A Síndrome Blatter e o Futuro do Movimento Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 17)

Espaço Universidade 31-07-2015 22:59
Por Gustavo Pires
Joseph Blatter presidente da FIFA é membro do Comité Olímpico Internacional (COI) desde 1999. O seu currículo é impressionante. Para além de vários cargos em diversas organizações desportivas, apresenta numerosas condecorações das quais se destaca a Ordem de Mérito Olímpico. Apesar disso, Blatter desceu aos infernos da humilhação quando, em vésperas daquilo que seria uma pacata eleição para um escandaloso quinto mandato, viu nove diretores da FIFA serem presos pelo “Federal Bureau of Investigation” (FBI), acusados de fraude, extorsão e lavagem de dinheiro.

Blatter, hoje, é o mais expressivo representante de uma “síndrome social” que se expressa pela mais absoluta promiscuidade entre política, negócios e desporto que, desde 1980, ano da eleição de Antonio Samaranch para a presidência do COI, tem vindo a destruir o quadro democrático em que o Modelo Europeu de Desporto (MED) foi construído após a II Grande Guerra. Esta inaceitável promiscuidade, em princípios dos anos noventa, foi denunciada pelo jornalista Andrew Jennings no livro intitulado “The Lords of the Rings”, onde são descritos os comportamentos inaceitáveis de alguns membros do COI. O escândalo acabou por rebentar em finais dos anos noventa quando Mack Hodler (1918-2006), membro do COI, denunciou que “de cinco a sete por cento dos membros do COI eram compráveis”. Denunciou ainda que que as votações para os Jogos Olímpicos de Atlanta (1996), Sydney (2000), Nagano (1998) e Salt Lake City (2002) haviam sido corrompidas através da compra dos votos de alguns membros do COI. Entretanto, a partir de 2000, o COI sofreu uma considerável purga tendo vários dirigentes sido expulsos. O último foi, precisamente, João Havelange antecessor de Blatter na presidência da FIFA que, em 2011, renunciou ao cargo de membro do COI desde 1963 a fim de evitar a iminente expulsão.

Quando, em 1998, Blatter, então secretário-geral da FIFA, sucedeu a Havelange estava certamente identificado como as questões que envolviam a sua liderança ao ponto de alguma comunicação social chegar mesmo a dizer que foi precisamente devido a essa circunstância que Blatter sucedeu a Havelange. Por isso, é inaceitável que, “debaixo das barbas” de Blatter, tenham surgido suspeitas relativamente às candidaturas de Moscovo e do Qatar respetivamente aos mundiais de 2018 e 2022. Para além do mais, depois do que, em finais dos anos noventa, se passou no COI, não se pode aceitar que a FIFA, da mesma maneira, se tenha envolvido num processo de grande promiscuidade entre o futebol, a política e os negócios, ao ponto de, por miopia dos europeus, obrigar o FBI a intervir na Europa!

Desde que, em 1952, a URSS, pela primeira vez, participou nos Jogos Olímpicos, até à queda do Muro de Berlim, o desenvolvimento do desporto foi sobretudo condicionado pela luta ideológica. A partir de então, com o anúncio de Francis Fukuyama relativo ao “fim da história”, quer dizer, o fim das ideologias, até houve quem, ingenuamente, tivesse chegado a pensar que, finalmente, de acordo com os sonhos de Pierre de Coubertin configurados na sua “pirâmide de desenvolvimento” tinha chegado o momento em que, para além da esquizofrenia das medalhas olímpicas enquanto tal, no âmbito da Políticas Públicas, podiam ser construídos modelo de desenvolvimento alternativos centrados num equilíbrio dinâmico entre o Estado e a Sociedade e no respeito por dois princípios fundamentais do desenvolvimento das sociedades liberais e democráticas:

1. Princípio da igualdade quanto ao direito universal de acesso à prática desportiva;

2. Princípio da equidade quanto ao direito individual de acesso (em determinadas condições) aos mais altos padrões de excelência.
Em consequência, ficavam para a memória da história os modelos de organização desportiva, tanto em países socialistas como capitalistas, em que os atletas eram, simplesmente, utilizados como “carne para canhão”.

