Espírito Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 9)

Espaço Universidade 02-04-2015 22:37
Por Gustavo Pires
Herberto Helder acerca da paixão grega referia ter lido algures que: “os gregos antigos não escreviam necrológios, quando alguém morria perguntavam apenas: tinha paixão”? E Herberto Helder continuava: “…quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão: se tinha paixão pelas coisas gerais, água, música, pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos, pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória, paixão pela paixão, tinha”?

Parafraseando Herberto Helder, quando olhamos para um dirigente desportivo devemos perguntar se ele tem paixão ou, simplesmente, está, tão só, a cumprir calendário em função da posição que ocupa; das mordomias de que usufruiu; da viatura topo de gama em que se transporta; do motorista que lhe fica às ordens; das viagens que jamais teria a oportunidade de usufruir; ou, entre tantos outros aspetos, do prazer esquizofrénico pelo exercício do poder pelo simples poder sem outro objetivo senão o de alimentar o ego.

Hoje, esta questão põe-se com enorme acuidade na medida em que se sabe que, se por um lado, o neoliberalismo desencadeado a partir de meados do século passado, nos mais diversos países do mundo, provocou políticas de temperança relativamente à excessiva intervenção do Estado na vida das comunidades e das pessoas, por outro lado, deu, também, origem a efeitos profundamente perversos que colocaram em causa o equilíbrio socioeconómico das mais diversas sociedades. A este propósito, Henry Mintzberg, um académico canadiano dedicado ao estudo da estrutura e da estratégia das organizações, num artigo publicado em 1996 na “Harvard Business Review”, alertava para o facto de, após a queda do muro de Berlim, a sociedade ocidental de economia de mercado ter começado a entrar num profundo desequilíbrio. Segundo ele, o capitalismo não tinha triunfado sobre o socialismo. O que triunfou foi o equilíbrio sobre o desequilíbrio.

O problema é que, a partir de então, o mercado tornou-se numa espécie de palavra mágica que passou falsamente a resolver todos os problemas do Mundo, do sexo ao desporto passando pela economia. E a economia capitalista, inebriada pela falsa vitória do livre mercado sobre o modelo socialista, dizia Mintzberg, começou, por sua vez, a gerar desequilíbrios de sinal contrário. Desta feita, já não se tratava do poder abusivo do Estado sobre os cidadãos, mas do poder anárquico de um mercado sem quaisquer constrangimentos que passou a determinar a vida das populações.

Porque é que as coisas acontecem assim?

Pierre de Coubertin dizia que o homem é um animal de excessos. Apesar disso, na busca da superação com vista à excelência, o homem, na dinâmica de equilíbrios e desequilíbrios proporcionados pela vida, deve ser capaz de encontrar a euritmia própria que pode permitir a paixão que deve orientar o desenvolvimento e o progresso.

Assim sendo, é bom que se considere que, se por um lado, se verifica que as virtualidades do mercado são desafiantes no que diz respeito à livre iniciativa, à sua capacidade de criação empreendedora, ao exercício das liberdades individuais, ao pluralismo político e ao desenvolvimento económico e social, por outro lado, verifica-se também, que devido à ganância dos homens pelo dinheiro, pelo poder e pela glória, as virtualidades do mercado podem em contrapartida tornar-se extraordinariamente perniciosas se usufruídas sem qualquer espécie de controlo por parte do Estado. Por isso, para que o mercado possa funcionar na sua plenitude, ele deve ser regulado. E deve ser regulado por um Estado forte porque o mercado é competição e a competição está inscrita no instinto de sobrevivência do código genético de cada homem, que o conduzirá sempre a uma luta sem limites, a que Nietzsche designou por “competição pré-homérica”. Assim, o exercício da liberdade da luta competitiva passa pela instituição de sistemas de controlo fidedignos a fim de que a competição possa acontecer ao mais alto nível. Quer dizer, a fim de que a competição social, económica, política e desportiva, possa ser levada ao limite da paixão competitiva que dá um sentido à vida, deve ser regulamentada. E quem não respeitar os sistemas de controlo, como explicava Hesíodo n’ “Os Trabalhos e os Dias” deve, simplesmente, ser ostracizado como decorre do exemplo de Hermodoro. Não se trata de uma perspetiva darwinista da competição. Apesar da ideia de natureza ser uma das categorias essenciais do pensamento de Nietzsche, ao contrário daquilo que, muitas vezes, se vê referido, o filósofo não tinha uma perspetiva darwinista da competição enquanto luta pela sobrevivência à margem de todos os critérios de racionalidade. A luta competitiva, para Nietzsche que era um helenista de méritos, devia desencadear o ser criativo e empreendedor que caracteriza a paixão que cada homem é, ou não, capaz de demonstrar.

