetáculo “déjà vu”, lhe disser que ele vai ser o Messias de que o desporto nacional há tanto tempo aguarda. Assim aconteceu; com Miranda Calha (quando ele voltou ao local do “crime”); com José Lello que se “tramou de amores” por Fernando Mota; com Armando Vara que, felizmente, não chegou a aquecer o lugar; com Hermínio Loureiro e a sua Lei de Bases napoleónica revogada em tempo recorde; com Laurentino Dias e a sardinhada financeira em que deixou o desporto; com Alexandre Mestre deslocalizado para o seu próprio desconforto; e, entre outros, com Emídio Guerreiro e o seu modelo desportivo a caminhar tendencialmente para o caos.

Por tudo isto, quando sua excelência o SEFD presidir à festa do 106º aniversário do COP deve considerar que está a participar em mais um espetáculo que comemora um dos maiores equívocos de que há memória no desporto português porque a cerimónia a que vai presidir não se trata do 106º aniversário do COP mas, do seu 103º aniversário.
Tudo começou em 1978 quando, ao tempo do presidente Sales Grade e do secretário Garcia Alvarez, foi enviado para o Comité Olímpico Internacional (COI) um documento de onze páginas intitulado “Portugal and Olympism” que, embora bem organizado e, de uma maneira geral, factualmente correto, estava ferido de “pecado original” uma vez que associava a data da fundação do COP a uma hipotética data da fundação da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional (SPEFN) e, em consequência, confundia a vocação competitiva do COP com a vocação salutogénica da SPEFN. O referido documento acabou publicado na Olympic Review nº 129, de julho de 1978.

Entretanto, já no ano de 1979, Orlando Azinhais, atleta olímpico (Roma/esgrima) e funcionário superior da Direção-geral dos Desportos, que era uma sumidade no domínio da história do desporto nacional, ao tomar conhecimento do documento publicado no nº 129 da Olympic Review, percebeu imediatamente que os factos, do ponto de vista historiográfico, não batiam certo com aquilo que era do seu conhecimento. E, como ele próprio relata, até teve a oportunidade de explicar à própria Comissão Executiva do COP que se estava a cometer um erro na medida em que a instituição tinha sido fundada a 30 de abril de 1912 como se podia confirmar por vários documentos e números do jornal “Os Sports Ilustrados” e não a 26 de Outubro de 1909, pretensamente, a data da fundação da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional.
Para além do mais, acrescentamos nós, os dirigentes do COP ainda ignoraram que o 50º aniversário da instituição fora comemorado pelo presidente Nobre Guedes em 1962 (1912+50=1962) e, sobre esta ocorrência, até foi cunhada uma Placa Comemorativa onde constam os anéis olímpicos, os cinco escudos portugueses sem besantes, dois ramos de oliveira e a respetiva data (1912-1962). Produzida num total de cem unidades, foi enviada por Nobre Guedes e acompanhada dos respetivos ofícios para várias entidades nacionais e estrangeiras, entre elas o Comité Olímpico Internacional pelo que, no seu Museu Olímpico de Lausana está depositado, pelo menos, um exemplar, e o respetivo ofício faz parte do arquivo do Centro de Estudos Olímpicos referente a Portugal.
Perante a situação, foi resolvido pelos dirigentes do COP fazer uma consulta ao COI a fim de confirmar a data da fundação do COP. Contudo, por incrível que possa parecer, não foi ninguém da Comissão Diretiva a fazer tal consulta. Da incumbência foi encarregue Fernando Machado que se desenvencilhou do problema o melhor que conseguiu, embora, acreditamos que bem contrariado. E porquê? Porque, em 1962, tinha sido precisamente ele que na qualidade de tesoureiro do COP tratou da encomenda da Placa Comemorativa (1912-1962) e efetuou o respetivo pagamento. Apesar disso, Fernando Machado que era um autêntico “operário do Olimpismo” lá enviou para Lausana, em papel timbrado do COP, um ofício absolutamente incompreensível dirigido a Monique Berlioux, ao tempo diretora-geral do COI. Madame Berlioux, como era conhecida, imediatamente na volta do correio, como se tudo estivesse combinado como refere o jornalista Sequeira Andrade, respondeu a Fernando Machado tendo por base as informações do documento que o COP lhe tinha enviado em 1978 e tinham sido publicadas na Olympic Review nº 129 a tal que Orlando Azinhais contestava. E disse: o COP foi fundado a 26 de outubro de 1909. E foi o que os dirigentes do nosso nacional olimpismo quiseram ouvir. A partir de então, sempre que alguém contestava a data da fundação do COP a lengalenga oficial passou a ser: - consultámos o COI e a resposta foi 26 de outubro de 1909. Contudo, nunca mostraram os ofícios e nem sei mesmo se eles constam no arquivo morto do COP. Foi preciso ir busca-los a Lausana a fim de podermos confirmar o seu conteúdo uma vez que Sequeira Andrade já a um deles tinha feito referência embora não o tivesse consigo.