O problema é que, o capitalismo é um sistema económico e social sustentado na competição que, enquanto luta pela sobrevivência que é, está inscrito no código genético da humanidade. Quer dizer, como afirmou Nietzsche o homem é natureza e, por isso, um animal de excessos. Aproveitando-se desta circunstância, os dirigentes políticos e desportivos dos mais diversos países, num oportunismo a todos os títulos desprezível, não perderam tempo não só a importar os modelos de organização desportiva dos países de leste como, também, a contratar os técnicos que, naqueles países, garantiam os extraordinários resultados desportivos. E assim aconteceu porque, a dinâmica neomercantilista enquanto estádio avançado do neoliberalismo que rege a generalidade das economias, tal como outras ideologias, também permite a políticos oportunistas de fraca estatura ética e moral, não só tirar partido das fraquezas das instituições como da própria condição humana. Em consequência, os dirigentes, à revelia da história, da democracia e do desenvolvimento, passaram a apostar em modelos de “desenvolvimento do desporto” estruturados, em regime de exclusividade, no sentido do rendimento, da medida, do recorde, do espetáculo e da conquista de medalhas olímpicas, sem atenderem que as medalhas olímpicas, na conceção de Pierre de Coubertin que continua mais atual do que nunca, devem tão só ser um meio ao serviço da promoção da prática desportiva. O problema é que um modelo de desenvolvimento centrado na obsessão esquizofrénica das medalhas olímpicas apresenta grandes vantagens para dirigentes para quem o desporto é, tão só, um instrumento ao serviço dos seus interesses políticos ou económicos. Quer dizer, se do ponto de vista da “cosmética política” permite apresentar atletas campeões como autênticos troféus, do ponto de vista dos negócios, permite colocar atletas de topo ao serviço dos interesses das empresas que os patrocinam. Veja-se, por exemplo, o caso dos jogadores de futebol que anunciavam as virtualidades do BPN e do BES.

E os dirigentes, quer do governo quer do desporto, nem tiveram de se contradizer ao fazerem aquilo que, outrora, em matéria de políticas públicas desportivas, criticavam aos países da esfera socialista. Mantendo o discurso do passado, dissimuladamente centrado nos valores pedagógicos e sociais do desporto e da necessidade da promoção da sua prática, limitaram-se a jogar com os critérios e os sistemas de controlo de financiamento das Federações Desportivas que, à revelia da salvaguarda da independência do Desporto Federado, deixaram de ser entidades responsáveis pelo desenvolvimento das respetivas modalidades desportivas, para passarem a ser máquinas promotoras de artistas, organizadoras de espetáculos desportivos e produtoras de medalhas olímpicas ao serviço do poder político e dos negócios. Em consequência, os dirigentes federativos:

• Já não se interessam pelo número de praticantes, mas pelo número de adeptos espetadores;

• Já não se interessam por planos de desenvolvimento mas por planos de negócios;

• Já não se interessam pela promoção social dos atletas mas pela exploração política e comercial da sua imagem;

• Já não se interessam pelo prestígio da respetiva modalidade mas pela visibilidade da marca que ela pode representar;

• Já não se interessam pela educação dos atletas mas pelo valor da sua imagem de mercado;

• Já não se interessam pela cultura que os clubes podem desenvolver, mas pelo poder social e político que eles podem proporcionar;

• Já não se interessam por um desenvolvimento do desporto integrado nas comunidades, mas por um sistema de Centros de Treino destinados a colocarem o corpo dos atletas ao serviço da economia e do Estado;

• Já não se interessam pelo desporto ao serviço do desenvolvimento humano, mas ao serviço da promoção de negócios e do prestígio político.
Ora, esta alteração do quadro conceptual do designado Modelo Europeu de Desporto, para além de estar a provocar problemas de consciência entre os dirigentes desportivos está, também, a desencadear o surgimento de enormes paradoxos e contradições no processo de desenvolvimento do desporto nos mais diversos países do Mundo.

Neste quadro de situação, salvo raras exceções, a generalidade dos dirigentes das Federações Desportivas está tomada pela “Síndrome de Blatter” na medida em que deixaram de ser os verdadeiros promotores do desenvolvimento das respetivas modalidades para se transformarem em autênticos “testas de ferro” de interesses políticos, económicos e financeiros que nada têm a ver com o desporto em geral e as respetivas modalidades em particular. Quer dizer, estão metamorfoseados em genuínos funcionários virtuais, dóceis, eficientes e baratos, dos governos e das mais diversas instituições económicas e financeiras com a missão de, ao serviço de estratégias neomercantilistas, promoverem a imagem dos patrocinadores e dos governos a fim de, no que diz respeito aos patrocinadores, agilizarem os negócios e, no que diz respeito aos governos, camuflarem políticas públicas absolutamente desastradas através de uma inflação de “campeões com pés de barros” completamente divorciados da generalização da prática desportiva que, em termos de desenvolvimento, lhes devia corresponder.

E assim, a “síndrome Blatter” expressa o conjunto de sintomas protofascistas que decorrem da promiscua e anti democrática relação entre política, negócios e desporto cuja ideologia neomercantilista procura, como aconteceu em Atenas (2004), em Pequim (2008), em Soshi (2014) e vai acontecer no Rio de Janeiro (2016), em Moscovo (2018), em Tóquio (2020), no Qatar (2022) e em Pequim (2022), colocar o desporto enquanto meio ao serviço de desígnios económicos do Estado e das grandes empresas multinacionais que pouco têm a ver com um projeto de desenvolvimento humano ao qual o desporto devia estar subordinado. (continua)

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana.
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