Por isso, educação agonística para os gregos antigos era o bem-estar social. O jovem, quando competia na luta, na corrida ou nos lançamentos durante os Jogos, pensava na satisfação da sua cidade natal na medida em que era a glória dela que ele queria projetar. E ele fazia-o com enorme paixão na medida em que, até as coroas de louros que os juízes colocavam na cabeça dos grandes heróis olímpicos, eles as consagravam aos deuses das respetivas cidades. A este estado de espírito os gregos chamavam-lhe “areté”, uma espécie de paixão pelo virtuosismo; pela nobreza aristocrática do comportamento para com os outros; pelo heroísmo guerreiro; pela honra; pela glória; pelo “agôn”; e pela paixão pela vitória, justa, nobre e leal.
Por isso, eles cultivavam a paixão pela destreza e a força invulgares não só como exercício da estética do combate leal mas, também, como o suporte indiscutível de qualquer posição de liderança. A ambição existia, só que tinha limites e estava condicionada pela entrega concreta à causa social pela paixão competitiva.

Neste sentido, a paixão pela competição entre os gregos ganhava um sentido especial porque o que estava em causa eram os valores do social e a honra da própria cidade. Aliás, no mundo grego, era impossível separar a palavra competição da tríade jogo, festa e sagrado. Ao cultivarem a paixão pela luta os gregos desenvolviam o talento e a vocação através da competição, o que fez deles pedagogos tremendamente eficazes porque, nas palavras de Nietzsche, a competição “desencadeia o indivíduo” ao mesmo tempo que o reprime e disciplina, segundo o jogo sagrado das leis eternas da vida. Nesta conformidade, o sentimento que devia resultar da disputa entre dois rivais valorosos não era nem o ódio nem a vingança mas a nobreza de espírito na medida em que um antagonista de brio proporcionava ao outro a possibilidade de se conhecer e, continuamente, renovar as suas forças vitais, em busca da excelência.

E, voltando a Herberto Helder, quando olhamos para os dirigentes desportivos o que queremos saber é o grau e a qualidade da sua paixão. Como é que eles, num mundo que procura a dinâmica mais apropriada da euritmia entre o mercado e o Estado, gerem a dimensão agonística da vida através do jogo, da festa e do sagrado em busca da excelência.

Quer dizer, qual é o seu espírito olímpico?

Perante esta interrogação, uns dirigentes de Comités Olímpicos Nacionais (CONs) aproveitaram a abertura neoliberal para, de acordo com a Carta Olímpica, reafirmarem a sua independência e o estatuto de parceiros institucionais. Pelo contrário, outros, numa lógica neomercantilista, colocaram-se subservientemente ao serviço dos desígnios da tutela, assumindo, à revelia da Carta Olímpica, uma responsabilidade institucional exclusivamente performativa, com características pré-homéricas, sem qualquer respeito pelos princípios e os valores da cultura olímpica enquanto filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço do desenvolvimento humano.

O problema é que há demasiados dirigentes a militarem na superestrutura do Movimento Olímpico sem qualquer paixão pelo exercício das funções que exercem. Eles, como diriam os gregos antigos, foram tomados pelo mal de húbris. Estão simplesmente subjugados pela vaidade; pelo excesso de orgulho; pela arrogância; pela insolência; e pela desconsideração e desprezo pelos outros. Por isso, na democracia grega o mal de húbris era considerado um crime e o maior dos pecados cometido contra os deuses na medida em que significava um tresloucado amor-próprio devido a uma falta de controlo sobre os próprios impulsos; uma torpe violação da ordem e da medida das coisas; um atentado à dinâmica da euritmia da vida.
Por isso, não existe nada mais pernicioso para o desenvolvimento do desporto e da cultura olímpica de um país do que um burocrata com poder desprovido de paixão..., isto é, sem Espírito Olímpico.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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