Chegados a 1982/83, já sob a liderança de Lima Bello, quando se preparavam para comemorar o 75º aniversário do COP, voltou a levantar-se a voz de Orlando Azinhais que, mais uma vez, tentou, ingloriamente, provar que estavam a cometer um enorme erro. Contudo, os dados estavam lançados. Já não havia nada a fazer na medida em que, por um lado, dizia-se “fizemos uma consulta ao COI e a data é 26 de Outubro de 1909” e, por outro lado, como valores mais fortes se levantavam e o sentido de urgência apertava os organizadores, o processo de comemoração do 75º aniversário do COP atingiu um ponto de não retorno. E quando Carlos Cardoso, inocentemente, como relata no livro “100 anos de Olimpismo em Portugal”, pretendeu que Lima Bello esclarecesse a sua dúvida, a resposta por parte do presidente do COP foi “tão agreste” que o levou a perceber, como ele próprio diz, que se estava perante um tema que “era proibido abordar”. Em consequência, o COP que comemorou o seu 50º aniversário sobre a liderança de Nobre Guedes em 1962 (1912+50=1962) acabou por comemorar o seu 75º aniversário não em 1987 (1912+75=1987) mas em 1984 sob a liderança de Lima Bello!!! Depois, como um erro nunca vem só, o centésimo aniversário do COP aconteceu em 2009 com a ausência do Presidente da República e o presidente do COI Jacques Rogge a abandonar o banquete enquanto o presidente do COP discursava. Quer dizer, umas comemorações “neokitsch” do pior mau gosto.
O que resulta da cultura neokitsch que tomou conta do nacional olimpismo é que o COP não tem honrado o seu passado desde logo porque, para além de não respeitar a data da sua fundação, ignora completamente o quadro ideológico (credo, vocação, missão e visão) que conduziu uma plêiade de jovens desportistas, a 30 de Abril de 1912, em condições de enormes dificuldades sociais, políticas e económicas, a fundar o Comité Olímpico Português condição “sine qua non” para que, pela primeira vez, uma Missão Olímpica portuguesa pudesse participar nuns Jogos Olímpicos, os da V Olimpíada que, naquele ano, se iam realizar na cidade de Estocolmo.
Por isso, a pergunta que se impõe é a que procura saber porque é que Sales Grade e Garcia Alvarez dois oficiais distintos e Garcia Alvarez até um investigador de mérito na área do desporto, enviaram para o COI um documento que procurava alterar a data do COP?
Porque, muito certamente, eles não se reconheciam no movimento “Kitsch” que o desporto já estava a trilhar e ameaçava contaminar o próprio Movimento Olímpico que vivia tempos de enormes dificuldades. Por isso, era necessário encontrar as raízes do Olimpismo nacional numa sociedade (a SPEFN) que lhe conferisse alguma credibilidade científica. A este respeito até se pode dizer em abono da verdade que a SPEFN albergava muitos prosélitos do desporto.

Ao tomarem tal atitude que foi, certamente, realizada com a convicção de que estavam a fazer o melhor para o Movimento Olímpico, Sales Grade e Garcia Alvarez procuraram dar mais dignidade ao COP e projetá-lo para lá dos aspetos mais negativos do desporto que a SPEFN criticava, contudo, hoje, é possível vermos que estavam enganados como enganado estava Lima Bello ao avançar para o 75º aniversário sem que o assunto tivesse sido bem estudado.
Por isso, ao novo secretário de Estado temos de lhe dizer, com a máxima franqueza, que o desporto padece da síndrome de Milan Kundera. Acontece a uma velocidade vertiginosa e como os dirigentes não têm tempo para pensar, esquecem. Se dantes se esqueciam-se porque iam muito depressa, eles hoje vão muito depressa para se esquecerem porque o que se tem passado nos últimos anos no Movimento Olímpico nacional, na realidade, só dá para esquecer porque é uma vergonha.

O movimento “neoKitsch” tomou conta do nacional Olimpismo português: são os “Lusofonia Games” os Jogos Idiotas; a Joana Vasconcelos pertencer à Comissão de Cultura do COP e ter sido ela a conceber, com um resultado absolutamente inaceitável, porque do mais primário mau gosto e ignorância, a moeda olímpica referente à Olimpíada do Rio de Janeiro; o Miguel Relvas ter sido nomeado alto-comissário da Casa Olímpica da Língua portuguesa no Rio de Janeiro; a dependência do nacional olimpismo dos interesses económicos; os documentos estratégicos ao estilo “magister dixit”; para já não falarmos, entre outros casos mais ou menos picantes, da obscena promiscuidade de altos dirigentes desportivos que, sem qualquer vergonha, acumulam altas funções nos partidos políticos.

Por tudo isto, lamento dizer ao sr. secretário de Estado que já está fora de prazo. O seu horizonte temporal terminou mesmo antes de ter sido nomeado. O tempo no desporto avança a uma velocidade tal que quando ele se der conta do que se está a passar já se foi embora. E passou a ser o Messias que podia ter sido mas não foi.

A festa Kitsch do aniversário do COP, no fundo, representa, tão só, um ponto alto do mais provinciano mau gosto da cultura “neoKitsch” que tomou conta do nacional Olimpismo.
De qualquer maneira desejo ao sr. secretário de Estado boa sorte.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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